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Intuindo a asneira da verdade do meu corpo que pariu.

17 Maio, 2012

Um dia um homem vai dizer-me que prefere o meu corpo assim, na construção possível do tempo. Um dia um homem vai ver na minha pele uma marca nunca antes comparada. Um dia um homem vai manter uma vontade sublime e sem testemunhas do cheiro que emano. Um dia será para sempre sem ética, nem moral, sem fecharmos as janelas, gracejando das rugas, dos corpos macerados, da vertiginosa falta de dentes. Um dia sem cabermos cá dentro. Flutuaremos entre os lençóis com as  luzes suadas da rua, num esforço da memória de um dia em que o amor se apresentou.

Desenrolar-me

16 Maio, 2012

Tenho umas certas palavras guardadas que continuam a dar voltas, viras conturbados em ais esganiçados de saias rodadas, círculos de tempo consumido em minutos inoperantes.

É

14 Dezembro, 2011

Existem imagens para o futuro?

Infinitivo Pessoal

3 Março, 2011

Como quase todas as mães distingo bem o ser do estar. (ponto)

Como quase todos os Homens separo o ser do estar. (ponto)

(Há tanto tempo não vou ao teatro. Nem ao cinema. Nem a lado nenhum. Há tanto tempo parei de trabalhar que já não sei o que é estar com dinheiro na carteira. Há tanto tempo me habituei a ser capaz de tudo e mais o resto porque uma mulher sozinha é uma mulher sozinha, mas eu não estou sozinha, estou bem, com a melhor das companhias que estrema todo o meu ser e o meu estar e me reduz a uma única existência, ou consciência.)

Eu consigo decidir e optar, mas existem coisas que não queria escolher solitariamente com todo a densidade da mortalidade e do seu erro. Destrinçar o considerável e comer uma canja com o melhor tinto que ainda sobrevive na garrafeira. Ironicamente SER heroíca hoje era perder as estribeiras e a sobriedade. Ai, ai, ai, acertem-me em cheio na consciência e matem-me o remorso. Não gosto de afectos mas de sentimentos e eu estou a amar.

 

(Na categoria dos falsos verbos, ou Verbo)

Marcha

1 Julho, 2010

Num restaurante, eu sozinha, vestida de preto apesar de tudo, visivelmente prenhe. Uma mesa com três homens grisalhos para lá dos cinquenta. No mesmo alinhamento deles, à direita, uma mulher, nos quarentas, de cabelos negros compridos, roliça, vestida de branco dos pés ao pescoço. Eles iniciam uma conversa com ela que se vai a saber é de Manaus. Falam, falam, falam. Um deles, o menos vermelho e menos barrigudo mas com mais brancas faz questão de vir atender o telefone para umas cadeiras atrás da minha mesa. Ela termina a refeição vai ao quarto-de-banho e vem de lá perfeitamente maquilhada, – Adeus meninos. O mais gordo insiste em dar-lhe um cartão de visita. Ela reitera o convite para aparecerem pela loja. O mesmo algodão na cabeça volta ao ataque atrás de mim. A conversa parece ensaiada, as piadas do costume, os apetites diversos. Esperava, com toda a certeza, que me virasse e sorrisse com alguma das piadas, ou que lhe transmitisse um olhar cúmplice quando estava na mesa de frente para mim. Eu ia olhando para ele com um interesse aduaneiro e comecei a pensar no que marcha. Ora eu não gosto de coentros e jamais diria que marcham. Mas se me disserem que se tratam de uns filetes de polvo com arroz do mesmo e que o arroz vem com coentros eu digo que marcham e marcham bem. Nem sequer era pela idade, que eu até tenho uma tendência geriátrica, era mesmo pelo disparate de pensar que eu era um molhinho de coentros, que até trazia brinde, mas que isso não interessava nada e marchava. É simpático ver que nunca me olham para o ventre e sim para a cara mas é impossível que não apreciem o molho inteiro e não reparem na voluptuosidade abdominal com que me apresento. Só pensava na marcha e no ‘Um, Dois, Esquerda, Direita, Encolhe a Barriga, Estica o Peito’ e como marcha.

suspiro

6 Abril, 2010

do verbo, na palavra em acto.

Digo o que digo e sinto como o sinto.

31 Março, 2010

Somos dois seres distintos que se entrelaçam na cama, que tomam banhos de imersão, que comem o jantar juntos, que ouvem a mesma música, que lavam a roupa interior na mesma máquina. Uma coisa carnal e visceral, cheia de cheiros e hálitos, de lenços sujos, de meias largadas em qualquer lugar. Isto que cresce de forma visível em mim. As ruínas desse sentimento estão longe ainda. O vazio do nada ainda não nos chegou perto. O abandono é uma palavra estéril.

Mais umas voltas hoje e a minha incapacidade para olhar algumas coisas, ou dizê-las. Sempre mais ou menos esquiva apesar de presente.

Relancear

16 Março, 2010

Dizia ontem uma amiga que escolhe sempre os caminhos mais sinuosos para encontrar respostas, ou a vida, ou as falhas nela. Eu podia ter dito o mesmo. Parece que a vida presente se enche de minutos inteiros de erros e punições que eu mesma procuro, numa dúvida física e mental que me esgota. No final lá se encontram as razões, mas a estrada é dura e as pernas cansam-se. Pelo menos agora durmo cedo, – penso menos e sonho mais, o que é bom para variar.

(Em Março como um palhaço.)

Teria palavras

17 Janeiro, 2010

Ontem diria coisas tristes. Hoje calo-me com o sentir cá dentro. As palavras não mudam o mundo.

Provocar-te

14 Janeiro, 2010

A tentação da tua boca, do teu hálito quente. Os teus lábios entreabrem-se e deitam-se nos meus. O peito rasga-se. O meu corpo humedece-se e a barriga precipita-se em entusiasmo. As mãos agarram-te impetuosamente. A tua boca continua na minha boca. A minha língua avara da tua. Já os meus braços estão perdidos. A centelha no baixo ventre.

- Fecha os olhos agora. Estou com as palmas das mãos no teu rosto. Aproximo-me de ti lentamente. A minha cabeça está inclinada para a direita. A língua preparou os meus lábios rijos. Beijo-te com pequenos toques. Chupo o teu lábio inferior. Sorvo a tua língua ansiosa que trepita em consumição. Canso as nossas bocas até que não sejas mais capaz de pensar e te abandones na minha boca.

Zangada, zangadíssima.

16 Dezembro, 2009

Se eu levantar o dedo ele segue-me. Estou com a bola toda. Capice?

O que é este dedo que segues? Se for sempre o mesmo habitua-te, se for sempre novo acomoda-te.

Não, desta vez não há cor porque pode ser diferente. Apetece dar. O muito. O pouco. O nada.

Apetece dizer, – diz outra vez, diz-me? – Desta vez sem sujar os pés, nem a roupa, nem nada.

Levantando o joelho

9 Novembro, 2009

É de um romance que se fala. A força desta permanência transforma-a numa raridade. A constância do amanhecer, ainda é cedo, dizes-me, a manhã ainda volta.

Justifica-se em absoluto a pontuação. Neste momento eu sei o que é uma forma, como usar essa forma. Então, diz-me, – Na varanda, à chuva, ou ao sol? - Preciso de uma imagem para isto. Já sei, é o enquanto. (É demasiado prometedor isso, demasiado.) Suporto melhor a água do Porto.

Acompanhamento?

15 Outubro, 2009

Refresco. Uns dentes saudáveis. Uma boca rubra. Um fruto carnudo.

Restolho. Um caracol adulto. Um enrolado lento. Uma folha seca.

Brisa. Uma janela.

Respiro

11 Setembro, 2009

Uma cor de pêssego pela manhã. Uma cor de chumbo pela tarde.

gira-gira

2 Setembro, 2009

…voa, voa… depois do sucesso vêm as críticas.

voa-voa

1 Setembro, 2009

… gira, gira… agora não quero que acabe.

opilar-me (eu digo ópilis, um verbo raríssimo, ou nem por isso)

21 Julho, 2009

Há coisas às quais não se consegue fugir, ou então que nos lembram uma qualquer coisa. Ou nada disto e recomeço: Uma gargalhada. Um nariz tão estranho. Uma barba a disfarçar a falta de barba. Uma pronúncia imperceptível. Uns dedos longos. Uns pés delicados. Um corpo magro. Uma arma. Um cavalo. Uma explicação. Uma pergunta. Uma teoria. Uma contestação. Um cinto. Um escaravelho. Um cão preto. Uma colher com sopa. Um anel.

 

(É em tudo e em nada o que se vê e depois como se sente. Desta vez não será assim. Não tornarei a ver a cor do pecado)

Voo ou a boutade de umas asas azeviche

18 Julho, 2009

Primeiro o verbo inquietar.

- Sentei-me à espera naquele pavilhão com o tecto em chapa. Meia-dúzia de garrafões de água cheios de pedras pequenas dispostos sobre uma lona verde. Um avião de fibra, as asas dobradas nas pontas, sem hélice. Um bar e uma televisão. O sol lá fora, a espera e a perna em movimentos ritmados e impacientes. A vontade dos cigarros e a borracha com sabor a menta na boca. O telefone a tocar no silêncio, a televisão aos gritos num programa qualquer que garantia que não ia já de fim-de-semana. A perna a agitar-se. Os dentes a triturarem a borracha. Umas casotas gigantes no segundo andar em madeira contra-placada. O avião não chegava e a lona verde, uns quantos bidons de gasóleo, grandes e vermelhos.  

Depois o verbo entusiasmar.

- Os arnês, as fitas muito apertadas à volta das virilhas, os ombros que se sentem, a carapaça preta agarrada às costas. Uma plataforma de madeira com rodas onde me deitei e experimentei a postura do corpo. O avião, quantos anos lhe dá, perguntou-me ele, não sei avaliar a idade destas coisas, não me chame nomes ao avião, pois, claro, é um avião, mas não sei mesmo quantos anos tem. Quarenta e cinco, um Cessna, mas está como novo, garanto, não precisa, não tenho medo de aviões. A chapa tão leve e oca, o banco único, um espelho retrovisor, uns farolins na asa esquerda, os botões todos mesmo ao meu alcance, um volante tão pequeno, uns headphones verdes e lacados tão bonitos, o tecto em acrílico, e nós sentados no chão. Ele subia com vagar, o Alentejo inteiro ali em baixo. As ovelhas que deixava de ver, as albufeiras, as estradas, a minha grande casa azul, a planície, as culturas redondas. Uma luz laranja começou a piscar e ele continuava a roncar e a subir numa imensa sobra de tempo.

Para sempre o verbo assoberbar.

- O aparelho redondo marcava uns quantos pés, é agora que nos pomos de joelhos, e piscou-me o olho azul, o castanho está morto e não se mexe. Eu na frente dele, a porta aberta e o vento lá de fora a entrar-me nos pulmões. A borracha na boca e eu a sentir a boca. Uns cliques e um corpo agarrado ao meu corpo. É agora, diz-me ele, e lá vamos como no oleado verde, de joelhos, dois ou três movimentos até à porta. É agora, continuava ele, e eu ponho um pé cá fora, depois o outro e o braço esquerdo agarrado ao avião. Disse adeus João e senti a boca. Lembrei-me do resto do corpo e com a mão direita encostei a palma no meu lado esquerdo, nada. A boca senti-a. Dois toques no ombro direito, cruzei os braços. Dois toques no ombro direito e saltei, de lado, o direito, para trás, e senti tudo. – Uoooooouuuuu. Foi num sussurro que se soltou. A boca. Dois toques no ombro direito e abri os braços. A boca. Tudo ali, na boca. A terra cá em baixo e o meu corpo com a minha boca a caminho dela.

Fracturar o que for

27 Junho, 2009

 Não desejo mais braços com os olhos às vezes em lágrimas que não vou acolher. Não me apetecem mais pessoas. Esta sim é a minha maior mudança. Crua. De uma crueza dura, que repugna olhar. A carne exposta. A incerteza do adormecer de uma criança que cresce para ver a putrefação. – Depressa, um galope, um fino tecido de seda azul que cubra de novo as formas de amar. Ficaremos de novo uma hora mais. Alguma coisa miúda faz falta agora. Como a água nos canos e dentro dos jarros de vidro. E atravessa-se o rico deserto da cura para a morte. Já não nos servem os olhos e os ouvidos. A boca mantem-se aberta como um filtro gasto e acastanhado, quase preto nas bordas do café que escorre. Ao acordar abre-se a boca e já não se a torna a fechar. Um líquido espesso e baço, o corpo gorgolejante num espasmo uníssono. – Porque tarda o galope? Onde está o vento arrastado no azul de seda?

neguem

19 Junho, 2009

(Em pequenas letras, como se fosse uma pequena coisa.)

Ligam-me às vezes e eu não atendo. Deixam-me mensagens que começam com perguntas: ‘Ouves os grilos?’ E fica um silêncio em que espero a torrente de grilos no meu ouvido. 

Escrevem-me às vezes e eu leio depois. Dizem-me ‘o teu corpo é como uma estátua de cera moldável, macio e liso.’ Passo o dedo na pele e esmago a carne para sentir a matéria.

Passaram já tantos dias. Em Agosto é que começa o Inverno mas até lá pingo água das palmas das minhas mãos. Estou onde quero estar. Neguem ou asseverem os dias que passam. 

A adoptar palavras meladas e grossas. A absorver as possíveis quantidades. O melindre débil de uma voz e de um ouvido.

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