Se um dia fizer uma revolução hei-de estar organizada. Ter um grupo de pessoas que comigo espalhem sangue nas escadas brancas da Assembleia da República. O sangue mancha, faz escorregar e liberta cheiro e raiva.
Se um dia fizer uma revolução hei-de estar de braços no ar, rendida à força policial que não quero que me bata, me pise, me parta.
Se um dia fizer uma revolução hei-de estar identificada. Hei-de ter uma roupa que me torne visível numa massa descontrolada.
Se um dia fizer uma revolução hei-de manchar de sangue os capacetes da polícia de choque para que os levantem e apanhem com o gás pimenta com que nos massacram.
Se um dia fizer uma revolução há-de ser violenta porque eu não consigo suportar a injustiça, a cobardia, o esquecimento e a velhice de outra forma.
A Europa está velha. Velha no sangue de gerações centenárias. Velha na cabeça de governos rachados. A Europa esqueceu-se de lutar e de se misturar, de aprender com as novas civilizações. Já começou a guerra, não temos bombardeamentos, não temos metralhadoras nas ruas, soldados em todo o lado, recolher obrigatório e sirenes nocturnas, mas temos a maior limitação de sempre: a limitação da liberdade, a limitação do pensamento. Onde estão os novos pensadores? Onde se encontra a resposta? O que é a nova filosofia? Quais são as metáforas que usamos? Dada a linhagem de primos consanguíneos nos parlamentos, estamos minados. Talvez o humor, ou os novos sentidos de humor sejam a resposta porque é só o que procuramos, um copo de vinho e uma gargalhada. A vida não é feita de espasmos. A vida é feita de paz.