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Quórum

29 Março, 2012

Se um dia fizer uma revolução hei-de estar organizada. Ter um grupo de pessoas que comigo espalhem sangue nas escadas brancas da Assembleia da República. O sangue mancha, faz escorregar e liberta cheiro e raiva.

Se um dia fizer uma revolução hei-de estar de braços no ar, rendida à força policial que não quero que me bata, me pise, me parta.

Se um dia fizer uma revolução hei-de estar identificada. Hei-de ter uma roupa que me torne visível numa massa descontrolada.

Se um dia fizer uma revolução hei-de manchar de sangue os capacetes da polícia de choque para que os levantem e apanhem com o gás pimenta com que nos massacram.

Se um dia fizer uma revolução há-de ser violenta porque eu não consigo suportar a injustiça, a cobardia, o esquecimento e a velhice de outra forma.

A Europa está velha. Velha no sangue de gerações centenárias. Velha na cabeça de governos rachados. A Europa esqueceu-se de lutar e de se misturar, de aprender com as novas civilizações. Já começou a guerra, não temos bombardeamentos, não temos metralhadoras nas ruas, soldados em todo o lado, recolher obrigatório e sirenes nocturnas, mas temos a maior limitação de sempre: a limitação da liberdade, a limitação do pensamento. Onde estão os novos pensadores? Onde se encontra a resposta? O que é a nova filosofia? Quais são as metáforas que usamos? Dada a linhagem de primos consanguíneos nos parlamentos, estamos minados. Talvez o humor, ou os novos sentidos de humor sejam a resposta porque é só o que procuramos, um copo de vinho e uma gargalhada. A vida não é feita de espasmos. A vida é feita de paz.

Sístoles, Diástoles

27 Março, 2012

Uma cor vermelho sangue. Rubra, verlhante como se fosse uma palavra nova em cor.

Um som profundo, alto, perturbador como uma moto, grave. Depois silêncio num vento restolhado. Depois uma porta, de madeira, pesada, que bate em cima. Bate-nos nessa parte do cérebro, em cima.

Vários corações estilhaçados. Uns estilhaços reais, vulgares de um órgão humano interiormente rebentado. Simples.

A cor, a cor vermelho sangue. Quase um sabor. A que sabe aquele vermelho? A que dor? O que é tão simplesmente humano quanto um coração rebentado?

s. f.
Figura pela qual se emprega como breve uma sílaba longa.
Transformação de uma sílaba breve em longa.

Electricidade

20 Fevereiro, 2012

Não chove. Falta-me a água que cai sem nada. Cai porque é assim desde sempre. Não me reconheço neste sol sem sentido, destas tarde com abelhas. Fazem-me lembrar de coisas. Acaricio as pontas do bigode, suave como as sobrancelhas. Elevo o pescoço e acordo torta, enrolada numa pirâmide.

Dei início a uma história que um dia ela há-de ler.

Realização muito incerta

27 Janeiro, 2012

Trocar o exterior pelo início. Se o início fôr a primeira letra, ou o lugar inícial. O sítio primordial. O da entrada.

E depois não conseguir trocar, mas ainda assim, ainda assim trocar.

O alvo que sai, que esmaga, revolve. E acrescentar uma existência independente, em pontos nervosos e ao mesmo tempo severos.

Resolver assim uma divisão, um quarto fechado, – e não se abrem portas fechadas, que não te preocupes, não abro – e agora, logo ao chegar, escancarado.

rascunho

18 Janeiro, 2012

Sem tempo para delongas, metáforas, aforismos: preciso de ganhar dinheiro. Trabalho honesto, com inteligência ou com força. Cheguei àquela altura na vida em que não dá mais para nada, nem sonhos, nem liberdades, nem músicas, nem vinho. No trabalho estará a salvação, ou uma vida mais qualquer coisa.

Escrita fina, escrita normal.

11 Abril, 2011

Tenho a menina na ama. A menina tem sempre arranhões. Fumar mata. Agora fumo também cigarros de enrrolar. Tenho a mania de esconder coisas. Não as coisas-coisas, mas coisas de cá de dentro. Gosto de palavrões. Sou obsessiva com pessoas. Ciumenta com quase todos. Sinto-me em ebulição. Penso na centrifugação. Pato rima com nefasto. Ou com nesga. Ou pêra. O ou faz parte de quase tudo. Nada ou ninguém. Uma pessoa me liga aqui e me faz continuar. Quero sapatos novos. Vários sapatos novos. Quero roupas da nova estação. O armário. As estantes. Os livros cheios de pó que tenho que limpar. Os gatos. As alfazemas. Os morangos do Alentejo. O som. O são. Realmente. Realidade.

Parte e reparte

26 Janeiro, 2011

Algumas acções humanas fazem-me, a mim, tapar a boca de choque. Horrorizada tapo a boca mas não fecho os olhos. O que faço nos momentos seguintes a essa observação é nulo para fazer diferença na maldade humana.

A inocência da minha filha antes de adormecer, embalada nos meus braços, a sorrir devagarinho e com ternura deixa-me mais sossegada com a vida. O embalo é puro. O sorriso não mistura mais nada para além do prazer. Ela dorme quentinha lá dentro, aconchegada nos lençóis que a avó, a minha mãe, bordou. Mais do que uma vez há-de chorar de noite para pedir alimento e, de todas as vezes que o fizer, eu irei em passos céleres e felizes acalmar o choro com palavras doces e fornecer o leite apaziguador. Se pudesse, evitava para sempre que ela visse todo o mal que a rodeia. Gostava de impedir que um dia ficasse em choque e fraca perante os actos humanos. Mas gostava acima de tudo que os soubesse olhar e que não perdesse a candura nem a facilidade de amar quem a ama, de dar a quem lhe dá, de pedir quando precisar, de fazer sempre o melhor ao seu alcance. Espero que se torne numa mulher justa que admira o que vale a pena e que repudia o que não presta.

O Homem, na sua essência, já não está maduro, está podre.

Instrumentos musicais dos anjos

23 Janeiro, 2011

Um frio de arrepiar o couro cabeludo. Um corpo cheio de sangue, e lágrimas, e sorrisos sinceros, e olhos espertos. E tantas coisas mais embaladas numas horas que passam. Passam as horas.

Puritanismo

20 Setembro, 2010

Até com estranhos já me aconteceu: desde que tenho um bebé na barriga as pessoas sentem-se no direito de me julgarem. Não o fazem por mal, oh eu sei das boas intenções que todos têm! Se fumo sou criminosa. Se estou de barriga para cima sou acusável. Se não atendo o telefone sou egoísta. Se subo escadas sou censurável. E o rol nunca mais termina. O que de facto me aborrece é que ninguém se lembra de mim. Ninguém se lembra que se fumo é porque preciso. Se estou de barriga para cima é porque me doem os rins. Se não atendo o telefone é porque estou farta de responder às mesmas perguntas. Se subo escadas é porque ninguém as vai subir por mim.

O meu corpo não é património nem de amigos, nem de conhecidos, nem de estranhos. O bebé que se aloja confortavelmente cá dentro não é património nem de amigos, nem de conhecidos, nem de estranhos. Quando nascer tenho o direito a ter privacidade, tempo, calma e a censurar, limitar, impor horários de visitas, telefonemas e quaisquer outras manifestações de júbilo. Andei nove meses para aqui na minha vida quase sem me enervar, sem solicitar e sem importunar. Chegou o momento em que vou impor a minha vontade. Parece que já nem distingo os rebeldes dos provocadores e isso está a bulir-me com os nervos.

Pirolitos

4 Agosto, 2010

Andava eu aqui a pensar no corpo, com o corpo e para o corpo e logo me lembrei da paixão. A paixão que esmorece e morre e parece tão simples na boca dos jovens sub-vintes: é uma coisa física. Não se explica, como não se explica a paixão de um cão violentamente em cima de uma cadela. Os cães pelo menos ficam acoplados alguns minutos, – os valentes, – já os homens esmorecem ao fim de alguns segundos, ou assim tem sido a minha experiência. Mas como se diz lá na terra de onde eu venho, “enquanto houver língua e dedo não há nada que me meta medo”. Pois a mim parece que também não.

termómetro

27 Junho, 2010

É como estar sempre dependurada entre cordas grossas e braços de estivadores.

A despropósito um grupo improvável vê-se no carro a caminho de um sítio impossível de encontrar. O bom tempo transforma-se em chuva grossa. Ele de repente aparece com uma argola na orelha e outra no nariz. Isso assim, de repente, sem eu saber que tinhas uma vontade?, Depois falamos, depois falamos. Os olhos turvos e eu decido-me pelo volante. O gato preto tinha entrado também mas era obediente como um cão. Ela andava ao lado dele, o tempo todo de acordo com as novas vontades. Uma drogaria para comprar fraldas para a nova menina que também lá estava, feliz pela viagem sem os pais. Um país molhado cheio de viúvas. Placas de desvios a imporem-se de amarelo. Estradas estreitas, conversas animadas lá dentro, menos eu que pensava nas novidades que se tinham depositado em frente aos meus olhos. Teria sido nas viagens?  Quase nem ouvia as conversas. Pensava nas respostas e justificações a dar. Pensava no que dizer perante o absurdo. Porque teria eu de dizer coisas? De as tentar explicar?

Nisto uma dor de rins pela bexiga demasiado cheia, Tens que tirar roupa da cama, o calor dá pesadelos, pensei.

Mulheres

10 Junho, 2010

Talvez a culpa afinal seja delas, nossa, minha.

Se chove é bom porque os tomates precisam. Se faz sol é bom porque os tomates precisam.

Se trabalhamos demais é porque tem de ser. Se trabalhamos menos é porque precisamos de descansar.

Se somos vaidosas somos lindas. Se somos negligentes com a aparência somos simples.

Se não nos amam é porque ainda não apareceu o amor de verdade. Se nos amam o que mais podemos desejar.

Parimos e criamos gerações adormecidas que aguardam o beijo redentor da vida. Quase sem ânimo, tantas vezes, a embalar os braços vazios.

Meninas

9 Junho, 2010

Passaram mais de dois anos desde que  a vi pela última vez. Ela era ainda muito loirinha com uns cachos compridos. Parecia uma galeguita  a falar na sua boca miúda. Gostava de mim porque sim, gostou sempre de mim com os seus olhos de um azul celeste. Pareceram-me sempre tristes os olhos dela. Era linda e dócil. Cresceu um bocadinho. Saiu corajosa a minha menina, a minha primeira menina de verdade, a única que pensei que tivesse perdido num qualquer passeio da vida. As fotografias dela estão por aí, na gaveta das recordações. Voltou agora, menos loira, o cabelo menos angelical. Os mesmos olhos azuis tristes e com eles um balão com uma guita branca presa no meu dedo levantou-me do chão.

(A surpresa foi do grande beijo que me enviaram pela menina.)

Tino

11 Abril, 2010

Transtorna-me a estupidez. A arrogância. Os seres comezinhos e mesquinhos. As pessoas que são pessoinhas e que vivem vidas que mais não passam de vidinhas em que se aprazem a fazerem uns quantos danos ou a causar prejuízos. Gentinha miúda, canalha que como nós anda erecto e cobre o corpo com roupas mas que em nada se assemelha aos seres inteligentes, civilizados e humanos dos quais tento rodear-me. Procuram quezílias sem qualquer escrúpulo que a sua parca capacidade intelectual não lhes permite ter atenções com mais ninguém a não ser com o próprio. Causam-me asco, fazem-me ficar cheia de raiva que exprimo por palavras que gostava que soassem mais agressivas, ou mais altas e gostava, acima de tudo, nestas alturas, de ser homem, medir dois metros de altura, ter os músculos dos super-heróis e mijar-lhes nas pernas. Com esta escória só o mais grosseiro dos actos seria capaz de harmonia entre as partes. No meu caso e dada a minha constituição física com uma automática resolvia rapidamente a questão. Não lhes disparava uma rajada nas trombas de barbas rapadas porque a minha sensibilidade não me permite, mas garanto que se mijavam nas calças!

Densidade Animalista

18 Fevereiro, 2010

É de verdade um país pobre. Miserável. Por dia, quem trabalha, pode gastar 15 escudos dos antigos. Isto dá-lhes para comprar mangas, ou cana de açucar para enganar o almoço. À noite, nas cubatas onde vive quase toda a população, comem na esteira a farinha cozida nem sempre com molho de tomate a acompanhar. Não têm água nem luz, não têm uma mesa, nem camas. Têm uma esteira que enrolam de dia e estendem de noite. Nos centros das aldeias todos vendem algum produto, tomates, mangas, cana de açucar, milho, pêra-abacate, goiabas, mandioca, alguns fritos que as mulheres cozinham em casa. Algumas bancas de comida com um cheiro a bedum intragável têm grandes frigideiras fumegantes o dia todo com pedaços de carne inqualificável e um espeto de metal onde os homens, sempre os homens, picam o pedaço escolhido e comem-no. O espeto lá fica para o próximo. As bancas da venda de carne têm as peles dos carneiros expostas e as moscas não encontram nenhum obstáculo para se alimentarem ou depositarem os ovos. Ninguém parece importar-se com nada.

Eu passo e páro o mundo aqui. Se tento aproximar-me, sempre só das mulheres e das crianças, tenho primeiro que estabelecer um contacto demorado. Com os miúdos tenho mesmo que recuar várias vezes para que não fujam. As mulheres exibem radiantes as crianças e os pesados troncos nas cabeças. Se lhes dou alguma coisa aninham-se e tenho logo vontade de me aninhar com eles. Quase sempre começo por fotografar de baixo e ao longe. Nem sempre consigo aproximar-me mas a beleza rude destas pessoas vale apenas pelo folclore, uma massa sem nome como uma máscara talhada do ébano sem assinatura.

Não existe praticamente violência, “it’s the warm heart of Africa”. Não existe noção de perigo. Os homens estão sentados no alcatrão, de costas para a estrada e não raras vezes espraiam-se quando se riem e ficam assim deitados, a cabeça no meio de uma estrada onde carros passam velozes e onde mal cabem dois em sentidos opostos. Morrem com inocência. O mato cortam-no à catanada com movimentos fortes de braços para a esquerda e para a direita. Vi três velhos hoje, os primeiros que vi um país onde a esperança de vida ronda os 45 anos. Um país onde as crianças vão à escola de uniforme e descalças. As turmas têm aproximadamente cem alunos que se sentam no chão e escrevem nos cadernos fininhos que transportam em sacos plásticos à cabeça. Nos intervalos a quantidade de crianças a brincar nas imediações da escola é inacreditável. Centenas de miúdos jogam com bolas feitas de panos e bem apertadas em cordéis. Meninas correm e rodopiam. Baloiçam-se nos galhos das árvores. De manhã os caminhos estão cheios de meninos que caminham pela berma em parelhas organizadas e sem nenhum adulto. De tarde os caminhos estão cheios com os mesmos meninos mas sujos já, sem os uniformes, com varas a encaminharem cabras e a escarafunchar uma coisa qualquer na terra.

Eu nem sei o que digo ou o que penso quando me sorriem abertamente. Ficam com as mãos levantadas paradas e eu oiço Haydn amplificado e a sua Sinfonia do Adeus.

Cantinas que sobejem no prazer e na necessidade.

9 Janeiro, 2010

 

A saltar de uma bolha para outra bolha a fim de não nascer filha de uma qualquer.

Os Homens com poder, dinheiro e conhecimento estão de braços cruzados. Sentados a observar que os Homens jamais serão iguais no mundo. Imóveis enquanto respiram o ar puro ou contaminado que escolhem respirar. Imóveis  para o choro dos meninos a quem ninguém lhes limpa o ranho. Imóveis para a fome da mãe que se deixa subnutrir com os filhos nas costas e que mexe os braços para que o fruto do seu ventre tenha comida. Imóveis para o desespero do homem que negociou a sua dignidade numa luta laboral. Imóveis para o olhar vazio dos velhos abandonados num sítio mal iluminado e bafiento. Imóveis para os jovens que se deixam ficar de olhos abertos e baços sem desejar nada.

Imóveis a respirar.

A política está somente para os sonhadores e os resistentes. Os outros devem ser afastados do poder latifundiário.

Está na hora de ventar a marcha.

Ser Supremo

18 Dezembro, 2009

 

Tu sabes que eu quero algumas coisas só por algum tempo, quantas vezes uma só vez.

Este ano gostava muito de experimentar o tempo, ver todos os dias o mesmo, ver todos os dias diferente.

Trilho na cabeça

17 Dezembro, 2009

As caras que dizem o que sentem sem ter medo de o sentir não me saem da cabeça. Estão alojadas na frente, do lado direito da testa, por cima da sobrancelha. Estão ali paradas e quando as vejo o lado esquerdo da cabeça, mais atrás da testa, fica em movimento, oiço-as. Por todas elas tenho um golpe no lábio inferior, do lado esquerdo, porque me mordo com o meu dente incisivo mais saliente.

Noz

14 Dezembro, 2009

 

Encontrar um mapa colorido para a ilha do tesouro não nos dá a coragem para enfrentar os animais que por lá nos esperam. Ou para desenterrar os cadáveres.

Restos

12 Dezembro, 2009

Se te chamar vil, verme, inútil, mesquinho, medíocre, ruim, contaminado, putrefacto, desprezível, fraco, não conseguirei abranger toda a tua imunda e vã existência.

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