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(notas pessoais)

27 Maio, 2010

Uma certa culpa. Uma certa alegria. Um certo medo. Um certo desespero. Uma certa dúvida. Uma certa certeza. Um certo desejo. Um certo destino. Uma certa preparação. Um certo desconhecido. Uma certa dor. Uma certa vida. Um certo tempo.

Um incerto coração.

(notas pessoais)

28 Março, 2010

Tenho os lençóis azuis secos a ameaçarem partir com o vento. Tenho pêlos do gato braco na camisola preta. Ai, como consigo escrever o meu mais aberto e sentido sorriso de sempre? O meu ainda está escondido, nem escrito foi ainda. Talvez espere que chegue. Talvez nunca venha. Tudo cresce ou incha nesta altura. Tudo vinga. Mais tarde tudo morre. Ou nasce definitivamente apesar de estar vivo ainda. Tenho um tabuleiro no forno que perfumou toda a casa para o lanche. Um sapo de madeira que foi alimentado com azedas o dia inteiro. Um sentir diferente cá dentro. Qualquer coisa brilhante que cresce. O sorriso, o meu mais aberto e sentido sorriso de sempre, talvez seja nesse dia. Talvez me veja a sorrir assim um dia.

(notas pessoais)

10 Outubro, 2009

O alterado e concebido. O dia inteiro derramado nos passeios. O som de todo o dia acabrunhado debaixo dos meus pés. A cor do dia ali esponjada nas ruas. As palavras todas ali guardadas para o meu peso. Os nomes de todas aquelas ruas. Nada para além das minhas trágicas mãos. Desesperadas a tremer pela distância entre o dia ali e as mãos pesadas. A enfrentarem os nomes das ruas mortificadas pelo que foram. Enquanto todos olham o céu, o sol a ir abaixo.  A costa uma imensidão de lonjura onde as crianças choram sem que ninguém as oiça. Ninguém interrompe essas ruas. 

 

Red old fox. 

 

She can’t hear so well 

Shivering like this she can’t hear so well the night that comes.

If only for this night another old fox was there

just waiting for the night that comes.

Where did all old foxes gone?

What was the day i became the only old fox?

Shivering not for the cruel wings of the white wind

Shivering like an old fox.

(notas pessoais)

19 Setembro, 2009

Mas quando estávamos na cama era perfeito. Quando me rio. E depois surgem as curvas e eu vacilo. Mesmo em frente ao espelho e a ver a verdade absoluta e a perceber tudo, e tenho que fugir, para não repetir erros. Não gosto nada de repetir erros, mas alguns deles terminei-os antes de os ter rebentado, ou me ter rebentado a mim. Acho que era porque não aguentaria. E acho que agora aguentava o antes. Mas isto é porque é tudo demasiado pensado, controlado, ou distante, mas há pessoas que não me saem da cabeça. É porque estou sozinha, é carência, falta de atenção, de sexo, de beijos, de corpos a manhã toda na cama.

(notas pessoais)

13 Julho, 2009

Se cada dia valer d

ias. 

Os suspiros e as granadas. Os entumecimentos e as flores dos campos.

Se cada dia valer d

ias.

Os óculos de sol postos e ela nos seus cabelos curtos tão brancos sem o serem completamente, ela naqueles sofás verdes com um piqué amarelo, ela sentada às escuras de óculos de sol postos.

Se cada dia valer d

ias.

Os meus dias cheios de névoa, incertos sobre um específico carril. Pudesse eu saber se um dia usarei o corpo  como alimento. E saber que cada dia vale dias, dias da minha vida e que cada vida traz em si a sua morte.

(notas pessoais)

18 Maio, 2009

Dizer-te que quero o que quiseres dar. Dizer-te que afinal não quero nada. Que enceno o final. Que retiro todas as cores do palco para o fazer negro. Que te diga que tenho medo de errar e o fechar antes. De perder tudo. Que não tenho medo de nada e que avanço. Que me sinto na noite que encerro e que a mesma noite me enche o canceroso fruto da alma. Que lamento o grito que fica aqui retido nas cordas vocais gastas. A boca aberta num pasmo. A saliva a secar. O olhos a encherem-se de mel e fecharem-se. Que é tudo mentira. Ou fábula. Que bonita noite escura. Onde o preto não é cerrado e ouvimos. Que quando oiço a minha cabeça se baixa. E que é o som que ouço que me faz abrir os olhos. E que se a seguir sorrir é porque era a noite boa. Que não é nada disto, que só me afogo. Que ressuscito. Que me lambo como se fosse um tambor. Que arranco as peles das unhas com as unhas. Que arroto o almoço ao jantar. Que não quero perder nem ir a jogo. Que consigo dizer-te um drama em tom de festa. Esfregar-me numa parede em lascívia enquanto te canto a morte de Inês. Um disparate que me tem tão longe de tudo. Que me pesa nas pernas que não tremem, mas estancam no caminho. Secam no passo que se arrependem. E é preciso correr. E dizer-te o que tem interesse. Que eu preciso tanto de voar. De dar um início.

(notas pessoais)

25 Março, 2009

Até parece que estou a fechar um cerco. Dentro do cerco não poderia perder nada. E parece que fecho um cerco. Esta coisa de ser outra coisa dá-nos muito que pensar e que controlar. ‘o vómito da luz ergue-se/das palavras ditas em surdina’, como se não ouvissem, pior, como se não me vissem. E repiso o chão nos mesmos sítios onde já tinha repisado, repisado, repisado. Se decidi, tenho de deixar o cerco de ar que parece que estou a construir. Seguir para outro lado, nem que seja para um novo cerco, mas novo, ainda cheio de ervas a nascerem debaixo dos pés. E aprender a falar para mim, sem estar sempre a usar a primeira pessoa a falar em bicos dos pés. É que nem sequer falo, escrevo. O único som que ouço sai-me dos dedos indicador e médio das duas mãos. Das pontas das mãos. E como se pára de fazer um caminho tão certo? É que não é desta forma, assim, a andar assim, a andar assim em círculos. Olho o chão que vou sulcando e mantenho as mesmas cócegas dentro da cabeça, que até parece que estou a guardar coisas, a guardá-las de uma forma absurda e aniquilante, e amedrontada. Eu estou assim, sempre no mesmo. Estarão as ruas cheias ou vazias agora?

 

notas para o diário
 
deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.  

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Al-Berto
Horto de Incêndio
Assírio & Alvim
3ª edição – Dezembro 2000

(notas pessoais)

21 Março, 2009

(meias, cuecas, mudar guarda-vestidos de estação, calçado, quilómetros, música, carregadores, mangueiradas, baixinho, físico redondo.)

Frágil rosáceo. O branco da geada, não ao lado, mas em cima de tudo. Assemelha-se ao resto das cores.

(notas pessoais)

27 Fevereiro, 2009

Isto e outras coisas que fiz fi-las e volto a repeti-las. Será solidão ou privacidade?

(notas pessoais)

16 Fevereiro, 2009

 

Quelq’un regarde / O belo não é eterno. / Parle a quelq’un ce soir / Olha ali uma estrelinha no céu.

 

Guardador de Rebanhos:

de índole pacífica;

sereno;

sossegado;

que não faz barulho;

domesticado;

cultivado (terreno);

tipo;

espertalhão;

matulão.


(notas pessoais)

23 Janeiro, 2009

 

É Assim a Vida: é um carrossel. Não vou parar de falar de mim. Não vou parar de sentir e de me rodear de pessoas. É tudo pessoal e é tudo sério. Todas as palavras que dizem as pessoas. Todas as palavras que imaginamos as pessoas a dizerem. Todas as pessoas que existem para mim. Todas as pessoas que existem só em mim. As pessoas que vivem e as pessoas que mato. As pessoas que me morrem. As pessoas que me fazem rir. Só com pessoas dou risadas francas, sonoras. Muito poucas ou então muitas no mesmo local a gargalhar comigo. Pessoas, para meu grande gaúdio, pessoas. O lugar estranho que somos todos os dias. Todas as pessoas.

(Nota-se bem.

5 Janeiro, 2009

Que impressões estranhas, – que coisa que se sabe, mas que não se sabe daquela maneira. Estas pessoas, a gente da minha gente. Tantos sinais, tantas caras que se reconhecem. ‘Há uma forma que se nota, assim, na cara’. Nota-se. É tão estranho mas nota-se. Nota-se em muitas coisas. Nota-se na forma como esfregam a cara. Nos chinelos que trazem nos pés. Nas crianças que dormem nos colos. Nota-se bem aquilo tudo. Nas mãos que pousam em pernas. Nota-se nos costumes todos. Nas mesas e nos bancos, nos corredores.

Nota-se a falta do que quer que se seja. Nota-se de uma forma evidente aquilo tudo. Nota-se naquela estupidez bárbara. Nota-se naquela vontade de simetria. Nota-se naquela garrinchice. Naquela vontade de beleza. Na forma de falar.

Nota-se muito a tristeza. Nota-se demasiado a tristeza.

Agora vou fazer a obra.)

(notas pessoais)

17 Dezembro, 2008

Presença.

Queres saber?, Não queres, eu sei, não me perguntaste nada. Continuo com coisas para te dizer. Sinto a falta das nossas conversas avulsas. Sinto a falta dos nossos pensamentos partilhados em construções e linhas tortas. Queria falar contigo sobre comboios. Não é um disparate, é uma junção de carros atrelados que circulam na mesma direcção com a mesma velocidade. Da viagem. 

Saber coisas de ti. Mais histórias que só tu sabes. Saber se te importa, o que te importa, o que é a brincar, o que é sério. A pergunta e não, não vais morrer antes dela, que isso não te inquiete.
Saber se te importo. Soubeste mais alguma coisa de mim? 
Queria saber várias coisas. Muitas coisas. Estranho a tua ausência. Estranho a tua presença.    
Sinto a tua falta. É só carência, espero. Isto passa. Se ao menos me chamasses bicho.

(notas pessoais)

5 Dezembro, 2008

Airada, estou quase uma senhora, só preciso mesmo é de uma governanta e que me giram os dinheiros. E já que é para pedir, meu filho, também me dá jeito um homem cá por casa, tenho uns trabalhitos que não sei fazer e que são quase uma urgência.

(notas pessoais)

29 Novembro, 2008

António, tivesse eu o talento disto que sinto com o corpo, – enquanto ouvimos esta chuva a cair que Deus a dá lá fora, –  que eu tenho o corpo a pedir chuva. E antes dizer-to a ti, antes dizer-to a ti. Há muito tempo que não apanhamos a chuva. Que caía água do céu. Que nos caía em abundância. Quero falar contigo da chuva.

(notas pessoais)

28 Novembro, 2008

Não há nada a fazer, mas vou tentar guardar-te assim, aninhado – quente e terno, tão brando e belo. Tão sadio.

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