Há muito tempo houve um que me mostrou a pila e me disse que lhe podia tocar. Depois outro que eu queria experimentar a pila, mas esse não era bem um homem ainda. E outro a seguir, maiorzinha, que me disse que havia o que eu não sabia também com a pila. E outro depois desse que me via na casa-de-banho e mexia na pila. E outros com carros e pilas dentro e fora desses carros, que pelo menos lhes via a pila. E depois outros, desses que achavam que por terem pila podiam usá-la. E depois uns que me recusaram a pila. Em definitivo uma pila de um caucasiano. Posteriormente pilas que procuram um qualquer encaixe. Eu digo pila. E posso andar mais para trás, ou mais para a frente com as pilas. Terei sido clara? Se me ouvissem dizer pila perceberiam de certeza.
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Eu regozijo
31 Março, 2009Com a falta de sonhos. É que tudo aquilo é o mar sem ser rio ou salgado. É um lago de margens suaves que vive dentro daquela vida.
Ela uma vez
16 Março, 2009Ela por ela não se importava de ficar naquela casa. Até gostava da cama, era fofa como algodão e quente como um casulo. Gostava das mobílias coloridas da sala, gostava de ficar na cozinha sentada num banco muito pequeno, branco, que servia de degrau para os armários kafkanianos mais altos e gostava de ficar de molho na banheira do quarto-de-banho verde, sentia-se um tronco a boiar. Mas acabou por sair e não foi ninguém que a mandou embora. Um dia ela partiu cá por umas coisas. Sabia, no dia em que partia, que escolhia e que ao escolher renunciava. Desconfiava que a liberdade da escolha era a maior liberdade que tinha e que ao decidir a própria vida decidia a alma toda. Mas foi à procura da resposta e do fim que a acompanha.
Tudo se alevanta
1 Março, 2009
Começa com chuva o Março. Já me disseram que era humidade. Não é, é chuva.
O grande vento.
13 Fevereiro, 2009
E dobram-se meses como não se dormem noites. E passamos dias sem sabermos dos meses. Quand je parlerai la langue des anges, si je n’ai pas l’amour… tudo o que não sei dizer. Perco os olhos ao verificar a estranheza de tantas coisas, de tantos dias, de tantas razões. Este é o meu tempo. Vou atapetá-lo com palavras que nunca foram ditas. E se a planície enjoa pela falta de desafio mais atrai pela calma. O amanhã vai outra vez emaranhar-se. Mas eu terei campos votivos. E há certas músicas que fazem tudo ser tão parecido. A cara enche-se de encorrilhas. Afinal com o que é que sonhaste esta noite? Ninguém faz de um pinheiro um sobreiro.
Isso mesmo
5 Fevereiro, 2009Para o caralho. Provavelmente o mais sincero até à data. Isso mesmo, para o grandiosíssimo caralho que vos foda. Sim, sim, estou mesmo a gritar: pró caralho que vos foda, a todos.
Qual o inverso do Rídiculo? Deve ser culinária…
4 Fevereiro, 2009
Se vos apetecer empurrar o corpo de uma mulher contra qualquer lado e apreciá-la logo ali, façam-no.
Um demais
2 Fevereiro, 2009Lá chegarão os olhos fechados num gozo que a boca entreaberta denuncia pelo inacabado acto de não se fechar.
Nada
10 Dezembro, 2008(é só mais água)
Continuo a não compreender esta existência cheia de aflição. Não posso sequer usar uma medida porque não existe razão. Tanto cuidado.
Preciso de água. Preciso da chuva que tarda e por isso o vento. Preciso do mar no corpo todo. Preciso do meu lugar secreto na escada a olhar o rio de ouro. Preciso de um jorro fértil no peito. Preciso da neblina na ponte. Preciso de lavar os pecados.
Preciso da água num esmero doce e verde e opaca e meiga no mergulho. Preciso da água anilada pela luz numa gruta às escondidas. Preciso da água baça e turva e lamacenta dos rios que me correm pelas veias. Preciso da água branca de puro cristal nas pontes e casas e ruas. Preciso da água da cor do absinto em que me atiro de peito. Preciso da água fria e cinzenta e forte e segura de toda a água do céu na minha cara.
E eu quero saber a mesma coisa. Eu quero saber como é que vai acabar.
‘I have no pride
I have no shame
You gotta make it rain
Make it rain!’
tu?
27 Novembro, 2008‘Onde é que tu já ias se eu não te chamasse?’
(tenho uma cor também. É a cor do sangue. Sabes aquela cor grossa, espessa, que não escorre, sai em golfadas?)
Isto são coisas
21 Novembro, 2008E quando eu me canso, abro a janela.
Extenua-me esta coisa de ter cá dentro a imperatriz morte. Soberana, altiva, clara.
Tenho paredes demasiado alvas e uma casa demasiado bonita.
Agasta-me a torpeza da eventual falha.
Tenho um gato que é gato de outro gato.
De tanto mar ver é o azul que me transtorna.
Estou sentada sobre o meu próprio teatro. Estreo-me por estes dias.
Vi demasiadas gaivotas a planar à minha altura.
O trabalho que desempenho é árduo e eu trabalho, mas parece que tenho pernas curtas.
meu Deus
12 Novembro, 2008Não foi por minha causa, não foi mesmo.