Hoje procurei várias vezes o fim. O homem que me persegue na cabeça tem uma imperfeição grosseira na pele, mesmo por baixo do olho esquerdo. Eu perdoo-lhe essa imperfeição escura que, se ele a visse, em menos segundos que os cinco dramáticos últimos que da mesma maneira estão dentro da minha cabeça, desaparecia.
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Até ao fim – várias vezes
18 Dezembro, 2011Sem apelo nem agravo
19 Outubro, 2009Não só arrancava cada uma das suas órbitas, como lhe removia todos os esfíncteres em golpes incertos e imperfeitos.
Sem saída; Point of no return; Irreversible; Encurralada.
20 Agosto, 2009A; antes; após; até; com; conforme; consoante; contra; de; desde; durante; em; entre; excepto; mediante; para; perante; por; salvo; segundo; sem; sob; sobre; trás.
Para um homem
15 Agosto, 2009Já me deram a resposta. Não é preciso que a tenhas proferido tu, em nada divergiria. Não tenho um buraco suficientemente escuro para me enrolar. Nem tenho o medo de tudo perder. Deve ser o café latino que engulo em litros que me põe as mãos a tremer. Não será mais nada além disso, tenho a certeza que é o café.
O que não sei não quero saber. O que sei basta-me. Se lamento? Não lamento quase nada porque se a isso não me neguei não poderei lamentá-lo. Procurei alterar de forma aguda o que sou.
Retirei a suavidade do acordar como naqueles filmes em que a luz é ténue e suave e os lençóis da cama são claros.
Tenho várias maneiras de o dizer. Julgo dizê-lo de maneira acertada. Percebo melhor hoje o que era aquele sorriso antes do resto. Aquela calma no abraço. Como te deitavas ao meu lado e te deixavas ficar deitado e quieto enquanto me envolvias no teu batimento cardíaco. Porque o digo agora? Porque insisto em dizer o que não me perguntas? Deixo-te a ti essas respostas, para não te alterar algumas cores, para não conspurcar a tua ideia. Julgo saber hoje que tens mais inocência do que eu. Que quando quase morreste não foi mau não teres morrido. Que te reservas o olhar curioso e cândido quando olhas a modernidade.
Sinto em ti uma diferença porque seguiste depois de coisas e vieste antes de outras. Uma diferença que me dizem que é de livro. Não conhecia a regra. Gosto da regra, sem as surpresas. Não precisas de duvidar. Sinto-me tonta. É do café todo que engulo que parece que passa já para a cor da minha pele em vez de se largar em água.
Os teus comportamentos, as tuas risadas. Lembro-me dos teus dentes de médico. Não sei porquê mas lembro-me deles. E lembro-me de te ter ferrado a bochecha e de não teres gostado. E de não teres nenhum sabor e isso me ter feito salivar. Porquê? Porque antes assim.
Continuo a precisar de um tiro. E de dizer o que não me perguntas porque o meu esclarecimento não está pintado nas paredes, nem é transparente nos meus pés. Queria ser meiga para ti. Dócil e de voz suave. De ter o andar leve. Talvez te diga a verdade. Terás que a perguntar e talvez te diga. Se vir em ti o brilho e o sorriso nos teus olhos talvez te minta para que continuem a brilhar. Deixa-me dizer-te uma coisa simples e sincera, tenho saudades tuas.
“De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».”
Por correio
9 Junho, 2009Estou a sorrir porque sim. Não percebo nada da vida. Aliás, pouca vida tenho tido para além desta imensa ‘Casa’. Não sei muito mais, vou sabendo dos que AMO porque me importam e porque os quero bem. Mas vão eles também sabendo de mim. De resto quero o dia 22 de Junho, pós almoço-de-reunião forte (onde eu vou sacar de todas as minhas armas), para poder descansar em L. uns dias, arranjar o quintal, ir ao P. nos anos da mãe, mimar a malandragem, dar jantares, entupir-me de filmes e drogas e álcoois, dormir sem despertadores, receber telefonemas para convites e não com pedidos, cuspir caraços de cerejas para a terra, andar o dia todo sem tomar banho, despenteada e com remelas, comer o que me apetece nas horas em que me vai saber bem, esquecer isto tudo, esta azáfama que, apesar de tudo gosto, e que finalmente reconhecem.
Não quero nada de ti, só que não sejas estranho. Não me sejas estranho. Quando falo por meias palavras, tu pergunta que eu repondo as palavras inteiras. Só tu terás tempo para mais cabeças confusas porque a tua vida é de verdade uma inominável reviravolta. De resto, as três mosqueteiras estão boas: a M. está linda, tem um brilho especialíssimo que se vê e se espalha. A G. está mais magra, meio amarelada, mas isso passa-lhe. Vejo-lhe por vezes uma centelha de esperança muito forte no olhar e não tem roído as unhas. Eu tenho uma imensa capacidade de trabalho. Devo ser como os camelos. Logo se vê o resultado de tudo isto. O nosso dartacão está triste, deve ser porque lhe faltam todas as suas mulheres que fumam. Já nem braços nos quer dar, fecha-se num mutismo assustador. Eu estarei em breve em L. e vou abraçá-lo mesmo contra a sua vontade.
De resto, terei que fazer um homem grande chorar. Vou fazê-lo com tanta raiva que ele nunca mais será o mesmo. A E. continua a tomar conta dos MEUS animais que para mim são gente. E choveu que se fartou hoje. E espero que quarta, no dia da raça, esteja sol, não tenho tendas previstas e não me apetecia nada um fiasco na estreia.
Estarei de calças de ganga pretas, novas que a mana comprou e eu ainda não vi e com um trapo cá em cima que nem sei de que cor é. Salto alto e não pensei no cabelo. Só me falta um press release, duas cidades para cartazes e vender bilhetes. Estou quase lá, quase-quase.
(em queda livre)
Para esclarecer almas duvidosas
14 Fevereiro, 2009Sem dia de reflexão
1 Janeiro, 2009Ouvia ontem várias palavras com formas estranhas. As palavras eram botadas em rendas e plissados de veludo.
As minhas palavras eram físicas também. Eram brutas e viscerais numa impressão de excesso. Eram quimeras em folhos numa ânsia esbraseada.
Ouvia um vagido grave e profundo dos barcos no rio. Ouvia as chamas que se ateavam abruptamente no ar em agonias de magenta e azuis.
(Comecei por comer uma canja. Era já o primeiro dia daquela noite diferente das outras. Não falei a minha língua. Não esperei nada. Deitei-me sozinha. Dormi um sono solto e acordei devagar. Deixei-me ir e voltar em requebros do corpo. Entretida a sonhar.)
Acontece por vezes lançarmo-nos ao mar. Acontece por vezes ficarmos na areia. Nem sempre se escolhe e quase sempre se duvida antes e para sempre.
Hoje preparo-me para amanhã, assim como ontem me preparava para amanhã. Amanhã não devo esperar respostas. Devo falar sobre o resto, pode ser que me interesse. Como aquela estátua em que o homem está montado na barriga do cavalo morto dependurado.
No meu sapatinho
24 Dezembro, 2008Querido menino Jesus,
Tenho um presente que queria no meu sapatinho. Podia ter outro, mas tenho este.
Os homens que existem em mim são unidos por um todo de bicho que são. Aquela eterna criança que fica e aparece despropositadamente. Desconcerta-me. Gosto de ouvir os homens falarem sobre ‘nós, os homens’. Transporta-me.
Mas gosto de homens que fazem a barba. De homens que deixam crescer a barba também e depois a coçam com os quatro dedos da mão e ficam com aquele ar de bicho. Gosto das gargalhadas dos homens. São altas e fortes e simples. Estremecem-me. Gosto do grave da voz dos homens. E que me digam coisas únicas e sentidas. E que me mordam a orelha em segredos. Excitam-me. Gosto do sexo dos homens. Entusiasma-se. Gosto de me apaixonar por homens que se apaixonam por mim.
Podias pôr-me vários no sapatinho, um só dá demasiado trabalho.
(Parece que o problema das mulheres é sempre o primeiro homem, o que as fez. Parece. Parece que pode não ser um problema, pode ser só uma maneira.)
De quando em vez
13 Dezembro, 2008Ando de baloiço e canto cantigas. Vou para cá e para lá tentando sempre chegar mais alto naquela balanço das pernas que se esticam com o corpo estendido e que se encolhem com o corpo dobrado. Gosto muito de baloiços, fazem-me cócegas na barriga e posso olhar o céu e não ver mais nada.
Ando aos saltinhos na rua. Dou pequenos passinhos descompensados. Imito as corridinhas dos outros e deixo que me imitem a mim. Gosto de andar aos pulinhos na rua, de inventar novas formas de andar.
Ando de carro a ouvir música muito alta. Tão alta que não me oiço a mim a gritar sobre a música. Ando em velociadde e só vejo como evitar os obstáculos. Gosto da velocidade dos carros e de estar assim segura no meu volante enquanto me distraio com a música que toca.
De quando em vez é bom andar.