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repetição

18 Maio, 2012

- Ai e quando chove, quando chove desta maneira e posso simplesmente ir arrancar ramos da árvore, posso ir apanhar com uns pingos tão grossos que me encharcam a cabeça, posso, posso.

A sorrir.

- Gosto tanto quando chove, quando chove assim desta maneira.

 

Absurdo

28 Julho, 2011

3 – Pardelha.

7 – Rascunho.

9 – Música.

7 – Saia cor de laranja e camisola amarela. Pássaro na gaiola.

3 – Vinho branco.

9 – Maçãs. Frutas em compotas.

3 – Novo.

9 – Pelo contrário.

- Bati numa mulher de oitenta anos

5 Julho, 2011

- E não me orgulho disso.

Concha aconchegada

5 Abril, 2010

Ela – Sabes onde estás?

Dentro dela – Não consigo abrir os olhos. Já os abri e estava escuro, sempre escuro.

Ela – Vais manter os olhos fechados?

Dentro dela – Não os consigo abrir. Depois nunca sei se estão abertos quando os abro não há muita diferença.

Ela – Mas ouves, ou queres ouvir?

Dentro dela – Imagino o que ouço. Mais tarde talvez saiba o que ouvi, talvez reconheça. Talvez acredite no que me dizem que ouvi e me lembre.

Ela – Eu talvez esqueça o que vi e ouvi neste tempo. Talvez construa mais tarde um tempo novo com novas imagens, novas dimensões de luz, novas sombras de sons.

Dentro dela – Mais tarde então eu abro os olhos e oiço e talvez responda.

Ainda nem sequer é meia-noite

4 Dezembro, 2009

Vários homem e várias mulher interpretam esta história que se passa dentro de portas. É um espaço comum e é para todos confortável.

homem - Este ano iniciaremos os brindes por países. Vamos olhar para o mapa-mundi e ver a que horas começa o dia 1 de Janeiro. E começamos aí os brindes.

(Conversas desencontradas e excitadas. Várias pessoas, que se revelerão com ou sem importância ao longo da história estão a partilhar ideias e resultados.)

homem – O primeiro é cedíssimo. O último também. Isto promete. Promete-nos a todos. – E propõe um brinde.

(Algumas pessoas que pareciam com falta de ânimo, em resposta a uma ou duas, iniciam os sorrisos. Todos procuram um copo. Haverá um pequeno zumbido feminino, quase um gritinho.)

mulher – Eu sei de onde isto vem. A ideia. Sei que alguns também se lembraram de coisas boas. Mas eu sei de quem é o móbil.

(Esta mulher é uma sombra ou uma boquilha, uma mulher capaz de romance, ou prometedora disso.)

mulher – Eu proponho que cada um faça um brinde com uma poesia associada a esse país.

(Esta mulher tem lábios vermelho vivos. Está iluminada por baixo.)

mulher – Podemos mesmo fazer mais coisas associadas,

(Esta mulher não tem a voz apagada. Não tem a genialidade, tem a sorte, ou o azar. Olhares.)

mulher – Músicas.

(É a mais rápida de todos. Uma velhaca, a mais feia. A tez dela será acastanhada.)

homem – Para as minhas mulheres que fumam a pergunta é, onde vai ser a meia-noite?

(Este homem não tinha ainda sido notado, a não ser como uma presença, nem incómoda, nem excessiva.)

mulher – Vamos?

(A excitação, a beleza da surpresa. O pacto. O sangue. A causa. Esta mulher representará tudo isso.)

homem – Percebem o que vos digo?

(homem magro. É taciturno mas sorri abertamente.)

Haverá uma toalha verde. Não sei se é repetível.

Outra vez?!…

15 Outubro, 2009

- Mas é sempre? Não pode haver nenhuma altura em que isso não aconteça?

- Mas julgas que eu gosto? Que faço por querer?

- Mas se não gostas como é que é possível?

- Mas queres que eu te explique como? Aconteceu…

- Sempre?! Acontece sempre?!

- Ainda nem aprendi a remediar isto, claro que acontece sempre!

- Sempre?!

Contigo

22 Setembro, 2009

Eu – Gostas de mim assim?

Tu – Assim como?

Eu – Assim, nesta posição?

Sequaz

13 Setembro, 2009

Azul – O que faço aqui agora? Isso não é coisa que se pergunte. Não chega a ser territorial nem classicista. Não estás à espera que te aponte uma faca agora, pois não?

Azul claro – Claro que não.

Azul – Claro que não. Não uso facas. Nunca usarei comigo facas. Não me serviriam para matar ninguém. Nem a um cão que a mim se atirasse. Eu aqui e o que faço comigo aqui agora não é uma pergunta que faças.

Noutro mundo

5 Agosto, 2009

Olhos azuis – Com a electricidade mudou tudo. Ficamos com menos medos. Eu lembro-me de um burro preto e de um gaiato vestido de branco em cima dele. Ele tremia de medo àquela hora da noite. Era o primeiro a chegar à padaria e depois tinha que ir acordar o padeiro. Montava o burro e fazia-o correr pelas ruas. Parecia uma aparição.

Olhos verdes – Um fantasma!

Olhos azuis – Quanto mais ele corria mais as pessoas se assustavam com aquela alma penada a voar no escuro. E quanto mais medo tinham mais falavam desse medo. E o gaiato mais corria e mais tremia.

Olhos verdes – Um fantasma.

Olhos azuis – E depois naqueles anos sem luz havia mais sonâmbulos, não sei explicar porquê, mas viam-se muitas vezes as mulheres com as camisas brancas até aos pés, de braços esticados, a percorrerem as ruas escuras. Aquilo fazia-me medo a mim também.

Olhos verdes – Um fantasma?

Olhos azuis – Ou uma bruxa, sei lá o que pensava, mas passava a correr em certos caminhos, as pernas tremiam-me e eu era novo, corria, corria. Depois havia uma casa com um homem gordo que dormia assim com os braços sobre o peito e ressonava de vez em quando de uma maneira estranha, não era continuado o barulho, era um ronco forte e selvagem. Eu acagaçava-me e lá estava eu outra vez a correr rua abaixo ou rua acima.

Olhos verdes – Um fantasma…

Olhos azuis – Um monstro ou um lobisomen, ou um bicho qualquer de outro mundo. Não se explicavam estas coisas. As casas não tinham luz, as ruas não tinham luz. As ervas secas daqui, que crescem em tufos grandes e redondos, tremiam com a aragem e elevavam-se no ar como se fossem braços de mãos afiadas. Os homens respeitavam as horas do recolher. As mulheres acendiam o lume e coziam as batatas. Os velhos encolhiam-se nas sombras. Os animais eram negros. Eu era pequeno. Muito pequeno e ladino. Tinha medo e corria.

Transparente Minuete

8 Julho, 2009

Ela diz – Os meus pecados, da minha mãe, do meu pai, da minha irmã são de um vermelho translúcido. 

Ela disse – O vermelho jorra das veias e apesar de opaco não é baço mas não se pode dizer que tenha o brilho do ruby.

Ela diz – Tenho desejos de vingança, protegida como se a minha mãe estivesse na frente e o meu pai atrás.

Ela disse – O aço galvanizado cintila como a prata.

Ela diz – Com uma faca abrir o sítio dentro de mim onde está o azul alilasado dos céus no final do dia.

Ela disse – O azul claro, o azul escuro, o azul acinzentado não impedem a falta de vento nem nos olhos da minha mãe.

Ela diz – Arrepiou-me uma nortada de sudoeste com uma luz esbranquiçada.

Ela disse – ‘A água cristalina não é opaca como o leite não é claro’, mas vê-se o vento nas superfícies.

Ela diz – Poder um dia tirar o brilho de todas as cores e transformar o branco numa cor de verdade e o preto no seu máximo.

Ela disse – Poder um dia deter nos dedos todos os filtros de todas as cores.

(cont.)

Um caroço

2 Julho, 2009

de pêssego na boca. A revirá-lo entre os dentes com a possível capacidade de o revirar dentro da boca com a boca fechada. Encostada, ou pousada, ou empoleirada sobre/numa madeira. Há pratos na banca. Uma travessa de forno com um resto de uma sorcière. 

- Há uns dias saltei de um avião na esperança que um pedaço de pano funcionasse. Senti-o no corpo todo. Foi assim a coisa maior de que me lembro agora.

Olha para cima e fica com um sorriso muito ténue na boca. O caroço de pêssego ajuda a que pareça melhor. Uma dúzia de coisas acontecem sem qualquer importância: uma mosca atravessa o olho, um pé raspa o calcanhar no chão de cimento, uma brisa sopra na alfazema, um duplo piscar de olhos, um som estranho de bicho, uma nuvem move-se, um copo vazio abana-se em círculo, uma melena de cabelo é afastada para trás da orelha, uns faróis percebem-se na estrada, uma unha coça o pulso, um movimento de língua a empurrar o caroço noutra direcção, os lábios sobem um bocadinho mais.

Ele sorri. Ela não nota.

Eu e o meu duplo

23 Junho, 2009

Eu – É que é um círculo imperfeito. Cheio de imprecisões que perturbam o andamento, mas não são o suficientes para nada, nem para deixar de ser um círuclo.

Duplo – Não sei o que se passa com o meu corpo, anda a resisitir às dietas.

Eu – E depois o que nos passa pela cabeça. Aquela gente toda alinhada daquela maneira, a encontrar um fio que vai seguindo aquelas caras que estão na nossa cabeça, – a rirem-se, ou muito sérias, caras de culpa e de vitória e de orgulho, numa memória tão imperfeita.

Duplo – A contínua queda ou o eterno desequilíbrio.

Eu – As guitarras parece que não são guitarras. Podem ser uma coisa arranhada, rude. Mas são guitarras e as coisas que pensamos das pessoas. Algumas, as que ficamos a pensar mais tempo. A construir a história. Que nunca mais se concretiza de maneira nenhuma.

E depois pensas nos sonhos e no que é isso dos sonhos. No upa. E os sonhos são de verdade, com os olhos abertos a olharem qualquer coisa lá em cima.

Duplo – E agora nem é o corpo, que tem razão. Tem razão e há que obedecer ao corpo. Deixá-lo estar.

Eu – Nem sei porquê. Nem porquê deixa de ser. Nem sei.

Duplo – Estou com demasiadas certezas. Demasiada acertividade.

Eu – Sem tempo para os obstáculos. A ultrapassá-los com todos os centímetros de mim.

Duplo – Preocupam-me alguns sonhos, daqueles que inquietam. Que não nos deixam dormir porque são sentidos. Vê-se no tamanho da pupila. Dilata.

Eu – Estiveste o tempo quase todo com os óculos. As lentes não são demasiado escuras, vêem-se os olhos…

Duplo – Mas não as pupilas.

Eu – É que não se vêem e depois, no meio de outra conversa, sabe-se que as pupilas daqueles olhos, do sonho, da forte vontade com os olhos sempre abertos, a não conseguir parar de,

Duplo – Não é sonhar porque sabes das pupilas. Porque é que sabes sempre de tudo. Porquê. Porque é que sabes sempre. 

Eu – E depois não páro de sentir. Sempre em formas humanas. Deixar de sentir o que se sabe de formas humanas.

Duplo – Arreganhar uns dentes num auto-retrato ou então como uma afogada numa banheira de um quarto-de-banho verde.

Eu – Numa representação do que se pode ser sem as pupilas. Mas as pupilas são um humano que se sabe e que não se quer e que não se quer mais aquele humano de volta de nós. Seja com que corpo esteja, se tiver as pupilas, ou se nós sentirmos as nossas pupilas, é um humano como outro humano qualquer. 

Duplo – E a coragem de verdadeiramente ensaiar o fim.

Eu – Foi ensaiado mas algumas, poucas coisas, são sem estreias, sem ensaios, sem planos e sem papéis. Acontecem.

No trabalho

7 Junho, 2009

Manda-chuva – Vais lá?

À chuva – Vou, estou em cima disso.

Manda-chuva - E a lista?

À chuva - Quase pronta.

Manda-chuva - Não te esqueças das reservas.

À chuva - Vou fazer agora mesmo.

Manda-chuva - E o que falta?

À chuva - As fotografias e o programa.

Manda-chuva - E hoje só faltava um raio…

À chuva - Mas está lá.

Manda-chuva - Feito por profissionais!

À chuva - Que não há dúvida.

Manda-chuva - O resto está tudo?

À chuva - Menos as reservas e a lista. E assegurar o resto.

Manda-chuva - Mas estás a tratar disso?

À chuva - Sem descanso.

Manda-chuva - Falta pouco.

À chuva - Quase lá.

Olha o robot

24 Maio, 2009

eu - Estas palavras todas vêm na sequência do ‘doce’ de ontem?eu - Estas palavras todas vêm na sequência do ‘doce’ de ontem?Eu não sou nem um problema, nem uma razão.Nem uma causaNem nada.Deves estar a recriar vários robots, não sei,tu não és eu,

                                                                                                                              essa parte não é minha,dentro da minha parte repito: nem uma razão. Nem uma causa.Como cheguei, vousem peso nenhum.ele - A tua ironia fere às vezes.eu -  …De qualquer modo fiquei a pensar no que acontece àqueles que não tentam contrariar o que parece ser uma inevita-bilida-de. Vale sempre a pena rever coisas arrumadas quando os murmúrios delas insistem em
sussurar-nos, assim como que por acaso.

  ele – Não tinha se calhar entendido que estavas se calhar tão a sério no teu texto de “correcção de definições”.

eu - É simples, é uma troca. É um mundo merca ntilista onde não se separam nunca as emoções porque não somos robots.

 

É como se já tivessem começado em muitos lados.

14 Maio, 2009

Mulher – Não como quero que elas sintam, mas como eu sinto.

(A expressão que se segue é demasiadamente ouvida.)

Mulher – É muito difícil, é como se já tivessem começado em muitos lados.

(A sensibilidade do corpo dela é extrema e simples.)

Mulher -Tenho o pescoço que está preso à cabeça que se enruga. 

(A cara dela em erres.)

Let’s get Cornelia

12 Maio, 2009

Ser sem sexo – Foi por um triz agora. É que estava mesmo-mesmo em cima do buraco.

Outro Ser sem sexo – Porra, nem digas isso.

Ser sem sexo – Ia ficar tão fodid… ui.

Outro Ser sem sexo- Fodid? Porra, eu insultava a minha mãe e a tua. Nem gaguejava.

Ser sem sexo – Let’s get Cornelia é tudo o que me sai agora.

- Ainda me lembro, …

22 Abril, 2009

- Mas tu só dizes disparates?

As Palavras dos Outros Soam-me Melhor

8 Abril, 2009

No quarto ao telefone.

O quarto tem uma cama e junto dela uma cadeira de braços e pernas em madeira, envernizada e clara, estofada a veludo branco com tachas douradas. O quarto tem um espelho com uma moldura barroca. Há uma janela com portadas acinzentadas. Não tem cortinas. Há vários livros em montes no chão, não estão largados, estão encostados ordenadamente às paredes brancas.

No início, ela está sentada na cadeira e acaba de pintar as unhas dos pés. 

- Ou trabalho ou leio. Se o trabalho não corre mais vale dispersar e fazer o que tem mesmo de ser feito. Agora continuar cá dentro, com tantos corpos a contorcerem-se como lesmas não. A minha voz até é doce, posso passar mais tempo ao telefone; mas acho sempre constrangedor falar com os outros enquanto outros ouvem. Preciso de sair, estar lá fora de um lado para o outro. Parece que tenho o síndrome das pernas inquietas ao telefone. E depois não me dá jeito nenhum, tenho que escrever coisas, tomar notas. Tenho que arranjar um caderno novo, este está com tantos assuntos misturados… Já nem eu me entendo. E depois as palavras dos outros soam-me melhor. Sempre. Ou então tenho sorte nas leituras. Tenho andado aflita, sabes. Aflita com esta coisa de ter esta criança nos braços e ter de a lançar. Angustia-me não conseguir fazer nada dela, ou pensar nessa possibilidade, só de pensar nessa possibilidade. Não vamos falar sobre isso agora. Ou melhor vamos, vamos falar sobre isso. Agora. Tenho dias em que engano o tempo. Muitos dias parece-me.

Nunca se levanta. Ensaia várias posições. Pega e larga o verniz várias vezes. Faz de um livro um leque com que refresca as unhas dos pés.

A cadência da voz dela tem de ser experimentada.

‘O virgem Negra’

20 Março, 2009

- Cê vô?

- Faço-te um santinho.

- Mas alguém me cala a rapariga. Essa rapariga que um dia vai ser velha. Que vai deixar de…

- E a outra?

- A outra está sempre na porta, encostada a cuspir os caroços das laranjas para a terra.

- Deixá-la. Amanhã é o dia da feira. Da virgem.

- Está de saias, mas é um homem. Sai de barco.

- Estamos longe do mar. E não se vê nada.

- Precisamos dos cabeços limpos. Faltam ainda seis anos para a próxima…

- … como os antigos que não deixavam cozinhar de menos os ensopados. 

- Ainda não temos o castanheiro. Dá-se c’oas geadas. 

- Deixamos para quando crescer.

Avantgarde

12 Março, 2009

 

Posição de mise en garde. Início do treino dos atiradores na pista. As suas armas são espadas. Dois homens.

Treinador – En garde. Etes-vous prêts?

Os atiradores afirmam com a cabeça tapada. Estão competamente imóveis com as espadas estendidas na direcção do adversário, as pernas flectidas e o corpo teso e ligeiramente inclinado para a frente.

Treinador – Allez.

Espada 1- A serenidade e a antecipação.

Espada 2 – Perceber. Só preciso de perceber para onde ele vai e ir antes.

Espada 1 – O corpo tem que estar sempre alerta, pronto. A mente tem que estar calma.

Espada 2 – Perceber o nervosismo.

Espada 1 - É tudo técnica: braços, pernas, cabeça.

Espada 2 – Está-se a perder. Recua. 

Espada 1 – A mente calma. 

Espada 2 – … e  Touché.

Treinador – Halte.

Os atiradores voltam à posição de mise en garde. O Espada 2 ganhou terreno na pista. O Espada 1 recua para manter a distância para a remise en garde.

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