Eu – É que é um círculo imperfeito. Cheio de imprecisões que perturbam o andamento, mas não são o suficientes para nada, nem para deixar de ser um círuclo.
Duplo – Não sei o que se passa com o meu corpo, anda a resisitir às dietas.
Eu – E depois o que nos passa pela cabeça. Aquela gente toda alinhada daquela maneira, a encontrar um fio que vai seguindo aquelas caras que estão na nossa cabeça, – a rirem-se, ou muito sérias, caras de culpa e de vitória e de orgulho, numa memória tão imperfeita.
Duplo – A contínua queda ou o eterno desequilíbrio.
Eu – As guitarras parece que não são guitarras. Podem ser uma coisa arranhada, rude. Mas são guitarras e as coisas que pensamos das pessoas. Algumas, as que ficamos a pensar mais tempo. A construir a história. Que nunca mais se concretiza de maneira nenhuma.
E depois pensas nos sonhos e no que é isso dos sonhos. No upa. E os sonhos são de verdade, com os olhos abertos a olharem qualquer coisa lá em cima.
Duplo – E agora nem é o corpo, que tem razão. Tem razão e há que obedecer ao corpo. Deixá-lo estar.
Eu – Nem sei porquê. Nem porquê deixa de ser. Nem sei.
Duplo – Estou com demasiadas certezas. Demasiada acertividade.
Eu – Sem tempo para os obstáculos. A ultrapassá-los com todos os centímetros de mim.
Duplo – Preocupam-me alguns sonhos, daqueles que inquietam. Que não nos deixam dormir porque são sentidos. Vê-se no tamanho da pupila. Dilata.
Eu – Estiveste o tempo quase todo com os óculos. As lentes não são demasiado escuras, vêem-se os olhos…
Duplo – Mas não as pupilas.
Eu – É que não se vêem e depois, no meio de outra conversa, sabe-se que as pupilas daqueles olhos, do sonho, da forte vontade com os olhos sempre abertos, a não conseguir parar de,
Duplo – Não é sonhar porque sabes das pupilas. Porque é que sabes sempre de tudo. Porquê. Porque é que sabes sempre.
Eu – E depois não páro de sentir. Sempre em formas humanas. Deixar de sentir o que se sabe de formas humanas.
Duplo – Arreganhar uns dentes num auto-retrato ou então como uma afogada numa banheira de um quarto-de-banho verde.
Eu – Numa representação do que se pode ser sem as pupilas. Mas as pupilas são um humano que se sabe e que não se quer e que não se quer mais aquele humano de volta de nós. Seja com que corpo esteja, se tiver as pupilas, ou se nós sentirmos as nossas pupilas, é um humano como outro humano qualquer.
Duplo – E a coragem de verdadeiramente ensaiar o fim.
Eu – Foi ensaiado mas algumas, poucas coisas, são sem estreias, sem ensaios, sem planos e sem papéis. Acontecem.