Comi uma cenoura. Com casca e com tudo. Ela não era muito grande. Nem sequer era alaranjada até ao final. Mas arranquei-a eu da terra e comi-a enquanto segurava na rama. E que boa que era. Plantou-a ele em sementes. Vinham nuns pacotes industriais. Não lhes demos crédito nenhum. Foram plantadas na altura errada – a minha avó disse-mo, – “mas se já estão na terra agora deixa-as vir”. E vieram. Tentei que a menina as provasse, mas as cenouras plantadas têm um certo picante e ela cuspia as pequeninas trincas que dava. Comi-a eu. Hei-de arrancá-las a todas e comê-las assim, cruas.
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Dos olhos
18 Março, 2012Numa altura
20 Fevereiro, 2012qualquer em que dizem “podem finalmente desistir”, em que se encontram reunidas todas as condições para o fazer, eu parece que estendo os braços.
À vontade
5 Maio, 2010Tenho uma sensação de tempo parado. Um tempo incongruente com o meu corpo que se manifesta em meses, dias e horas. As pernas curtas e grossas das mulheres com cabelos marcados pelos rolos. Um arquear de sobrancelhas com os joelhos juntos. O andar arredondado num pêndulo.
A manhã chega e as luzes morrem, teima mas não apostes com as palavras a treparem pelas pernas. Quando alguém diz apaga a luz parece outra luz que se apaga.
às vezes nem por isso…
11 Dezembro, 2009‘All men, by nature, lean toward knowledge’ – Aristóteles
Numa lenta vontade de vida
13 Outubro, 2009Ontem uma noite como não me lembrava: o corpo com um peso desumano, equilibrado sobre o colchão, sereno. O frio molhado na almofada e as palavras em rol ali retidas. Umas paredes moucas. Um corpo ferozmente pousado. Os pés quentes. O respirar seguro. Quebro-me mal possa quebrar-me. O corpo cansado. Finalmente cansado. Tudo me sabe já a final. Amargo gosto. Sem asas, nem guelras. Como um guarda-nocturno se protege da humidade do ar. Poder agora encontrar a cova e deixar de questionar: o que tens feito por ti ultimamente? O que tens feito por ti ultimamente?
Fecha o olhos. Sente o peso do corpo a entrincheirar-se na cama. Espera pelo grupo de cães que em breve te vai rodear. Daqui a nada perdes os braços. Depois as pernas. E depois deixas de gritar.
À direita do meu pai
11 Maio, 2009O meu lugar à mesa é sempre à direita do meu pai. Não faço substituições. Ocupo o meu lugar que está vazio até eu me sentar.
Ao espelho depois das festas.
19 Abril, 2009Não voltarei a ser a menina roliça que tinha um fato-de-banho verde e amarelo, às riscas brilhantes. Tinha um rabo grande e rijo próprio da adolescência saudável.
Não voltarei a ser a jovem adulta sem mamas nem rabo de biquinis brasileiros que me assentavam na perfeição.
Não vou continuar a estar como estou, mas os meus objectivos mudaram. Não serei mais a ex-gorda ou a ex-magra. Vou ser uma nova coisa que está diferente, mas está bem e, em alguns aspectos, está até melhor.
Da Terra
29 Janeiro, 2009
O meu peso neste céu cheio de terra. Aconteceu-me outra vez, mas já sabia o que vinha. Estarão as ruas cheias ou vazias agora. E cai-me chuva miudinha no quintal. Tão oportuna. Quase não toca o chão. Soçobrando no céu. Cai lá do céu.