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quinta carta

13 Novembro, 2009

 

«A Corrida em Círculos» – I

O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.

É o que está feito,
Perfeito e determinado
É o que principia
No que está acabado.

Ana Hatherly.

P.S. Estou às voltas

trigésima quinta carta

15 Maio, 2009

“É esta a razão por que todos os grandes Mitos são violentamente trágicos, a ponto de não poderem imaginar, a não ser numa atmosfera de carnificina, tortura, derramamento de sangue, todas as efabulações magníficas que narram às multidões a primeira divisão sexual e a primeira carnificina de essências, que se produziram na criação.”

Quase me perdi na carta, como n’O Teatro E O Seu Duplo.

Chego até aqui,

 

 

Antonin Artaud.

septuagésima primeira carta

20 Março, 2009

Dublin, num dia sexto, qualquer

ai, uma novela para nada

 

 

MK,

 

‘Palavras, palavras, a minha vida, que eu digo acabada, ou ainda por chegar, ou ainda em curso, conforme as palavras, conforme as horas, contando que ainda dure, desta estranha forma. Aparições, guardas, que infantilidade, e vampiros, dizer que eu disse vampiros, saberei ao menos o que isso significa, claro que não, e o que é que acontece, entretanto, como se eu não soubesse, como se houvesse duas coisas, outra coisa para além desta coisa, o que é essa coisa inominável, que eu nomeio, nomeio, nomeio, sem a usar, e chamo eu a isso palavras. É que eu não encontrei as palavras adequadas, aquelas que matam, vindas das agruras deste infesto pasto ainda não me subiram à garganta, desta torrente de palavras, com que palavras nomear as minhas palavras inomináveis. Todavia, tenho esperança, juro, de poder um dia contar uma história, mais uma, com homens, espécies de homens, como no tempo em que não duvidava de nada, de quase nada.’

 

 

 

O teu Beckett

P.S. ‘Olha, poderia ser este o tom, e o teor, a estupidez de uns soluços.’

quarta carta

26 Fevereiro, 2009


‘No silêncio reinante, ela ouve o seu próprio respirar que lhe parece estranho e ao mesmo tempo uma boa companhia. As lágrimas sobem-lhe aos olhos e correm lentamente pelas têmporas, de cada lado, até à cabeleira despenteada. A sua boca, grande, mole, está semi-aberta. Vai ficando cada vez mais escuro. As árvores desvanecem-se e desaparecem à medida que o céu se vai tornando negro. Ouve vozes ao longe, vozes graves que se movem ao ritmo da sua respiração tranquila. São palavras sem significado, fragmentos de frases, sílabas confundidas, caindo como gotas com intervalos de silêncio.

Os seus olhos continuam a encher-se de lágrimas.’ 

E soo mais uma Persona de Ingmar Bergman.

 

 

sexta carta

21 Fevereiro, 2009

may i feel said he
(i’ll squeal said she
just once said he)
it’s fun said she

(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she

(let’s go said he
not too far said she
what’s too far said he
where you are said she)

may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she

may i move said he
is it love said she)
if you’re willing said he
(but you’re killing said she

but it’s life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she

(tiptop said he
don’t stop said she
oh no said he)
go slow said she

(cccome?said he
ummm said she)
you’re divine! said he
(you are Mine said she)

No Thanks
Edward Estlin Cummings

terceira carta

17 Fevereiro, 2009

 

 

 

Se tanto me dói que as coisas passem

É porque cada instante em mim foi vivo

Na busca de um bem definitivo

Em que as coisas de Amor se eternizassem

Se tanto me dói que as coisas passem,

 

Sophia de Mello Breyner Andresen.  

 

 

 

 


primeira carta – antecedente

16 Fevereiro, 2009

‘Jesus died for somebody’s sins but not mine 
meltin’ in a pot of thieves 
wild card up my sleeve 
thick heart of stone 
my sins my own 
they belong to me, me’.

segunda carta

15 Janeiro, 2009

       ‘Já que não me querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.’

 

                              ’Vos estis sal terrae.’

 

do Santo António de  Lisabona, ’Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar.’

primeira carta

12 Janeiro, 2009


‘Se Deus não pode agir incorrectamente, é-lhe impossível enfrentar quaisquer escolhas morais genuínas. Nesse caso, Deus não pode ser louvado por fazer as escolhas correctas, e se Deus não é moralmente louvável dificilmente se pode considerar moralmente perfeito. A perfeição moral necessária parece excluir a possibilidade precisamente daquelas escolhas que a perfeição moral genuína exige.’ Patrick Grim