| Voltar a Luiza Neto Jorge. O seu a seu tempo.
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| A cabeça em ambulância |
Há feridas cíclicas há violentos voos/ dentro de câmaras de ar curvas feridas que se pensam de noite e rebentam pela manhã ou que de noite se abrem e pela amanhã são pensadas com todos os pensamentos que os órgãos são hábeis em inventar como pensos ligaduras capacetes sacramentos com que se prende a cabeça quando ela se nos afasta quando ela nos pressente em síncope ou desnudamento ou num erro mais espaçoso ou numa letra mais muda ou na sala de tortura na sala escura,de infância Luiza Neto Jorge |
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cartas
23 Abril, 2012Ducentésima trigésima sexta carta
9 Dezembro, 2009“Passagens
Modelos ópticos – 2.4.9
Mas, então, o que volta nessa Passagem? Nem dinastias, nem ídolos dos deuses e dos animais, nem concepções grandiosas do mundo. Não volta absolutamente nada de visível nem de nomeável – e é uma coisa enorme – porque o que regressa é o nada. O que quer dizer, consequentemente: nem imagens nem concepções, mas o conceito na sua nudez, a ingenuidade absoluta. Durante um instante, a porta abre-se em silêncio. Qualquer futuro parece possível – de onde a angústia, a expectativa, as esperanças.
Para isso contribuem as grandes depurações e as passagens ao branco. (…)
Esta depuração está ligada à festa e aos seus preparativos – uma imagem decrépita do mundo tem que descer ao abismo antes que uma nova iamgem possa subir das profundidades. São também os tempos dos paioleiros, dos detentores de um poder sem dignidade nem bondade, mas de uma energia imensa e impiedosa. Colossos de cara impudente, são, umas vezes, objectos de medo e considerados monstros, e outras, de veneração e tomados por deuses. Erros de estimativa: não são os seus pés de barro que fazem tremer o mundo.
(…) O “Eterno” não é mais do que o sinónimo desse instante.”
Ernst Junger.
(O instante. Lembra-te, “quando tais marés assaltam violentamente o coração, é melhor deixá-las no inexprimido, do que circunscrevê-las em termos categóricos”.)
quinta carta
13 Novembro, 2009
«A Corrida em Círculos» – I
O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado
É o que principia
No que está acabado.
Ana Hatherly.
P.S. Estou às voltas
trigésima quinta carta
15 Maio, 2009“É esta a razão por que todos os grandes Mitos são violentamente trágicos, a ponto de não poderem imaginar, a não ser numa atmosfera de carnificina, tortura, derramamento de sangue, todas as efabulações magníficas que narram às multidões a primeira divisão sexual e a primeira carnificina de essências, que se produziram na criação.”
Quase me perdi na carta, como n’O Teatro E O Seu Duplo.
Chego até aqui,
Antonin Artaud.
septuagésima primeira carta
20 Março, 2009Dublin, num dia sexto, qualquer
ai, uma novela para nada
MK,
‘Palavras, palavras, a minha vida, que eu digo acabada, ou ainda por chegar, ou ainda em curso, conforme as palavras, conforme as horas, contando que ainda dure, desta estranha forma. Aparições, guardas, que infantilidade, e vampiros, dizer que eu disse vampiros, saberei ao menos o que isso significa, claro que não, e o que é que acontece, entretanto, como se eu não soubesse, como se houvesse duas coisas, outra coisa para além desta coisa, o que é essa coisa inominável, que eu nomeio, nomeio, nomeio, sem a usar, e chamo eu a isso palavras. É que eu não encontrei as palavras adequadas, aquelas que matam, vindas das agruras deste infesto pasto ainda não me subiram à garganta, desta torrente de palavras, com que palavras nomear as minhas palavras inomináveis. Todavia, tenho esperança, juro, de poder um dia contar uma história, mais uma, com homens, espécies de homens, como no tempo em que não duvidava de nada, de quase nada.’
O teu Beckett
P.S. ‘Olha, poderia ser este o tom, e o teor, a estupidez de uns soluços.’
quarta carta
26 Fevereiro, 2009‘No silêncio reinante, ela ouve o seu próprio respirar que lhe parece estranho e ao mesmo tempo uma boa companhia. As lágrimas sobem-lhe aos olhos e correm lentamente pelas têmporas, de cada lado, até à cabeleira despenteada. A sua boca, grande, mole, está semi-aberta. Vai ficando cada vez mais escuro. As árvores desvanecem-se e desaparecem à medida que o céu se vai tornando negro. Ouve vozes ao longe, vozes graves que se movem ao ritmo da sua respiração tranquila. São palavras sem significado, fragmentos de frases, sílabas confundidas, caindo como gotas com intervalos de silêncio.
Os seus olhos continuam a encher-se de lágrimas.’
E soo mais uma Persona de Ingmar Bergman.
sexta carta
21 Fevereiro, 2009may i feel said he
(i’ll squeal said she
just once said he)
it’s fun said she
(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she
(let’s go said he
not too far said she
what’s too far said he
where you are said she)
may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she
may i move said he
is it love said she)
if you’re willing said he
(but you’re killing said she
but it’s life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she
(tiptop said he
don’t stop said she
oh no said he)
go slow said she
(cccome?said he
ummm said she)
you’re divine! said he
(you are Mine said she)
No Thanks
Edward Estlin Cummings
terceira carta
17 Fevereiro, 2009
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
Se tanto me dói que as coisas passem,
Sophia de Mello Breyner Andresen.
primeira carta – antecedente
16 Fevereiro, 2009‘Jesus died for somebody’s sins but not mine
meltin’ in a pot of thieves
wild card up my sleeve
thick heart of stone
my sins my own
they belong to me, me’.
segunda carta
15 Janeiro, 2009‘Já que não me querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.’
’Vos estis sal terrae.’
do Santo António de Lisabona, ’Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar.’
primeira carta
12 Janeiro, 2009‘Se Deus não pode agir incorrectamente, é-lhe impossível enfrentar quaisquer escolhas morais genuínas. Nesse caso, Deus não pode ser louvado por fazer as escolhas correctas, e se Deus não é moralmente louvável dificilmente se pode considerar moralmente perfeito. A perfeição moral necessária parece excluir a possibilidade precisamente daquelas escolhas que a perfeição moral genuína exige.’ Patrick Grim