Dublin, num dia sexto, qualquer
ai, uma novela para nada
MK,
‘Palavras, palavras, a minha vida, que eu digo acabada, ou ainda por chegar, ou ainda em curso, conforme as palavras, conforme as horas, contando que ainda dure, desta estranha forma. Aparições, guardas, que infantilidade, e vampiros, dizer que eu disse vampiros, saberei ao menos o que isso significa, claro que não, e o que é que acontece, entretanto, como se eu não soubesse, como se houvesse duas coisas, outra coisa para além desta coisa, o que é essa coisa inominável, que eu nomeio, nomeio, nomeio, sem a usar, e chamo eu a isso palavras. É que eu não encontrei as palavras adequadas, aquelas que matam, vindas das agruras deste infesto pasto ainda não me subiram à garganta, desta torrente de palavras, com que palavras nomear as minhas palavras inomináveis. Todavia, tenho esperança, juro, de poder um dia contar uma história, mais uma, com homens, espécies de homens, como no tempo em que não duvidava de nada, de quase nada.’
O teu Beckett
P.S. ‘Olha, poderia ser este o tom, e o teor, a estupidez de uns soluços.’