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Três coisas na vida

11 Setembro, 2010

Nem sempre reparo no vapor que a colher de sopa liberta. É raro deixá-la dentro da sopa o tempo suficiente para que aqueça e fumegue, mas às vezes estou distraída e a colher fica lá pousada. Quando lhe pega reparo no vapor e penso sempre no tempo que vai demorar até estar fria e poder enchê-la de sopa para comer. Como sopa antes da refeição. Depois não me cai bem, torna-se indigesta. Às vezes o leite também,  - em algumas manhãs mantenho o pequeno-almoço até ao meio da tarde como se tivesse comido um bisonte. Os cabelos, dizem-me, dão azia. Continuam a apetecer-me os estufados da minha mãe. As feijoadas que como com pão.

Um dia planto uma árvore, talvez um castanheiro. E depois apanho os ouriços. E calco-os. E como as castanhas cruas e suculentas no início do Inverno.

I. Série de palavras dispostas sem obediência a metro nem a rima.

29 Janeiro, 2010

As pistolas ali nas portas. Uma metalizada e leve, com uma flor particular de um rosa brilhante e forte, quase magenta, a  rodar em amplificadas luzes amarelas e azuis. É nova. A outra amarela, com o gatilho branco e a extremidade alaranjada, pesada com a água. É mais velha.

A cidade aligeira-se nas sargetas

Na complexa corda do tempo.

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2 Novembro, 2009

Não és mais podre. Nem menos puro. Nem a excepção. Nem o dúbio. És até um consolo. Um vai e vem a crescer e a ser arrancado.

       O mais doce será o teu olhar.

Não interessam os pensamentos. Nem recuar o corpo, - é amargo, um punho feroz no estômago -, uma ridícula memória. Um dia ou uma noite, os dentes e a saliva num deficiente batimento cardíaco. Ter o céu e a boca do inferno numa mudez, que é até o melhor, num ódio que já nem ódio é, nem para nada serve, só nos gela mais longe o horizonte.

      Chamar-lhe-ei outra coisa um dia. Talvez a menina seja loira e tenha a pele clara.

Não há fuga para o gás largado. O peso da cabeça num abandono do ar. Sem assinatura. Sem carimbo. Sem memória. Sem início. Sem fim particular.

(data)

Identidade

19 Fevereiro, 2009

Deviam? Há momentos em que me apetece. A adoençazita. Também a sinto, no pescoço, atrás, junto dos grandes tendões e à frente, no primeiro círculo dos nós do meu pescoço.

Devia já ter comprado um lavatório. Juro que hoje tentei. Acabei a comer um cachorro e num lançamento de um livro. Mas que dizes tu? Que não te sentes bem? Que me enviaste uma mensagem? Não recebi. Amanhã de manhã toca seguramente três vezes, não te inquietes. Que digo eu? Mi, vai buscar a bicicleta. Identidade… estás aí?
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