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Ora, zumba

17 Março, 2012

Ele dizia caneca e ela pensava na chávena. Ele dizia só mais um bocadinho e ela pensava agora.

As gargantas. O fastio. As ligações sem ligação nenhuma, como agulhas num pim.pim.pim agudíssimo. Uma coisa sem explicação. Uma vontade de terminar com o absurdo de uma ligação, se não há razão para ela, terminá-la. Está a transformar-se num espectáculo burlesco. Um catadupa de coisas vistas, sem brilho nenhum, sem nenhuma glória.

Os ossos dela cada vez mais à vista. Magra. Olheirenta. Os livros a servirem de consolo. Os filmes em tão poucos dias numa voz roufenta num ecrã super qualquer coisa. Os outros cada vez mais amiúde, quase uma miríade. Um não sei porquê mentiroso. Sei muito bem porquê. E nem sequer existem mártires por aqui. Algumas coisas partem. Caem no chão, ou batem em coisas, ou descarregam sobre elas águas gelada. Querem água? Tomem lá pedras.

Pouco e pouco

17 Março, 2011

Ontem um homem muito peculiar comia uma apple strudel (maravilhosa, por sinal, comi-a também a seguir a ele e, também, por causa dele).

Um homem de calças pintalgadas de trabalho, daqueles que são bem recebidos nas drogarias, cortava uma laranja em pedaços pequenos para uma menina.

Um homem com as mãos negras dos óleos dos motores cheira a água de colónia de bebé.

A minha avó está sentada na sala, ladeada pelos gatos, a ver uma das muitas telenovelas. É esta a única altura em que se cala. Às vezes, como já contei, vê televisão de óculos de sol porque lhe parece que vê mais nitidamente.

Queimo micro sopas com frequência, porque estou ao telefone, porque estou a dar o jantar, porque estou a lavar loiça, por tudo e por nada.

Tudo possíveis boas conversas mas para as quais não tenho mais tempo do que estas letras.

 

Sequer

26 Maio, 2010

O homem de costas tem as espaldas puxadas para trás. De forma serena inicia um movimento de força e puxa os braços para a frente com os cotovelos ao nível dos ombros. Nas costas do homem surge um rego profundo cheio de excrementos. O tempo lento em que se dilata exala um silêncio tenso de cor negra e rugosa a surgir empapado pela sua coluna vertebral.

A mulher sorri enfraquecida.

Copiosamente

10 Dezembro, 2009

 

A cor de ferrugem espalhei-a nos dedos para que se confundam as mãos.  

Algumas casas transmitem o equilíbrio necessário para largarmos alguma coisa. Têm recantos a preto-e-branco e depois observamos uma margarida amarela num solitário de vidro onde a água tem uma trasnparência cinzenta. (Escarlate mas nem por isso belo o abandono.)

Os elevadores que nos encarceram, as chaves que se esquecem, os cozinhados que se pousam nas mesas. Os inícios numa grande tela, até parece que com gente.

Tenho dito várias coisas. Tenho-as dito como um sopro, ou sem lhes dar importância. Sinto-o como o suspiro que se solta em ti. Ando a contar dias e não sei porque os conto se sei que continuarei a contá-los, durante e depois. Nada disso me importa mais do que os dias que nos faltam.

Pessoalmente o amor

19 Agosto, 2009

 

Acho que é o meu corpo, um produto de pecado. E a minha mente preversa e transtornada. E definitivamente os meus olhos cheios de firmeza. É um equívoco amarem-me. 

 

Esforço a cabeça a pensar. Tenho dias até que acordo insuportável tal foi a noite. Apesar da sósia estar ali, diante de mim não percebo porque tenho de a matar. Um plágio de mim olha-se como,… não, nem sempre são âmbar. Gigantes e anões numa luta igual. Rebolam-se com as suas armas e atacam. E defendem-se. O pior está em mim. Ter diante de mim a surpresa da imagem pérfida. Uma valentia continuar a pensar onde foi que a vida me fez desejar, ao olhar a cópia, que seja ela a matar-me a mim. Ao nauseabundo ser aqui dentro. Gemo sem saber qual é o animal, se o que geme se o que está dentro enjaulado.

Ninguém chegará tão longe dentro de mim, não permito que vejam a aberração. Ninguém aguentaria tamanha terra. É um erro amarem-me. Não consigo dizer-vos por palavras mais justas este engano. Achei que tinham matado tudo e vejo que é a mim que é preciso que matem.

Agora

24 Junho, 2009

Os campos estão verdes, ou com fardos de feno, uns quadrados outros cilíndricos. As cegonhas já são três, quase do mesmo tamanho. As andorinhas já não se apanham no chão e se enche a boca de água para que bebam e consigam voar. Há frutos vermelhos nas árvores e figos prontos. O céu está sempre limpo. 

 

(Atravesso esses campos. Enchi a boca com água para fazer voar uma andorinha. Ouço os bicos fortes das três cegonhas a bater. Sacio a boca de cerejas. Esmago as grainhas dos figos. Olho o céu sem limite.)

Não se morre assim.

26 Fevereiro, 2009

Quando se disser que foi ontem que aconteceu, não quero que digam que foi num acaso patético. Quando se disser que foi ontem que aconteceu não quero que digam que foi de uma inegavelmente hostil doença. Quando se disser que foi ontem que aconteceu não dirão que fui indizivelmente permissiva.

No dia da minha morte a morte será uma anátema, um inferno sem cheiro algum. Eu devo estar quase a morrer. Quase a morrer duma morte prostrada que eu sei onde vou morrer. Vou morrer à margem de outras indignidades que estilhaçam uma já frágil imagem da humanidade.

Morta estarei quando já não sentir frio, fome, sede e amor. Morta estarei quando já não houver braços para consumir os meus braços. Morta estarei na magreza das horas tão assumidamente imperfeitas. Morta estarei no reforçar do morrer. Um morrer igual por um igual moldado e sepultado.

Quase lá

25 Fevereiro, 2009

Olho para o calendário e fico indecisa: deixo ser maior o medo ou o entusiasmo? Dois não são três, o entusiasmo não vale de nada e o medo não resolve coisa nenhuma. Vou mesmo para lá. Está tão próximo nos dias de semana, naqueles quadrados do meu calendário pendurado na porta da cozinha, que fico sem fome. Estou mesmo quase a transformar isto tudo que agora chamo de minha vida num passado. Quase quase lá.

Não sou dona de mim

14 Dezembro, 2008

Não sou alugada mas também não sou proprietária. 

- Olá.

- Olá.

Estávamos no meio de uma escada. Era mais uma escadaria, mas muito larga e de madeira, mas industrial. Não era próximo. A escada tem muitos degraus que se sobem sempre na diagonal, ninguém sobe aquelas escadas a direito. 

- Estás bem?

- … Sim. Não me dás um beijo? Dá-me um beijo.

Saiu-me. Exactamente assim, com surpresa e indignação. Estávamos no meio de uma escada. Eu parada, ele em movimento. Subia, mas isso era um acaso. Deu-me o beijo. Apertou-me um braço. Deu-me um beijo e não fez esforço para me dar o beijo. Mas mesmo assim, mesmo assim,

- Não me dás um beijo? Dá-me um beijo.

Ainda bem. Não, não é bem isto que quero dizer. Eu percebi que havia um vento gelado na cara. Eu sabia do pássaro ao ombro. Não quero o é assim. Mete-me nojo. Como ao meu corpo gordo, tão gordo.

Quando eu digo uma coisa quero dizer:

28 Novembro, 2008

 

dizer

do Lat.  dicere

 

 

v. tr.,

expor, enunciar, exprimir por palavras;

proferir;

discursar;

recitar, declamar;

mandar, ordenar;

rezar;

mostrar, indicar;

referir, narrar;

dar a conhecer, apregoar;

apontar, censurar;

supor, imaginar;

afirmar, asseverar;

estar inclinado a crer, ter opinião, parecer;

chamar, denominar;

aconselhar, persuadir;

 

v. int.,

falar, ter conformidade com;

condizer, quadrar;

 

v. refl.,

chamar-se, reputar-se;

fazer-se passar por;

alegar;

contar;

 

s. m.,

maneira de dizer, dito;

expressão;

estilo.

 

Não há nada a fazer. E eu não estou a exclamar.

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