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Simples

9 Setembro, 2009

Como o beijo. Como o cheiro. Como o sabor. Como a pele. Como o riso. Como o olhar. (Os nossos olhos estão fechados.)

Escarninho silêncio

16 Agosto, 2009

 

 

“Há duas zonas no homem que são a das origens e a da concretização, a do indizível e a do dizível, a do absoluto e a da redutibilidade”.

Não altera a condição, não modifica nenhuma célula nem membrana. Num ódio que já nem ódio é. Nem para nada serve, só nos gela mais longe o horizonte.

(Não haver um raio que te fulmine!)

X

10 Agosto, 2009

Uma nódoa de vinho no tapete branco. Um borrão na folha. Uma equimose negra no tornozelo direito. Uma mácula no teu lado canhoto.

Material

15 Julho, 2009

Sinto falta de algumas palavras. Ditas assim com os olhos-nos-olhos. Não me interessa a luz ou a falta dela, só o som das palavras e a certeza de ver os olhos.

Sinto que cada vez que suo das mãos me sai um bocado da alma. Sinto que os arrotos de estômogo vazio denunciam uma acidez que não quer sair de dentro de mim.

Sinto que o amanhã pode ser outra coisa, que tudo se precipita e não há um fogo menor.

Sinto o que não digo. Sinto-o assim sem o dizer. Sinto-o.

 

(Anda-me a faltar o sentido de humor, e o génio, já agora, mas é só no papel.)

Enorme.

26 Abril, 2009

Ninguém nos vale, dá razão ou vive por nós. (Mexo-me.)

Como todos, tenho medo deste dia. (Páro.)

Porque é que se tem uma voz? (Contorço-me.)

Salomónica

25 Abril, 2009

Olhar a minha mão direita e a minha mão esquerda. O meu braço direito e o meu braço esquerdo. Olhar a minha face direita e a minha face esquerda. O meu olho direito e o meu olho esquerdo. Dividir o corpo ao meio e olhar um lado forte e um lado triste. 

 

 

 

(És uma menina egocêntrica e rude)

Esparsos

31 Março, 2009

Tens sonhado? E com que sonhas? E nesses sonhos, acordas antes do fim? E quantas vezes regressas à meada? E sentes frio? E depois tens medo? E sentes que é de verdade às vezes? E gostas de acordar?

Estaladiço

11 Março, 2009

(As andorinhas que já voam nestes céus.) A lua ontem libertava um cheiro. Os bichos andavam à solta, os texugos, as raposas, os cães, os coelhos, os ratos, as sardaniscas, as bichas-cadelas e os caracóis. E libertava um cheiro tão forte que apagava as estrelas que costumam ver-se tão bem. A estrela do Norte é sempre a primeira a aparecer. Parece um prenúncio. Depois todas as outras, normalmente com o céu ainda muito claro. E quando cai a noite o céu fica cheio de buracos. Ontem não, a lua libertava um cheiro intenso e apagava as estrelas. Estava tudo fechado, menos o céu com a lua a odorizar os ares e a desarranjar a terra.

Efémero

5 Março, 2009

Porque me fizeste dormir um dos melhores sonos de sempre. Chamam o meu nome lá dentro. Três homens pequeninos, o J, o A e o L. Riem nas camas e não querem dormir. Chamam-me entre risadas inocentes e frescas. Acorro. Aconchego-lhes a roupa. Faço-lhes um carinho nas pernas. Volto para a lareira. Porque me fizeste dormir um dos melhores sonos de sempre. ‘Sentar-se ao lado dos pássaros moribundos’ como os abutres belos e as flores feias de outro mundo. Não conheço mais ninguém que se senta num bar barulhento a ler Joyce. Porque me aninhei num sossego sem mais nada. Os corpos nus e o conforto da pouca roupa no sexo. Tão enlaçada. E acordei e tu puxaste-me. E não me disseste nada. E ficaste tanto tempo a sentir o meu cabelo. E não dissemos nada. Tão macio naquele quarto. E lembro-me que não tomei banho. Precisava de voltar a dormir assim. Noutro quarto. Com outro corpo. Com a facilidade deste. E depois veio uma abelha, não sei se da chaminé, e aconchegou-se nas minhas pernas a dormir.

Querido diário

4 Março, 2009

No outro dia deram-me cravos brancos. Não os contei, são bastantes e estão muito soltos na jarra. Cheiram a cravos de qualquer cor. Tiraram-nos de um arranjo colorido e deram-me cravos brancos. 

Nesse dia, deram-me vários abraços. Num desses elevaram-me os pés do chão. Fiquei pendurada a agarrar-me a umas costas largas mergulhadas num fato azul.

Os cravos vão morrer. Os abraços já mal os sinto. Mas deram-mos um dia e é bom.

Azul

3 Março, 2009

Em cima, atrás, à frente, dos lados, no corpo, nos pés.

Opaco – branco opaco.

11 Fevereiro, 2009

Há caniblismo com o meu medo. Alimentam-se destes gemidos. Descosem-me o corpo para observar a forma incerta que me impele o torso em quase desmaios. Refastelam-se com esta criação de pavor que nasce cá dentro e vai espigando para fora. Como se essa forma tivesse pernas e braços e pudesse arremassar lanças de aço como um cavaleiro. Como se lhe conseguissem medir a potência ou as fases da voltagem aquando o seu adormecimento. Como se lhe seguissem o rasto viscoso que escorre pelas paredes gretadas de bolor. É uma selvajaria que transparece em salpicos nos meus olhos avinagrados. Assim se vive em vício. Assim se teme que o sonho seja sempre pesadelo que para ser diferente precisa ser mais igual na força do respirar. O materno ventre de tudo. Um nada que vai desgastando em eco um todo de cansaço.

 

Sigo golpeando o tempo e mutilando os sons dos que falam inquietos de medo. Não quero ouvir qualquer ruído. Nem do sol a cobrir-se de mar. Nem do mar a cobrir-se do prateado luar. Reclamo silêncio. Silêncio transformado em manhã, tarde e noite que vai arrefecendo invisível a cerimónia da minha insónia.

Contemporâneo

19 Janeiro, 2009

Hoje já não é ser um Tango na Argentina. É ter um lado entre Israel e Palestina. É ter um lado maneta.

É saber que nada nunca bastará. Não se chega a este tempo.

Estamos mesmo a perder qualquer coisa aqui. É um devindo.

De que valem as histórias se não há ninguém para as ouvir. O que interessa soltar palavras por aí?

Intransmissível

9 Dezembro, 2008

Maldito! Se tivesse tido um filho teu um dia, tirava-to. 

Canalha! Fazia-te doer. Fazia-te doer muito, a doer-me a mim.

Estupor! Dava-te essa mágoa para toda a tua vida já não minha vida.

Verme! Haverias de estar sempre subjugado por ti.

Miserável! 

Não me és nada.

Curtíssimas

22 Novembro, 2008

As folhas labiadas em pormenor tão miúdo.