Já disse coisas mais giras. Agora como todas as partes do porco (menos os fígados, claro está).
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Grandes Fotografias
15 Maio, 2012Bonito ou a apologia do efémero
9 Abril, 2011Dois e dois, ou o mais e o menos, ou qualquer coisa que nos relembre as matemáticas dos números. Uma carruagem de metro equilibradamente preenchida por sete negros, – ou castanhos como assinalam as crianças, – e sete brancos, – ou rosados como dizem as mesmas crianças (aliás, os livros infantis que decidem que os bonecos são todos arianos deviam rever este estilo, é impossível pintar um boneco da cor humana clara, ou fica amarelo, ou cor-de-rosa).
Os cabelos delas ou sujos ou mesmo bonitos. Não suporto mulheres de cabelos molhados na ciadade e muito menos cabelos porcos.
Um homem onde só os sapatos estavam em desacordo com o resto: convenhamos, todos, que os sapatos de vela são maus e não se fala mais nisso. (Ah sim, comprei sapatos novos, champanhe desta vez para parecer que tenho os pés nús.)
Umas janelas com sofás arranhados, ou vivos.
Umas unhas roídas ou uma pedicure.
Tenho dias em que por um acaso qualquer o sol, mesmo que não esteja a aquecer-me a pele, parece-me sempre mais quente, o mundo mais primaveril, as pessoas mais humanas, as comidas mais saborosas, os cheiros mais suaves.
Infinitivo Pessoal
3 Março, 2011Como quase todas as mães distingo bem o ser do estar. (ponto)
Como quase todos os Homens separo o ser do estar. (ponto)
(Há tanto tempo não vou ao teatro. Nem ao cinema. Nem a lado nenhum. Há tanto tempo parei de trabalhar que já não sei o que é estar com dinheiro na carteira. Há tanto tempo me habituei a ser capaz de tudo e mais o resto porque uma mulher sozinha é uma mulher sozinha, mas eu não estou sozinha, estou bem, com a melhor das companhias que estrema todo o meu ser e o meu estar e me reduz a uma única existência, ou consciência.)
Eu consigo decidir e optar, mas existem coisas que não queria escolher solitariamente com todo a densidade da mortalidade e do seu erro. Destrinçar o considerável e comer uma canja com o melhor tinto que ainda sobrevive na garrafeira. Ironicamente SER heroíca hoje era perder as estribeiras e a sobriedade. Ai, ai, ai, acertem-me em cheio na consciência e matem-me o remorso. Não gosto de afectos mas de sentimentos e eu estou a amar.
(Na categoria dos falsos verbos, ou Verbo)
Transparente, opaco
8 Julho, 2010Ia escrever qualquer coisa sobre a desistência. Qualquer coisa sobre o acto em si mesmo. Qualquer coisa que demonstrasse a superioridade da falha perante a vontade do homem. Ia escrever qualquer coisa sobre o si revolto sem saliva que não se consegue esconder sobre nenhuma gravata, nenhum palco, nenhuma iluminação ou chão branco. Qualquer coisa que dissesse o quanto me magoaram os seus olhos à procura de uma razão ou compreensão no que não tem mais nada a acrescentar a não ser o tamanho da humanidade de um homem que aprendeu a desistir e que nem por isso se torna mais duro ou insignificante. Trata-se apenas de um homem que num momento nos pede desculpa e desiste. Termina o que tinha prometido fazer antes de o ter feito. Bebe água. Ri-se constrangido com a imobilidade – a sua, a nossa. Pede desculpa de novo e na cabeça dele, na nossa cabeça o nevoeiro. Uma palavra, nossa, roubada à dele. Um momento mais e vai-se embora. Vai-se embora.
Motor
23 Junho, 2010Raramente escrevo (bem) de manhã. As ideias vêm misturadas com o sono, o sonho, o calor da cama. Acordei a pensar no sonho, o eterno regresso, o eterno recomeço. Acordei com a porta de casa a bater. Fiquei ainda na cama e acabei por me render ao ciclo. Há já muito movimento na rua. Pessoas com as cabeças ao sol nas paragens do autocarro. Passos acelerados no passeio largo. Um vai e vem para a utilidade dos dias. Mais logo o mesmo burburinho de regresso a casa.
Ela mexia-se suavemente dentro de mim. Por ela durmo agora sempre com um braço esticado, o braço que fica em cima quando me deito de lado. Gosto de ter calor na cama, o calor que passa quando procuro com as pernas o fresco lençol onde não estava estendida. Os movimentos dela e um formigueiro no estômago, não desagradável, docinho.
Pensei em ti enquanto preparava o sumo. Tu que deves ter suado a noite toda entre arrepios vorazes de temperaturas elevadas. No teu corpo dorido com a marca de dois dentes na barriga, – que bicho será esse?, – a procurar calor no ar quente do aparelho barulhento. Sei de cor o quarto branco onde dormes. Sei da rede azul dependurada, do cheiro a madeira verde, da janela com grades. Depois imaginei-a a ela numa cama pequenina junto à minha, consigo sempre imaginar a cara dela, a boca, os olhos espantados por verem, o nariz.
Os miúdos dos vizinhos estão já de férias e começam cedo a jogar à bola e a chamar pelo cão. Os gatos esperam sempre que um pássaro distraído se deixe ficar no quintal do lado de cá da rede. O sol está quente. O céu azul claro.
Esconjuratório
23 Fevereiro, 2010Os vestidos delas estão abertos nas costas. Têm longos fechos éclair e estão abertos até à cintura. Os corpos miúdos e negros libertos do calor acetinado e vivo. Quase sempre um ombro fica a descoberto. Parecem mais frágeis assim. O homem zarolho e aquele olho dele rasgado por alguma faca talvez numa noite sem lua, cheia de pescadores aos pares nas canoas com as lanternas como pirilampos a apontarem à água à espera que o peixe suba para o capturarem com as redes. O João manco e aquela perna direita num arrasto que levanta a terra barrenta a parecer-me que assim a vida toda. Uma terra onde não existe a palavra beijo. Diz-se até que os mais antigos nunca terão dado um beijo. Uma terra onde os homens ficam com as mãos nas mãos a conversarem longos minutos ou só a olharem para o rosto em silêncio enquanto acariciam a mão. As cabras coçam-se como os cães, com a boca e com as patas traseiras a sacudir a orelha. Um peixe de aquário mais pequeno que qualquer pitéu ocidental seca em longas bancadas na praia. O ar pestilento de moscas, porcos e mulheres sujas por baixo das tábuas a abrigarem-se do sol. Crocodilos nas baías que arruinam a água transparente e quente. Tempestades bíblicas. Insectos de proporções escabrosas. Larvas que rasgam os corpos do hospedeiro como eles rasgam a mandioca com os dentes. Um ombro delas a descoberto. A negligência de um vestido que as inventa mais livres e belas.
Admirável Mundo Novo
8 Fevereiro, 2010As moscas não me deixam em sossego. O zum-zum de roda de mim, os toques na pele. Ali no chão várias asas de formigas termiteiras ondulantes com a brisa. Transparentes e com delicados veios. As formigas controem os montes de terra altos e depois os Homens chegam e apanham-nas. Servem-nas em bacias azuis. Parecem pequenos bagos de algum fruto. As mulheres carregam as crias nas costas. As capulanas que as seguram servem também para as limparem quando as crianças dependuradas nas costas libertam os dejectos. O cheiro ácido e os excrementos amarelos como grão de milho. Algumas mulheres e alguns homens têm os pés gretados. Umas solas grossas que se habituaram ao calor e caminham descalços mesmo no alcatrão ardente. Uma mulher pobre com uma menina suja senta-se e solta-a da capulana. Ficámos sentadas as duas num passeio à sombra. Passam as vendedoras de frutas, de amendoins, de fritos de banana. Tudo alojado na cabeça entre cestos, baldes ou bacias. A mulher brincava com a criança com uma caixa de Becel vazia. Quando a criança choramingou agarrou-a e meteu-lhe a mama na boca. A maioria das mulheres não pára no caminho para as alimentar. Fazem um pequeno movimento com o corpo e a cria desliza por baixo do braço em direcção ao leite. Na cidade os homens e as mulheres misturam-se em sapatos e pés descalços, fatos engomados e apenas capulanas. Todos num andar vagaroso por um chão barrento cheio de pedaços de plástico derretidos. As mulheres usam perucas com naturalidade ou os cabelos rapados. Eu ali no passeio parecia papel. Um mercado e eu da cor das galinhas dependuradas pelas patas às dezenas nas bicicletas a cacarejarem de cada vez que o motorista caía num buraco. É bonita África. Duas mulheres passam por mim e cheiram a peixe podre. África tem um cheiro adocicado da cor do pôr-do-sol. Alguns homens cheiram a suor ácido e pegajoso. À noite não há luz nas estradas. Homens e mulheres aparecem nos caminhos. Há quanto tempo estarão a caminhar? À noite as mulheres bamboleiam-se em frente aos espelhos. Quando um carro está avariado ou se alguém morre, as estradas são bloqueadas com ramos de árvores. No meio do mercado, mesmo nas margens do rio barrento, os homens lavam sapatilhas. Páram para me olhar. Pequenas fogueiras assam maçarocas de milho que crescem ao cinco em cada pé. De noite cada banca de mercado, ou cada esteira no chão tem uma vela que ilumina o material e essa é toda a luz da venda. Mesas plásticas por baixo das árvores têm mulheres sentadas em frente a telefones fixos a fazerem ligações a pedido. Uma fileira de máquinas Singer pretas com homens a costurarem fatos garridos de mulher. Mais adiante uma roncinante máquina de tricotar a fabricar casacos cor-de-rosa e azuis. Quando chove a terra fica com nuvens de vapor. Bebi junto à estrada o pior café de sempre. Os granulados inteiros a insistirem no caminho para a boca. Os homens passeim-se de mãos-dadas. Carregam o mundo em bicicletas. Às vezes toros de lenhas que começam junto à roda traseira, vão seguindo um caminho sobre o condutor até ultrapassarem o guiador. Amontoados com rigor numa curva improvável. Às vezes seis grades de Coca-Cola. Às vezes camas. Quando bebem o cachaço ficam com os olhos parados e amarelados. As mulheres escolhem quem lhes paga o corpo. As crianças correm soltas.
Simples
9 Setembro, 2009Como o beijo. Como o cheiro. Como o sabor. Como a pele. Como o riso. Como o olhar. (Os nossos olhos estão fechados.)
Escarninho silêncio
16 Agosto, 2009
“Há duas zonas no homem que são a das origens e a da concretização, a do indizível e a do dizível, a do absoluto e a da redutibilidade”.
Não altera a condição, não modifica nenhuma célula nem membrana. Num ódio que já nem ódio é. Nem para nada serve, só nos gela mais longe o horizonte.
(Não haver um raio que te fulmine!)
X
10 Agosto, 2009Uma nódoa de vinho no tapete branco. Um borrão na folha. Uma equimose negra no tornozelo direito. Uma mácula no teu lado canhoto.
Material
15 Julho, 2009Sinto falta de algumas palavras. Ditas assim com os olhos-nos-olhos. Não me interessa a luz ou a falta dela, só o som das palavras e a certeza de ver os olhos.
Sinto que cada vez que suo das mãos me sai um bocado da alma. Sinto que os arrotos de estômogo vazio denunciam uma acidez que não quer sair de dentro de mim.
Sinto que o amanhã pode ser outra coisa, que tudo se precipita e não há um fogo menor.
Sinto o que não digo. Sinto-o assim sem o dizer. Sinto-o.
(Anda-me a faltar o sentido de humor, e o génio, já agora, mas é só no papel.)
Enorme.
26 Abril, 2009Ninguém nos vale, dá razão ou vive por nós. (Mexo-me.)
Como todos, tenho medo deste dia. (Páro.)
Porque é que se tem uma voz? (Contorço-me.)
Salomónica
25 Abril, 2009Olhar a minha mão direita e a minha mão esquerda. O meu braço direito e o meu braço esquerdo. Olhar a minha face direita e a minha face esquerda. O meu olho direito e o meu olho esquerdo. Dividir o corpo ao meio e olhar um lado forte e um lado triste.
(És uma menina egocêntrica e rude)
Esparsos
31 Março, 2009Tens sonhado? E com que sonhas? E nesses sonhos, acordas antes do fim? E quantas vezes regressas à meada? E sentes frio? E depois tens medo? E sentes que é de verdade às vezes? E gostas de acordar?
Estaladiço
11 Março, 2009(As andorinhas que já voam nestes céus.) A lua ontem libertava um cheiro. Os bichos andavam à solta, os texugos, as raposas, os cães, os coelhos, os ratos, as sardaniscas, as bichas-cadelas e os caracóis. E libertava um cheiro tão forte que apagava as estrelas que costumam ver-se tão bem. A estrela do Norte é sempre a primeira a aparecer. Parece um prenúncio. Depois todas as outras, normalmente com o céu ainda muito claro. E quando cai a noite o céu fica cheio de buracos. Ontem não, a lua libertava um cheiro intenso e apagava as estrelas. Estava tudo fechado, menos o céu com a lua a odorizar os ares e a desarranjar a terra.
Efémero
5 Março, 2009Porque me fizeste dormir um dos melhores sonos de sempre. Chamam o meu nome lá dentro. Três homens pequeninos, o J, o A e o L. Riem nas camas e não querem dormir. Chamam-me entre risadas inocentes e frescas. Acorro. Aconchego-lhes a roupa. Faço-lhes um carinho nas pernas. Volto para a lareira. Porque me fizeste dormir um dos melhores sonos de sempre. ‘Sentar-se ao lado dos pássaros moribundos’ como os abutres belos e as flores feias de outro mundo. Não conheço mais ninguém que se senta num bar barulhento a ler Joyce. Porque me aninhei num sossego sem mais nada. Os corpos nus e o conforto da pouca roupa no sexo. Tão enlaçada. E acordei e tu puxaste-me. E não me disseste nada. E ficaste tanto tempo a sentir o meu cabelo. E não dissemos nada. Tão macio naquele quarto. E lembro-me que não tomei banho. Precisava de voltar a dormir assim. Noutro quarto. Com outro corpo. Com a facilidade deste. E depois veio uma abelha, não sei se da chaminé, e aconchegou-se nas minhas pernas a dormir.
Querido diário
4 Março, 2009No outro dia deram-me cravos brancos. Não os contei, são bastantes e estão muito soltos na jarra. Cheiram a cravos de qualquer cor. Tiraram-nos de um arranjo colorido e deram-me cravos brancos.
Nesse dia, deram-me vários abraços. Num desses elevaram-me os pés do chão. Fiquei pendurada a agarrar-me a umas costas largas mergulhadas num fato azul.
Os cravos vão morrer. Os abraços já mal os sinto. Mas deram-mos um dia e é bom.
Azul
3 Março, 2009Em cima, atrás, à frente, dos lados, no corpo, nos pés.
Opaco – branco opaco.
11 Fevereiro, 2009Há caniblismo com o meu medo. Alimentam-se destes gemidos. Descosem-me o corpo para observar a forma incerta que me impele o torso em quase desmaios. Refastelam-se com esta criação de pavor que nasce cá dentro e vai espigando para fora. Como se essa forma tivesse pernas e braços e pudesse arremassar lanças de aço como um cavaleiro. Como se lhe conseguissem medir a potência ou as fases da voltagem aquando o seu adormecimento. Como se lhe seguissem o rasto viscoso que escorre pelas paredes gretadas de bolor. É uma selvajaria que transparece em salpicos nos meus olhos avinagrados. Assim se vive em vício. Assim se teme que o sonho seja sempre pesadelo que para ser diferente precisa ser mais igual na força do respirar. O materno ventre de tudo. Um nada que vai desgastando em eco um todo de cansaço.
Sigo golpeando o tempo e mutilando os sons dos que falam inquietos de medo. Não quero ouvir qualquer ruído. Nem do sol a cobrir-se de mar. Nem do mar a cobrir-se do prateado luar. Reclamo silêncio. Silêncio transformado em manhã, tarde e noite que vai arrefecendo invisível a cerimónia da minha insónia.
Contemporâneo
19 Janeiro, 2009Hoje já não é ser um Tango na Argentina. É ter um lado entre Israel e Palestina. É ter um lado maneta.
É saber que nada nunca bastará. Não se chega a este tempo.
Estamos mesmo a perder qualquer coisa aqui. É um devindo.
De que valem as histórias se não há ninguém para as ouvir. O que interessa soltar palavras por aí?