O que deves guardar são os teus dentes. Tens seis dentes agora. Os caninos começam a aparecer, oito. Os teus primeiros dentes a aparecerem na tua boca. O teu rosto a mudar. Deves guardar os teus dentes. Ter com eles a higiene necessária para os conservares saudáveis. Guarda-os.
O que deves guardar são os teus cabelos e a tua pele. Tratá-los, lavá-los, hidratá-los, cortá-los, – limita os golpes, mas vais precisar de ver o sangue a correr ao longo da tua vida, saboreá-lo. Não te cortes por preguiça, justiça ou culpa, os golpes dão-se num ímpeto e sem piedade. Quando tudo o mais acabar, na tua cabeça existirão pêlos, na tua carne haverá um escudo.
O que deves guardar é esse monumento concebido por Homens. A tua boca, o teu estômago, os teus pulmões, os teus intestinos, a tua cabeça onde vives tu na tua intimidade. Um animal. Guarda esse animal que chora desde o dia em que nasceu. Senti-te nesse dia como presente. Concretizei-te num corpo frágil e franzino, transparente. Eras tão transparente, meu amor. Segurava-te na palma da minha mão e encostava-te ao meu peito e tu respiravas. Respiravas sobre mim. Um bafo quentinho. O teu coração batia mais depressa do que o meu e eu imaginava-te cansada e não sabia mais como apaziguar essa aflição e então encostava-te no meu peito. E assim ficava.