Arquivo para Novembro, 2009

Fim da Inocência

28 Novembro, 2009

 

Fim da inocência, disseste tu. Depois ainda acrescentaste, se contas a alguém alguma das coisas que te contei agora, corto-te cada um dos membros por cada coisa que contares.

 

 

Quiproquó

23 Novembro, 2009

O fundo é muito mais claro. Há na realidade vários fundos, ou fundamentações. Branco iluminado a branco. Artificial. Quase o superlativíssimo. Repete-se nas camas, não nos saltos nas camas. Lembro-me que não tenho já lençóis brancos a uso. Vou recuperá-los. O linho é incomparável na cama, só a seda o supera no inverno. De qualquer cor. Mas para isso agora falava desses auto-retratos, ou filmes mesmo, animados. A janela tem vidros velhos. Líquidos. A luz da rua é laranja. As paredes ficam vivas. Os tempos dos saltos são espaciais. Pelo menos para um dos suicidas. Os suicidados de alguma coisa, ou de alguém. Aqui, um interlúdio. Uma cápsula. Um fundo demasiado clínico. O vermelho em vários ângulos. Apetece um certo regresso, o conforto dos castanhos camurça. A família cheia de pêlo. Umas flores no descansa pés. O metálico do cinzeiro e da mesa. As casas perdem os cinzeiros. Há muito tempo que não me doía o pescoço. Percebo cada dor muscular do pescoço. Acabo por abandonar as palavras descritas e fico com elas apenas na minha cabeça, um caleidoscópio delas.

(a)Presente

19 Novembro, 2009

(Voltar, voltar, voltar. O imediato. A enormidade da minha necessidade. Raptem-me, roubem-me, desapareçam-me com esta vontade.)

- Ai, não é com essa idade que aprendes isso. Vais aprendendo a respeitar também, abanando o pano que tem nas mãos a confirmar a espessura do ponto. Não será bem assim, haverá revezes. De certeza absoluta, de certeza absoluta. Não sei se sei o que pensas quando dizes isso. Tudo muda, o que é certo hoje amanhã só se imagina. É por essa incerteza que os teus dias passados te dão o tom com o que o dizes. A sabedoria do tempo que tu mesma receias. Desvia o olhar por uma necessidade de coçar o nariz. Ela notou-o também naquela altura. Da pausa em que se encontram. Do tempo actual e eterno do movimento. O que se passou vai passar para sempre. Ela diz-me, o que já achaste não é exactamente o mesmo que dizes. Tens que prestar atenção à maldade. Não se pode continuar a dobrar as esquinas sem algum receio, ou com uma imensa segurança, porque tens que ser capaz também de dobrar muitas de olhos vendados. Mas não esperes que seja sempre igual. Mas podes acreditar, esperar que se repita, sei lá, e sei que me mexo ao dizer isto, o que está cá, está cá dentro. Não desaparece só porque não cheiras o côco a que costumam cheirar as roupas, isso esqueces, claro que esqueces, mas nem seria possível de outra maneira. Pensa enquanto a ouve a lembrar-se do cheiro do côco na roupa, pensa pensa que se te deitasses e continuasses a lembrar-te do cheiro ainda quente da outra almofada não aguentarias. Mas penso e tenho algumas certezas. E eu sei que não são eternas. Não interessa na verdade. De novo um tempo difuso, não se vê em mais nada, mas um desconforto. É a forma como conduzes a vida. Algumas perguntas que fazes não combinam com as certezas que tens. Diz-me o que queres. O que queres de verdade? O cheiro de alguma coisa? Não se trata de cheirar, nem de comer ou vomitar. Queres respostas? Saber o fim das coisas? E depois o que fazes com esse final? Usas o fim a preto e branco? Nos sapatos? No tamanho da crista? E na cabeça dela as meias. As meias que usa para protegerem os pés do frio. E o pensamento nelas, a sofrer, sentir. Estou sempre a conceber a condução da maldade. Como os números de marcação nas orelhas, ou nos papéis. Mas que me importam os números?! Importam-me sempre os mesmos. São sempre os mesmos olhos azuis. As mesmas sobrancelhas de lobo. O mesmo tom claro da pele. Esfregam a cara. Uma começou primeiro e logo a outra a esfregar também a cara. Apertam os olhos e o rosto com as mãos para cima e para baixo. Esmagam os glóbulos que por momentos as fazem ver tudo negro, e continuam assim, para cima e para baixo. Terminam da mesma forma, apertando as mãos contra a face até ao queixo onde deixam escorrer a palma e depois os dedos abertos.

Epifania

17 Novembro, 2009

Parece que está na moda. Tenho que comprar uma.

 

 

quinta carta

13 Novembro, 2009

 

«A Corrida em Círculos» – I

O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.

É o que está feito,
Perfeito e determinado
É o que principia
No que está acabado.

Ana Hatherly.

P.S. Estou às voltas

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12 Novembro, 2009

Matas-me. É urgente rever-te.

Levantando o joelho

9 Novembro, 2009

É de um romance que se fala. A força desta permanência transforma-a numa raridade. A constância do amanhecer, ainda é cedo, dizes-me, a manhã ainda volta.

Justifica-se em absoluto a pontuação. Neste momento eu sei o que é uma forma, como usar essa forma. Então, diz-me, – Na varanda, à chuva, ou ao sol? - Preciso de uma imagem para isto. Já sei, é o enquanto. (É demasiado prometedor isso, demasiado.) Suporto melhor a água do Porto.

Ridículo

6 Novembro, 2009

É não saber a sua idade. Convença-se de que a partir dos quarenta ou cú ou cara, escolha a que lhe traz mais lucros, benefícios, de onde tira mais vantagens e falsifique o bilhete de identidade. Algumas coisas só ao próprio dizem respeito.

(No capítulo físico do livrinho de auto-ajuda.)

Impossibilidade

4 Novembro, 2009

Estava com o Jorge Luis Borges na praia. Ele estava sentado na esplanada com colete e casaco postos. Eu vinha do banho, um mar estranho que se abria em dois bocados que às vezes as ondas enormes fechavam. O céu era de chumbo, ma ao mesmo tempo tinha uma cor de fogo que saía em raios suaves em direcção ao mar. Havia vários grupos de ciganos agrupados em círculos com roupas muito garridas. Era um grande areal com fogueiras monumentais e algumas ruínas de moinhos, os grandes blocos de pedra granítica negra do fogo. Os ciganos cantavam e batiam palmas flamencas. Passei na esplanada e parei em frente dele. Sorri e ele sorriu. Perguntou-me “És espanhola?”, respondi-lhe que não, que era daqui, ele sorriu, “são um povo muito culto”. Não concordei, mas senti-me bem com a resposta. Disse-lhe, com a coragem de falar dos sonhos, que gostava que esperasse para me dedicar todos os livros que tenho espalhados em casa, e para conversarmos sobre eles. Expliquei-lhe que não queria falar sobre ele, mas sobre os livros que escreveu. Sorriu e disse “a vida não aguentaria a minha espera.” Fomos embora os dois passo a passo. Eu entrei na minha casa espanhola, ele continuou pelo passeio fora. Na minha casa estava no quarto em triângulo que tinha uma cama num canto. Por baixo da cama um tapete vermelho muito peludo, vermelho sangue, com os fios da lã a fazerem padrões ora à direita, ora à esquerda o que dava à cama um ar de triângulo também. Era um quarto alto, muito claro, com janelas enormes no topo. Havia duas escadas no quarto, que foram habilmente decoradas com panos em transparências. Uma levava à casa-de-banho, a outra a outro quarto com três camas suspensas. Espreitei pela janela e vi que chegavam. As mulheres que fumam vinham com os sorrisos enormes, garrafas nas mãos e sacos com comidas. Desci e ao descer tinha um bebé nos braços. Um bebé lindo, tão sereno a dormir num encaixe perfeito entre o meu braço direito onde tinha a cabeça pousada e o meu corpo onde o corpo quente respirava. Olhei para o bebé e pensei, “é meu este bebé. É lindo.” Quando sonhamos não sabemos o fim dos sonhos. Pela casa entraram as mulheres e ciganos, outra vez ciganos sorridentes e coloridos, elas de cabelos e saias compridas, eles em tronco nú ou em colete e cabelo puxados para trás com gel brilhante. Foram para a cozinha e cantavam. Nunca cheguei a ver a sala. Sentei-me a olhar para o bebé que continuava num dormir tão quedo. Olhava o bebé a não acreditar naquele bebé, mesmo que em sonhos. Um sonho onde era para mim menos fantasioso falar com o Borges do que ter um bebé nos braços.

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2 Novembro, 2009

Não és mais podre. Nem menos puro. Nem a excepção. Nem o dúbio. És até um consolo. Um vai e vem a crescer e a ser arrancado.

       O mais doce será o teu olhar.

Não interessam os pensamentos. Nem recuar o corpo, - é amargo, um punho feroz no estômago -, uma ridícula memória. Um dia ou uma noite, os dentes e a saliva num deficiente batimento cardíaco. Ter o céu e a boca do inferno numa mudez, que é até o melhor, num ódio que já nem ódio é, nem para nada serve, só nos gela mais longe o horizonte.

      Chamar-lhe-ei outra coisa um dia. Talvez a menina seja loira e tenha a pele clara.

Não há fuga para o gás largado. O peso da cabeça num abandono do ar. Sem assinatura. Sem carimbo. Sem memória. Sem início. Sem fim particular.

(data)