Estava deitada sem saber que horas eram. Os roncos dos carros eram iguais ao de sempre. A porta do prédio raramente range. Estava deitada a pensar porque teria eu imaginado o meu padrinho, – de camisa azul clarinho -, sentado numa longa mesa de madeira, a conversar alegremente enquanto comia com apetite. O meu padrinho e a mão dele cheia de artroses por causa do andebol. Ele de calções brancos e ar atlético naquelas fotografias de cor amarelada num pavilhão qualquer da Invicta. Ele que era o oposto dos homens de toda aquela geração, que cozinhava as refeições, que praticava desporto sem serem as eternas Lerpas à sexta-feira à noite em que os miúdos, eu também lá no meio, brincavam ao 1,2,3, diga lá outra vez. E de vez em quando às escondidinhas e depois aos médicos. Mas isso foi mais tarde, quando alguns miúdos já não eram miúdos e estavam a estudar fora da cidade. Éramos muitos, eles também e nessa altura o meu padrinho ainda comia. E chamava-me mal-vestida, sempre mal-vestida. E eu zangava-me sempre, à chegada e à partida. Zangava-me e ele ficava a rir-se muito no alto da escada enquanto eu subia ou descia. Agora diz-me que estou bonita, que sempre fui bonita e eu sinto falta de o ouvir chamar-me mal-vestida. O meu padrinho na mesa de madeira envernizada, não novo, mas mais novo porque estava mais gordo do que agora que tem a cara encovada e os olhos tristes. Não estava de certo a minha madrinha por perto porque ele estava bem disposto, a rir e a comer com apetite. Ele que passou toda a vida zangado com ela. Ela que se ria disso. Que continua a rir-se disso e agora já diz “se ele deixar de me de me descompor é mau sinal”. E eu concordo com ela. O meu padrinho que eu não ouvia mas que sei que estaria a dizer algo irónico, ou a comentar um facto qualquer de política que tanto o diverte e aborrece ao mesmo tempo. Foi a primeira pessoa que me fez perceber a ironia. E a fantasia que nem sempre é mentirosa, a fantasia do avô retratado no quadro de capacete metálico e de outro século. A cópia de “O baile de Moulin de la Galette”, de Renoir, faziam-me contar-lhe histórias, ou ele a mim. Ele que tinha pássaros na varanda e que assobiava como eles. E que me deu um gato preto que cresceu e cresceu até se tornar no maior gato que até hoje já vi. Que me dá prendas na Páscoa como quando era menina. E eu dou-lhe flores no Domingo de Ramos. E quase nunca vejo agora. Nem nunca mais comi a sua comida. Nem me sentei mais ao seu colo. Então estava eu deitada a pensar no meu padrinho mais jovem, a comer com apetite vestido com uma camisa azul clarinho.