Arquivo para Setembro, 2009

Ridículo

26 Setembro, 2009

Só se fala do que se sabe e só se manda onde se pode, direi eu numa das páginas do livrinho de auto-ajuda que ando a indexar. Talvez acrescente umas notas sobre o falar e sobre o mandar, talvez porque certos assuntos não se discutem a não ser num concreto.

Cena 14b

24 Setembro, 2009

A DO PENETRA é arrastada.

MULHER

Toda a gente merece o perdão!

A DO PENETRA leva nas roupas pedaços de comida que são cuspidos enquanto  uma mão a agarra. Não oferece resistência.

MULHER 2

Sua cadela.

(cospe-lhe)

A DO PENETRA continua a ser arrastada na rua que sobe. Deixa que o corpo siga com o seu peso inteiro, a mão que a puxa vai trocando porque o esforço é muito.

HOMEM

Víbora. Lagarto. Nem para isto és boa! Nem um pingo de humildade se vê na tua cara.

(cospe-lhe)

 

Contigo

22 Setembro, 2009

Eu – Gostas de mim assim?

Tu – Assim como?

Eu – Assim, nesta posição?

Gente

21 Setembro, 2009

Humilde. Que lava a própria roupa e a estende nas cordas. Ficam estendidas sem hierarquias as intimidades coloridas, brancas e escuras. A baloiçarem na altura.

Como eu. Às vezes como eu. Iguais a mim.

“- Porque os pobres também sentem as suas dores.”

“- Mas esquecem-nas depressa diante de um prato de comida.”

Os pobres não me pertencem. Só conheço gente que sente. Sentiu. Riu e chorou. Gente que sonha. As que se arrepiam com a água gelada do mar e não hesitam em banhar-se. As que se entusiasmam com um abraço. Com o céu cheio de estrelas. Com o som das folhas das árvores quando vem vento. Que preparam surpresas. E viagens em conjunto. Que partilham as alegrias e a mesa. Que não temem o toque nem o grito. As que desistem e mudam de sentido. As gentes que se penduram na mesma janela a ver a mesma esquina. “Sentir que não se está sozinho nisto, ainda que se esteja realmente, é o melhor que podemos sentir.”

Acto reflexo

19 Setembro, 2009

Fiquei surpreendentemente contente com o riso dele. As gargalhadas curtas e de voz fina, como se tivesse quinze anos e o anjo grande ainda não tivesse passado pelo seu corpo e pela sua voz. Fiquei contente e desatei a assobiar a melodia que canto também sempre que desafino e não consigo continuar o assobio. É também pelo tempo que muda e do sentimento nos joelhos de que uma grande mudança chega. E depois por estar ainda em pijama, calças às riscas verdes, laranjas e azuis e de camisola interior. O meu casaco de lã branco comprido e os gatos a ronronarem ao mínimo toque. Peguei no livro de cozinha e penso no jantar. Apetece-me cozinhar bem esta noite para amigos. Enfeitar a casa com flores e pôr a mesa com as toalhas brilhantes. Talvez escolha a vermelha. Os copos altos e grandes de vinho tinto. Os baixos e coloridos para a água. Pelo menos dois talheres. E guardanapos de pano. Ele, o do riso, não vem jantar. Nem hoje nem amanhã. A música que vai tocando neste complicado e novo sistema de som. Uma miúda a estudar na mesa da sala. Um mosquiteiro azul por cima da rede no quintal. A roupa estendida. Um miúdo impaciente a entrar e sair para comprar cigarros. O único já perfumado cá dentro. O sossego de um sábado sem peso para encher. Os planos da dança mais logo. Os brindes que faremos todos. Acho que estico os cabelos hoje, para mudar e para os ver mais brilhantes assim. Vou passar a noite a sentir a seda. E a dizer piadas como a do elevador, ou do polvo mal cozido. E a alegria não é assim tão surpreendente se até dos insultos gosto e que me puxe os cabelos. Fazem-me rir por dentro que para ele não me rio nestas alturas para que não deixe de o fazer e de os dizer. A aquisição das dúvidas é pela ausência porque quem anda por fora bem sabe que estar dentro dá-nos outras tonturas.

(notas pessoais)

19 Setembro, 2009

Mas quando estávamos na cama era perfeito. Quando me rio. E depois surgem as curvas e eu vacilo. Mesmo em frente ao espelho e a ver a verdade absoluta e a perceber tudo, e tenho que fugir, para não repetir erros. Não gosto nada de repetir erros, mas alguns deles terminei-os antes de os ter rebentado, ou me ter rebentado a mim. Acho que era porque não aguentaria. E acho que agora aguentava o antes. Mas isto é porque é tudo demasiado pensado, controlado, ou distante, mas há pessoas que não me saem da cabeça. É porque estou sozinha, é carência, falta de atenção, de sexo, de beijos, de corpos a manhã toda na cama.

Imaginem o resto

15 Setembro, 2009

“Eu sozinho só com a boca faço isto: tarententemptimptimp.tarententemptimptimp”

 

do disparate.

Sequaz

13 Setembro, 2009

Azul – O que faço aqui agora? Isso não é coisa que se pergunte. Não chega a ser territorial nem classicista. Não estás à espera que te aponte uma faca agora, pois não?

Azul claro – Claro que não.

Azul – Claro que não. Não uso facas. Nunca usarei comigo facas. Não me serviriam para matar ninguém. Nem a um cão que a mim se atirasse. Eu aqui e o que faço comigo aqui agora não é uma pergunta que faças.

Respiro

11 Setembro, 2009

Uma cor de pêssego pela manhã. Uma cor de chumbo pela tarde.

Simples

9 Setembro, 2009

Como o beijo. Como o cheiro. Como o sabor. Como a pele. Como o riso. Como o olhar. (Os nossos olhos estão fechados.)

Criança

8 Setembro, 2009

Acreditar na beleza é roçar a imortalidade. A própria palavra esclarece qualquer dúvida quanto ao acreditar. A beleza é o de que mais perfeito e inantingível se fez. E o que mais rapidamente fenece.  Ou tortura. A beleza é um acaso de genialidade. Talvez a música transmita melhor o belo. Talvez a poesia distinga melhor o amor. Talvez a vida se afunde no magistral som que faz fluir o sangue que nos aclara a vista e possamos dizer que é lindo o que vemos e que temos como nosso.

gira-gira

2 Setembro, 2009

…voa, voa… depois do sucesso vêm as críticas.

voa-voa

1 Setembro, 2009

… gira, gira… agora não quero que acabe.