A; antes; após; até; com; conforme; consoante; contra; de; desde; durante; em; entre; excepto; mediante; para; perante; por; salvo; segundo; sem; sob; sobre; trás.
Arquivo para Agosto, 2009
Sem saída; Point of no return; Irreversible; Encurralada.
20 Agosto, 2009Pessoalmente o amor
19 Agosto, 2009
Acho que é o meu corpo, um produto de pecado. E a minha mente preversa e transtornada. E definitivamente os meus olhos cheios de firmeza. É um equívoco amarem-me.
Esforço a cabeça a pensar. Tenho dias até que acordo insuportável tal foi a noite. Apesar da sósia estar ali, diante de mim não percebo porque tenho de a matar. Um plágio de mim olha-se como,… não, nem sempre são âmbar. Gigantes e anões numa luta igual. Rebolam-se com as suas armas e atacam. E defendem-se. O pior está em mim. Ter diante de mim a surpresa da imagem pérfida. Uma valentia continuar a pensar onde foi que a vida me fez desejar, ao olhar a cópia, que seja ela a matar-me a mim. Ao nauseabundo ser aqui dentro. Gemo sem saber qual é o animal, se o que geme se o que está dentro enjaulado.
Ninguém chegará tão longe dentro de mim, não permito que vejam a aberração. Ninguém aguentaria tamanha terra. É um erro amarem-me. Não consigo dizer-vos por palavras mais justas este engano. Achei que tinham matado tudo e vejo que é a mim que é preciso que matem.
Pancada surda
17 Agosto, 2009Atrozmente familiar a pergunta. No mundo pode colocar-se qualquer pergunta. Desapertar os botões das couraças que nos protegem e continuar a seguir pela escada lustrosa. Às vezes vem o cheiro das solas dos outros e o silêncio torna-se duro como uma pedra que nos rebenta a barriga. Um envolvimento da luz rotativa do farol e voltamos a avançar ou recuar um degrau. E desejamos somente que não seja um eterno eco que nos ribombe nos ouvidos, o eco daquele segredo guardado no líquido cristalino que observamos através da muralha do vidro rolhado.
Escarninho silêncio
16 Agosto, 2009
“Há duas zonas no homem que são a das origens e a da concretização, a do indizível e a do dizível, a do absoluto e a da redutibilidade”.
Não altera a condição, não modifica nenhuma célula nem membrana. Num ódio que já nem ódio é. Nem para nada serve, só nos gela mais longe o horizonte.
(Não haver um raio que te fulmine!)
Para um homem
15 Agosto, 2009Já me deram a resposta. Não é preciso que a tenhas proferido tu, em nada divergiria. Não tenho um buraco suficientemente escuro para me enrolar. Nem tenho o medo de tudo perder. Deve ser o café latino que engulo em litros que me põe as mãos a tremer. Não será mais nada além disso, tenho a certeza que é o café.
O que não sei não quero saber. O que sei basta-me. Se lamento? Não lamento quase nada porque se a isso não me neguei não poderei lamentá-lo. Procurei alterar de forma aguda o que sou.
Retirei a suavidade do acordar como naqueles filmes em que a luz é ténue e suave e os lençóis da cama são claros.
Tenho várias maneiras de o dizer. Julgo dizê-lo de maneira acertada. Percebo melhor hoje o que era aquele sorriso antes do resto. Aquela calma no abraço. Como te deitavas ao meu lado e te deixavas ficar deitado e quieto enquanto me envolvias no teu batimento cardíaco. Porque o digo agora? Porque insisto em dizer o que não me perguntas? Deixo-te a ti essas respostas, para não te alterar algumas cores, para não conspurcar a tua ideia. Julgo saber hoje que tens mais inocência do que eu. Que quando quase morreste não foi mau não teres morrido. Que te reservas o olhar curioso e cândido quando olhas a modernidade.
Sinto em ti uma diferença porque seguiste depois de coisas e vieste antes de outras. Uma diferença que me dizem que é de livro. Não conhecia a regra. Gosto da regra, sem as surpresas. Não precisas de duvidar. Sinto-me tonta. É do café todo que engulo que parece que passa já para a cor da minha pele em vez de se largar em água.
Os teus comportamentos, as tuas risadas. Lembro-me dos teus dentes de médico. Não sei porquê mas lembro-me deles. E lembro-me de te ter ferrado a bochecha e de não teres gostado. E de não teres nenhum sabor e isso me ter feito salivar. Porquê? Porque antes assim.
Continuo a precisar de um tiro. E de dizer o que não me perguntas porque o meu esclarecimento não está pintado nas paredes, nem é transparente nos meus pés. Queria ser meiga para ti. Dócil e de voz suave. De ter o andar leve. Talvez te diga a verdade. Terás que a perguntar e talvez te diga. Se vir em ti o brilho e o sorriso nos teus olhos talvez te minta para que continuem a brilhar. Deixa-me dizer-te uma coisa simples e sincera, tenho saudades tuas.
“De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».”
O Plano
13 Agosto, 2009É sussurrado
Em grande agitação.
Espalha-se o essencial
E inclina-se para soprar
“Tu não és suficientemente forte.
Precisas de muita força, meu amigo,
Para comigo viver.
Dou-te cabo da espinha.”
Pressentindo a força falava cada vez mais baixo.
Consentia na cobardia
Mas esperava argumentos invisíveis.
A espontaneidade, a prontidão nas decisões.
A minha vida foi sacudida por um terramoto.
Não me arrependo
Mas o delírio não tem explicação.
Em voz calma te digo que é preciso que me distraias,
Embales, tranquilizes e satisfaças
Sem que eu suspeite de nada
E assim me deixe levar.
Nessa noite,
Encontrei-me com ele
Sendo já crónica a intoxicação
Imaginávamos maneiras de o salvar.
O Plano
É sussurrado.
X
10 Agosto, 2009Uma nódoa de vinho no tapete branco. Um borrão na folha. Uma equimose negra no tornozelo direito. Uma mácula no teu lado canhoto.
Choque – cor-de-rosa choque
6 Agosto, 2009Preenchi o rebordo dos quadrados dos cadernos quadriculados. Páginas inteiras que se mantinham úteis, sem estrelas nos cantos, sem flores nas margens, quadrados sublinhados com força era tudo o que fazia. A figura geométrica de uma boca em oval para abocanhar um sexo. As palavras que escrevo noutros papéis sobre as ovais não são fáceis de esclarecer. Um som oco na boca do estômago leva-me a descrever as formas geométricas dos pulinhos incontroláveis do corpo. Sons que emudeço na boca. – As canetas agora têm purpurinas e as borrachas já não cheiram a morango. Continua a ser a cor do céu da minha boca. Num tempo que marco a compasso apressado, sem as marcas do papel, sem as marcas da pele na tua pele, os rosas assumem uma força silvestre que se emaranha nas roupas e me arranha o timbre do bom-dia. Num entrelaçado monótono ou barroco do que penduro nos teus omoplatas de cada vez que me viras as costas. Humedeço o corpo. Enrolo a recta. Tamborilo os dedos na falsa madeira com a força que altera o respirar do homem e se transforma assim no respirar da mulher – ogivas inteiras no meu ventre. Num toc-toc ineterrupto avanço pelos teus pensamentos impossíveis de satisfazer. Uivam as tripas em espiral retorcida. É como ser Deus, ou tê-Lo ali, encostado no chão liso. Tão próximo do pé que o tortura, da boca que o insulta, do dedo que o levanta.
Nightmare
6 Agosto, 2009Gosto do som desta palavra. Lembra-me um grupo de metal que tem uma balada com uma oração. Lembra-me a minha oração que eu repetia com a minha mãe, todas as noites, antes de dormir. Lembra-me um filme com uns efeitos-especiais que me marcaram imenso. Lembra-me um barco no mar numa noite muito escura. Lembra-me uma raposa e um príncipe. Lembra-me um sonho, na noite passada com tanto de incongruente quanto de plástico besuntado a sair de buracos. Lembra-me os cabelos dele negros. Lembra-me uma escada muito longa e uma bruxa que queria matar o meu pai. Lembra-me o grito mudo que não consegui dar uma noite que acordei com a cabeça nos pés da cama. Lembra-me o excesso da anatomia dele e o mal que me fazia. Lembra-me as portas que rangem. Lembra-me os sítios apertados onde enfiava o corpo todo escondida. Lembra-me um poço. Lembra-me as cordas a apertarem pulsos. Lembra-me os homens pendurados em cordas pelo pescoço. Lembra-me as mães de negro sentadas nas praças. Lembra-me uma boca aberta. Lembra-me uma voz metálica a sair das colunas. Lembra-me o suor que escorre na fronte. Lembra-me a água opaca e sombria dos rios. Lembra-me os homens nas esquinas. Soa bem esta palavra: night-mare.
Noutro mundo
5 Agosto, 2009Olhos azuis – Com a electricidade mudou tudo. Ficamos com menos medos. Eu lembro-me de um burro preto e de um gaiato vestido de branco em cima dele. Ele tremia de medo àquela hora da noite. Era o primeiro a chegar à padaria e depois tinha que ir acordar o padeiro. Montava o burro e fazia-o correr pelas ruas. Parecia uma aparição.
Olhos verdes – Um fantasma!
Olhos azuis – Quanto mais ele corria mais as pessoas se assustavam com aquela alma penada a voar no escuro. E quanto mais medo tinham mais falavam desse medo. E o gaiato mais corria e mais tremia.
Olhos verdes – Um fantasma.
Olhos azuis – E depois naqueles anos sem luz havia mais sonâmbulos, não sei explicar porquê, mas viam-se muitas vezes as mulheres com as camisas brancas até aos pés, de braços esticados, a percorrerem as ruas escuras. Aquilo fazia-me medo a mim também.
Olhos verdes – Um fantasma?
Olhos azuis – Ou uma bruxa, sei lá o que pensava, mas passava a correr em certos caminhos, as pernas tremiam-me e eu era novo, corria, corria. Depois havia uma casa com um homem gordo que dormia assim com os braços sobre o peito e ressonava de vez em quando de uma maneira estranha, não era continuado o barulho, era um ronco forte e selvagem. Eu acagaçava-me e lá estava eu outra vez a correr rua abaixo ou rua acima.
Olhos verdes – Um fantasma…
Olhos azuis – Um monstro ou um lobisomen, ou um bicho qualquer de outro mundo. Não se explicavam estas coisas. As casas não tinham luz, as ruas não tinham luz. As ervas secas daqui, que crescem em tufos grandes e redondos, tremiam com a aragem e elevavam-se no ar como se fossem braços de mãos afiadas. Os homens respeitavam as horas do recolher. As mulheres acendiam o lume e coziam as batatas. Os velhos encolhiam-se nas sombras. Os animais eram negros. Eu era pequeno. Muito pequeno e ladino. Tinha medo e corria.
Sobriedade
2 Agosto, 2009
Parece uma chaga cheia de pus e pústulas. Os níveis de resistência ao abjecto são grandes e o controle apertado. As verdades inconfessáveis sempre a latejar nesta infecção generalizada. Roedores de patas viscosas alimentam-se destas erupções e não se consegue enxotar os parasitas. Os cheiros pútridos. Os olhos baços com as órbitas salientes e amarelas. A imagem de um horror que não se quer ver mas ao mesmo tempo a aberração obriga-nos a continuar a cheirá-la.