Arquivo para Julho, 2009

Deleite tangível

25 Julho, 2009

 

Uma mesa de mogno pesada. Um atoalhado brilhante de uma seda com flores amarelo-torrado. Frutos em bandejas com pingos de água. Ostras escarranchadas.  Taças de cristal cheias de água perfumada. Vinhos brancos gelados e tintos robustos. Corpos desnudos e bocas insacíaveis. Mulheres com cabelos longos. Homens com troncos suados. 

Sorver, chupar, deixar escorrer pela boca o suco. Suspirar, lamber, morder. As língua palpitantes, os lábios inchados, as pupilas dilatadas. A crueza dos sentidos numa lascívia ruborizada.

Tenho uma viagem para fazer contigo.

24 Julho, 2009

No real e presente. Uma viagem programada, que eu quero e que pelo menos já esteve nos teus anseios. Sabes que só duas vezes convidei alguém realmente para o bacalhoeiro. Não te contei do bacalhoeiro, um dia conto-te. 

Contigo gostava pelo menos de fazer uma, mas consigo desejar mais. Sério, uma viagem com mota e outra de camião. Fáceis as duas, uma mais demorada, a outra mais divertida. Mas fazia as duas contigo. Agora que é verão e que sabe tão bem viajar devíamos fazer a viagem, mas para isso precisava de te convidar. Pois era, precisava de te convidar.

opilar-me (eu digo ópilis, um verbo raríssimo, ou nem por isso)

21 Julho, 2009

Há coisas às quais não se consegue fugir, ou então que nos lembram uma qualquer coisa. Ou nada disto e recomeço: Uma gargalhada. Um nariz tão estranho. Uma barba a disfarçar a falta de barba. Uma pronúncia imperceptível. Uns dedos longos. Uns pés delicados. Um corpo magro. Uma arma. Um cavalo. Uma explicação. Uma pergunta. Uma teoria. Uma contestação. Um cinto. Um escaravelho. Um cão preto. Uma colher com sopa. Um anel.

 

(É em tudo e em nada o que se vê e depois como se sente. Desta vez não será assim. Não tornarei a ver a cor do pecado)

Voo ou a boutade de umas asas azeviche

18 Julho, 2009

Primeiro o verbo inquietar.

- Sentei-me à espera naquele pavilhão com o tecto em chapa. Meia-dúzia de garrafões de água cheios de pedras pequenas dispostos sobre uma lona verde. Um avião de fibra, as asas dobradas nas pontas, sem hélice. Um bar e uma televisão. O sol lá fora, a espera e a perna em movimentos ritmados e impacientes. A vontade dos cigarros e a borracha com sabor a menta na boca. O telefone a tocar no silêncio, a televisão aos gritos num programa qualquer que garantia que não ia já de fim-de-semana. A perna a agitar-se. Os dentes a triturarem a borracha. Umas casotas gigantes no segundo andar em madeira contra-placada. O avião não chegava e a lona verde, uns quantos bidons de gasóleo, grandes e vermelhos.  

Depois o verbo entusiasmar.

- Os arnês, as fitas muito apertadas à volta das virilhas, os ombros que se sentem, a carapaça preta agarrada às costas. Uma plataforma de madeira com rodas onde me deitei e experimentei a postura do corpo. O avião, quantos anos lhe dá, perguntou-me ele, não sei avaliar a idade destas coisas, não me chame nomes ao avião, pois, claro, é um avião, mas não sei mesmo quantos anos tem. Quarenta e cinco, um Cessna, mas está como novo, garanto, não precisa, não tenho medo de aviões. A chapa tão leve e oca, o banco único, um espelho retrovisor, uns farolins na asa esquerda, os botões todos mesmo ao meu alcance, um volante tão pequeno, uns headphones verdes e lacados tão bonitos, o tecto em acrílico, e nós sentados no chão. Ele subia com vagar, o Alentejo inteiro ali em baixo. As ovelhas que deixava de ver, as albufeiras, as estradas, a minha grande casa azul, a planície, as culturas redondas. Uma luz laranja começou a piscar e ele continuava a roncar e a subir numa imensa sobra de tempo.

Para sempre o verbo assoberbar.

- O aparelho redondo marcava uns quantos pés, é agora que nos pomos de joelhos, e piscou-me o olho azul, o castanho está morto e não se mexe. Eu na frente dele, a porta aberta e o vento lá de fora a entrar-me nos pulmões. A borracha na boca e eu a sentir a boca. Uns cliques e um corpo agarrado ao meu corpo. É agora, diz-me ele, e lá vamos como no oleado verde, de joelhos, dois ou três movimentos até à porta. É agora, continuava ele, e eu ponho um pé cá fora, depois o outro e o braço esquerdo agarrado ao avião. Disse adeus João e senti a boca. Lembrei-me do resto do corpo e com a mão direita encostei a palma no meu lado esquerdo, nada. A boca senti-a. Dois toques no ombro direito, cruzei os braços. Dois toques no ombro direito e saltei, de lado, o direito, para trás, e senti tudo. – Uoooooouuuuu. Foi num sussurro que se soltou. A boca. Dois toques no ombro direito e abri os braços. A boca. Tudo ali, na boca. A terra cá em baixo e o meu corpo com a minha boca a caminho dela.

Pele de cobra

16 Julho, 2009

Esticando os braços e apontando os dedos consigo ver as escamas que se soltam numa fina poeira. Soltam-se e ficam no ar meio suspensas sob o brilho de um astro amarelado que coalha a cabeça sem clemência. O tom de pele muda ligeiramente, torna-se num amarelo acastanhado. As marcas das sombras acentuam-se e constroem um novo corpo. Se o vento soprar a pele solta-se mais facilmente. Se as sombras permanecerem a pele retoma à cor esbranquiçada recorrente. Mesmo atrás dos filtros azulados ou esverdeados da água a pele é claramente acastanhada. Ou amarelada.  

Falo da pele como poderia falar do bicho que a pele exterior compacta. Ou do fruto com a polpa a escorrer o sumo assim que se rasga a membrana. Ou do golpe. Ou da faca.

Material

15 Julho, 2009

Sinto falta de algumas palavras. Ditas assim com os olhos-nos-olhos. Não me interessa a luz ou a falta dela, só o som das palavras e a certeza de ver os olhos.

Sinto que cada vez que suo das mãos me sai um bocado da alma. Sinto que os arrotos de estômogo vazio denunciam uma acidez que não quer sair de dentro de mim.

Sinto que o amanhã pode ser outra coisa, que tudo se precipita e não há um fogo menor.

Sinto o que não digo. Sinto-o assim sem o dizer. Sinto-o.

 

(Anda-me a faltar o sentido de humor, e o génio, já agora, mas é só no papel.)

(notas pessoais)

13 Julho, 2009

Se cada dia valer d

ias. 

Os suspiros e as granadas. Os entumecimentos e as flores dos campos.

Se cada dia valer d

ias.

Os óculos de sol postos e ela nos seus cabelos curtos tão brancos sem o serem completamente, ela naqueles sofás verdes com um piqué amarelo, ela sentada às escuras de óculos de sol postos.

Se cada dia valer d

ias.

Os meus dias cheios de névoa, incertos sobre um específico carril. Pudesse eu saber se um dia usarei o corpo  como alimento. E saber que cada dia vale dias, dias da minha vida e que cada vida traz em si a sua morte.

stravaganza

12 Julho, 2009

Idiotas: quando não sabem quanto sal pôr. Tenho-o dito mais de mil vezes, não o torno a repetir ou começo a achar que são todos atrasados mentais. Ou que falo para surdos. 

O palato e o descontrole dos sentidos não se sente com calma, acontece num vapor enebriante.

Acabei de ver quatro pessoas com quatro sacos plásticos brancos na mão. Cada uma transportava um pedaço de uma história. Uma mulher, por exemplo, transportava uma banheira onde se banhou apressadamente. Cada um transportava um saco cheio de equívocos. Um saco com asas, daqueles sacos simples e comuns dos supermercados, mas não tinham marca, eram só a embalagem comum do equívoco.

Transparente Minuete

8 Julho, 2009

Ela diz – Os meus pecados, da minha mãe, do meu pai, da minha irmã são de um vermelho translúcido. 

Ela disse – O vermelho jorra das veias e apesar de opaco não é baço mas não se pode dizer que tenha o brilho do ruby.

Ela diz – Tenho desejos de vingança, protegida como se a minha mãe estivesse na frente e o meu pai atrás.

Ela disse – O aço galvanizado cintila como a prata.

Ela diz – Com uma faca abrir o sítio dentro de mim onde está o azul alilasado dos céus no final do dia.

Ela disse – O azul claro, o azul escuro, o azul acinzentado não impedem a falta de vento nem nos olhos da minha mãe.

Ela diz – Arrepiou-me uma nortada de sudoeste com uma luz esbranquiçada.

Ela disse – ‘A água cristalina não é opaca como o leite não é claro’, mas vê-se o vento nas superfícies.

Ela diz – Poder um dia tirar o brilho de todas as cores e transformar o branco numa cor de verdade e o preto no seu máximo.

Ela disse – Poder um dia deter nos dedos todos os filtros de todas as cores.

(cont.)

Ridículo

2 Julho, 2009

Ainda não falei do corpo no livrinho de auto-ajuda. Daquela massa que nos faz únicos – e todos sabemos que são os nossos defeitos que nos caracterizam, ou o excesso de beleza que nos transforma em deuses, –  começo hoje, e começo por baixo: se é mulher e não sabe andar com tacões altos, não ande. Fica com uma aparência semelhante à de um animal. Se sabe melhor, mas espero não ter que perguntar se anda todos os dias porque você já saberá que lhe faz mal, a não ser que os use para andar em cima de alguém e, se é esse o caso, aconselho o tacão agulha.

Um caroço

2 Julho, 2009

de pêssego na boca. A revirá-lo entre os dentes com a possível capacidade de o revirar dentro da boca com a boca fechada. Encostada, ou pousada, ou empoleirada sobre/numa madeira. Há pratos na banca. Uma travessa de forno com um resto de uma sorcière. 

- Há uns dias saltei de um avião na esperança que um pedaço de pano funcionasse. Senti-o no corpo todo. Foi assim a coisa maior de que me lembro agora.

Olha para cima e fica com um sorriso muito ténue na boca. O caroço de pêssego ajuda a que pareça melhor. Uma dúzia de coisas acontecem sem qualquer importância: uma mosca atravessa o olho, um pé raspa o calcanhar no chão de cimento, uma brisa sopra na alfazema, um duplo piscar de olhos, um som estranho de bicho, uma nuvem move-se, um copo vazio abana-se em círculo, uma melena de cabelo é afastada para trás da orelha, uns faróis percebem-se na estrada, uma unha coça o pulso, um movimento de língua a empurrar o caroço noutra direcção, os lábios sobem um bocadinho mais.

Ele sorri. Ela não nota.