Primeiro o verbo inquietar.
- Sentei-me à espera naquele pavilhão com o tecto em chapa. Meia-dúzia de garrafões de água cheios de pedras pequenas dispostos sobre uma lona verde. Um avião de fibra, as asas dobradas nas pontas, sem hélice. Um bar e uma televisão. O sol lá fora, a espera e a perna em movimentos ritmados e impacientes. A vontade dos cigarros e a borracha com sabor a menta na boca. O telefone a tocar no silêncio, a televisão aos gritos num programa qualquer que garantia que não ia já de fim-de-semana. A perna a agitar-se. Os dentes a triturarem a borracha. Umas casotas gigantes no segundo andar em madeira contra-placada. O avião não chegava e a lona verde, uns quantos bidons de gasóleo, grandes e vermelhos.
Depois o verbo entusiasmar.
- Os arnês, as fitas muito apertadas à volta das virilhas, os ombros que se sentem, a carapaça preta agarrada às costas. Uma plataforma de madeira com rodas onde me deitei e experimentei a postura do corpo. O avião, quantos anos lhe dá, perguntou-me ele, não sei avaliar a idade destas coisas, não me chame nomes ao avião, pois, claro, é um avião, mas não sei mesmo quantos anos tem. Quarenta e cinco, um Cessna, mas está como novo, garanto, não precisa, não tenho medo de aviões. A chapa tão leve e oca, o banco único, um espelho retrovisor, uns farolins na asa esquerda, os botões todos mesmo ao meu alcance, um volante tão pequeno, uns headphones verdes e lacados tão bonitos, o tecto em acrílico, e nós sentados no chão. Ele subia com vagar, o Alentejo inteiro ali em baixo. As ovelhas que deixava de ver, as albufeiras, as estradas, a minha grande casa azul, a planície, as culturas redondas. Uma luz laranja começou a piscar e ele continuava a roncar e a subir numa imensa sobra de tempo.
Para sempre o verbo assoberbar.
- O aparelho redondo marcava uns quantos pés, é agora que nos pomos de joelhos, e piscou-me o olho azul, o castanho está morto e não se mexe. Eu na frente dele, a porta aberta e o vento lá de fora a entrar-me nos pulmões. A borracha na boca e eu a sentir a boca. Uns cliques e um corpo agarrado ao meu corpo. É agora, diz-me ele, e lá vamos como no oleado verde, de joelhos, dois ou três movimentos até à porta. É agora, continuava ele, e eu ponho um pé cá fora, depois o outro e o braço esquerdo agarrado ao avião. Disse adeus João e senti a boca. Lembrei-me do resto do corpo e com a mão direita encostei a palma no meu lado esquerdo, nada. A boca senti-a. Dois toques no ombro direito, cruzei os braços. Dois toques no ombro direito e saltei, de lado, o direito, para trás, e senti tudo. – Uoooooouuuuu. Foi num sussurro que se soltou. A boca. Dois toques no ombro direito e abri os braços. A boca. Tudo ali, na boca. A terra cá em baixo e o meu corpo com a minha boca a caminho dela.