Eu não interrompo a tua existência, mas não fiques a achar que interrompi antes.
Arquivo para Junho, 2009
lágrimas
28 Junho, 2009Fracturar o que for
27 Junho, 2009Não desejo mais braços com os olhos às vezes em lágrimas que não vou acolher. Não me apetecem mais pessoas. Esta sim é a minha maior mudança. Crua. De uma crueza dura, que repugna olhar. A carne exposta. A incerteza do adormecer de uma criança que cresce para ver a putrefação. – Depressa, um galope, um fino tecido de seda azul que cubra de novo as formas de amar. Ficaremos de novo uma hora mais. Alguma coisa miúda faz falta agora. Como a água nos canos e dentro dos jarros de vidro. E atravessa-se o rico deserto da cura para a morte. Já não nos servem os olhos e os ouvidos. A boca mantem-se aberta como um filtro gasto e acastanhado, quase preto nas bordas do café que escorre. Ao acordar abre-se a boca e já não se a torna a fechar. Um líquido espesso e baço, o corpo gorgolejante num espasmo uníssono. – Porque tarda o galope? Onde está o vento arrastado no azul de seda?
Agora
24 Junho, 2009Os campos estão verdes, ou com fardos de feno, uns quadrados outros cilíndricos. As cegonhas já são três, quase do mesmo tamanho. As andorinhas já não se apanham no chão e se enche a boca de água para que bebam e consigam voar. Há frutos vermelhos nas árvores e figos prontos. O céu está sempre limpo.
(Atravesso esses campos. Enchi a boca com água para fazer voar uma andorinha. Ouço os bicos fortes das três cegonhas a bater. Sacio a boca de cerejas. Esmago as grainhas dos figos. Olho o céu sem limite.)
Eu e o meu duplo
23 Junho, 2009Eu – É que é um círculo imperfeito. Cheio de imprecisões que perturbam o andamento, mas não são o suficientes para nada, nem para deixar de ser um círuclo.
Duplo – Não sei o que se passa com o meu corpo, anda a resisitir às dietas.
Eu – E depois o que nos passa pela cabeça. Aquela gente toda alinhada daquela maneira, a encontrar um fio que vai seguindo aquelas caras que estão na nossa cabeça, – a rirem-se, ou muito sérias, caras de culpa e de vitória e de orgulho, numa memória tão imperfeita.
Duplo – A contínua queda ou o eterno desequilíbrio.
Eu – As guitarras parece que não são guitarras. Podem ser uma coisa arranhada, rude. Mas são guitarras e as coisas que pensamos das pessoas. Algumas, as que ficamos a pensar mais tempo. A construir a história. Que nunca mais se concretiza de maneira nenhuma.
E depois pensas nos sonhos e no que é isso dos sonhos. No upa. E os sonhos são de verdade, com os olhos abertos a olharem qualquer coisa lá em cima.
Duplo – E agora nem é o corpo, que tem razão. Tem razão e há que obedecer ao corpo. Deixá-lo estar.
Eu – Nem sei porquê. Nem porquê deixa de ser. Nem sei.
Duplo – Estou com demasiadas certezas. Demasiada acertividade.
Eu – Sem tempo para os obstáculos. A ultrapassá-los com todos os centímetros de mim.
Duplo – Preocupam-me alguns sonhos, daqueles que inquietam. Que não nos deixam dormir porque são sentidos. Vê-se no tamanho da pupila. Dilata.
Eu – Estiveste o tempo quase todo com os óculos. As lentes não são demasiado escuras, vêem-se os olhos…
Duplo – Mas não as pupilas.
Eu – É que não se vêem e depois, no meio de outra conversa, sabe-se que as pupilas daqueles olhos, do sonho, da forte vontade com os olhos sempre abertos, a não conseguir parar de,
Duplo – Não é sonhar porque sabes das pupilas. Porque é que sabes sempre de tudo. Porquê. Porque é que sabes sempre.
Eu – E depois não páro de sentir. Sempre em formas humanas. Deixar de sentir o que se sabe de formas humanas.
Duplo – Arreganhar uns dentes num auto-retrato ou então como uma afogada numa banheira de um quarto-de-banho verde.
Eu – Numa representação do que se pode ser sem as pupilas. Mas as pupilas são um humano que se sabe e que não se quer e que não se quer mais aquele humano de volta de nós. Seja com que corpo esteja, se tiver as pupilas, ou se nós sentirmos as nossas pupilas, é um humano como outro humano qualquer.
Duplo – E a coragem de verdadeiramente ensaiar o fim.
Eu – Foi ensaiado mas algumas, poucas coisas, são sem estreias, sem ensaios, sem planos e sem papéis. Acontecem.
neguem
19 Junho, 2009(Em pequenas letras, como se fosse uma pequena coisa.)
Ligam-me às vezes e eu não atendo. Deixam-me mensagens que começam com perguntas: ‘Ouves os grilos?’ E fica um silêncio em que espero a torrente de grilos no meu ouvido.
Escrevem-me às vezes e eu leio depois. Dizem-me ‘o teu corpo é como uma estátua de cera moldável, macio e liso.’ Passo o dedo na pele e esmago a carne para sentir a matéria.
Passaram já tantos dias. Em Agosto é que começa o Inverno mas até lá pingo água das palmas das minhas mãos. Estou onde quero estar. Neguem ou asseverem os dias que passam.
A adoptar palavras meladas e grossas. A absorver as possíveis quantidades. O melindre débil de uma voz e de um ouvido.
um bocadinho
15 Junho, 2009(se quiseres não respondas, ou se quiseres faz o que entenderes)
Num paraíso assim? Ainda estás? Quando podemos tomar um vinho tinto entre pratos? Lado a lado? Gosto de te ouvir e estares tão ausente por aqui silenciou-te. E gostava de te ouvir outra vez. Um dia destes a ver se combinamos, como nos mal-entendidos, combinamos isso um dia destes. Ainda bem que tudo está bem. (vemo.nos.de.certeza.um.dia.destes.por.aí)
Bichos
13 Junho, 2009minúsculos. Para se ver se
têm pernas e braços e,
para se verem os olhos,
era preciso ampliá-los.
(Mesmo por cima do raio estriado e claro da minha pele).
Por correio
9 Junho, 2009Estou a sorrir porque sim. Não percebo nada da vida. Aliás, pouca vida tenho tido para além desta imensa ‘Casa’. Não sei muito mais, vou sabendo dos que AMO porque me importam e porque os quero bem. Mas vão eles também sabendo de mim. De resto quero o dia 22 de Junho, pós almoço-de-reunião forte (onde eu vou sacar de todas as minhas armas), para poder descansar em L. uns dias, arranjar o quintal, ir ao P. nos anos da mãe, mimar a malandragem, dar jantares, entupir-me de filmes e drogas e álcoois, dormir sem despertadores, receber telefonemas para convites e não com pedidos, cuspir caraços de cerejas para a terra, andar o dia todo sem tomar banho, despenteada e com remelas, comer o que me apetece nas horas em que me vai saber bem, esquecer isto tudo, esta azáfama que, apesar de tudo gosto, e que finalmente reconhecem.
Não quero nada de ti, só que não sejas estranho. Não me sejas estranho. Quando falo por meias palavras, tu pergunta que eu repondo as palavras inteiras. Só tu terás tempo para mais cabeças confusas porque a tua vida é de verdade uma inominável reviravolta. De resto, as três mosqueteiras estão boas: a M. está linda, tem um brilho especialíssimo que se vê e se espalha. A G. está mais magra, meio amarelada, mas isso passa-lhe. Vejo-lhe por vezes uma centelha de esperança muito forte no olhar e não tem roído as unhas. Eu tenho uma imensa capacidade de trabalho. Devo ser como os camelos. Logo se vê o resultado de tudo isto. O nosso dartacão está triste, deve ser porque lhe faltam todas as suas mulheres que fumam. Já nem braços nos quer dar, fecha-se num mutismo assustador. Eu estarei em breve em L. e vou abraçá-lo mesmo contra a sua vontade.
De resto, terei que fazer um homem grande chorar. Vou fazê-lo com tanta raiva que ele nunca mais será o mesmo. A E. continua a tomar conta dos MEUS animais que para mim são gente. E choveu que se fartou hoje. E espero que quarta, no dia da raça, esteja sol, não tenho tendas previstas e não me apetecia nada um fiasco na estreia.
Estarei de calças de ganga pretas, novas que a mana comprou e eu ainda não vi e com um trapo cá em cima que nem sei de que cor é. Salto alto e não pensei no cabelo. Só me falta um press release, duas cidades para cartazes e vender bilhetes. Estou quase lá, quase-quase.
(em queda livre)
O futuro próximo
8 Junho, 2009Será um dia como outro dia qualquer. Será uma hora tão inconsequente como qualquer outra hora. Será o dia em que se houvesse aquela específica inteligência eu…
Um amor como outro qualquer nomeável. Um amor como outro qualquer impossível. Um amor como outro qualquer incandescente. Um amor como outro qualquer que eu…
Uma gargalhada trinada como se fosse rouca. Um sorriso tímido como se fosse principiante. Uma pirueta repetida no círculo de riso como se fosse eu…
Um calor tão bom que eu nem precisava de suar.
No trabalho
7 Junho, 2009Manda-chuva – Vais lá?
À chuva – Vou, estou em cima disso.
Manda-chuva - E a lista?
À chuva - Quase pronta.
Manda-chuva - Não te esqueças das reservas.
À chuva - Vou fazer agora mesmo.
Manda-chuva - E o que falta?
À chuva - As fotografias e o programa.
Manda-chuva - E hoje só faltava um raio…
À chuva - Mas está lá.
Manda-chuva - Feito por profissionais!
À chuva - Que não há dúvida.
Manda-chuva - O resto está tudo?
À chuva - Menos as reservas e a lista. E assegurar o resto.
Manda-chuva - Mas estás a tratar disso?
À chuva - Sem descanso.
Manda-chuva - Falta pouco.
À chuva - Quase lá.
(versão)
6 Junho, 2009Se todo o literal for uma perda é um passo do genuíno. O genuíno do inicial. Resume-se ao sentir e ao deixar de sentir. Não importa o que se perde nas raras alturas em que estamos verdadeiramente a sentir.
Para onde é que crescemos?
E agora a versão literal fica mais genuína e mais presente na estranha forma de vida d’este meu coração. Um original que, se vive da perda, morre de uma morte lenta. Uma permanente palpitação espalhada.
(colar cartazes)
4 Junho, 2009Eu digo-vos uma coisa, os próximos três dias vão ser bonitos! E o tempo que faz?! Bonitos, vão ser bonitos.
Violenta morte sofrerá
4 Junho, 2009Como o seco veio da árvore a que só vejo sombra.
A sombra de uma árvore que eu bem vejo que é velha.
A sombra de uma grande árvore.
A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE
A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA.A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA.A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA. A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE VELHA.A SOMBRA DE UMA GRANDE ÁRVORE