Arquivo para Abril, 2009

O som quebrado do papel fino a dobrar-se ou o FIM de uma vaudeville

30 Abril, 2009

Ou estás a falar de anos e anos de cobardia, de mentiras, de substituições? Do teu mal o menos?.. Ai se estás a falar disso.

Se falas do resto, se falas da beleza, da perfeição, do completo e depois do seu final… Como um maestro anão, de batuta pesada entre os dedos, ordenaste o fim e o reinício ligeiramente alterado: a beleza, a perfeição, o completo. De repente eu era um monstro.

- Os teus olhos abertos e a olhar uma coisa para ali, a soluçar. Merecedora da tua indiferença…  Uma coisa no chão da cozinha que tu olhaste. Ainda falaste qualquer coisa condizente com o teu resto de ser.  Morri nesse dia e  vi –me morta uns dias antes. Fiquei morta por meses. Estive morta. – O som quebrado do papel fino a dobrar-se. Aquele embrulhado que não precisa de ser vincado com força, se molda com um seco restolhar. 

Porque o meu presente não apaga os meus dias de passado. O som do papel a dobrar-se restitui-me a inocência das primeiras vezes que tocava, sem jeito, o papel. E um dia o som, o tom do papel a impor-se sobre a minha atenção. A minha mão a fazer o vinco com mais calma. E outro vinco a seguir. O que vejo vem mesmo do mesmo lado.

É como o armário com os retratos. A memória escrita de uma destas coisas. Uma memória qualquer à qual me apetece, às vezes, borrar-me com ela.  Uma coisa nova que duvida dependurada na inércia dos homens ao colocarem um dedo sobre a boca, pousado, que já não se manda calar ninguém.

E se não falas? Falas sim, – não há mais nenhuma maneira. E tens que falar, se ainda te resta algum pus humano, para te questionares sobre esse poder de matar.  De matar e de deixar morrer. Sem cerimonial, o mais eficaz, que ninguém consegue ouvir os outros a lamuriarem-se. Já sangro dos lábios de tanto arrancar o nojo do nariz.

E eu sento-me e pousam-me um guardanapo no colo. Calem-se com as lamúrias, com as marrecas e com os defeitozinhos que pretendem tirar-me a vontade do bife. Logo na hora do bife chegam os outros. E é quase tudo o que me deu este ano, bifes nas horas das refeições.  

O maestro espera de batuta no ar. Está de costas para o que lhe vai acontecer e aguarda que se calem.

Rejeito-me,

27 Abril, 2009

rejeito o que sinto, rejeito-o. Desejo definitivamente a desunião deste mecanismo grosseiro e eu própria. – O da ordem medida em dias que me aparentam a nenhuma ordem.

- Finge, finge a húmida ignorância.

Leve (des)interesse. O corredor adornado com as mortas flores-de-sangue.

Ai.

Cortar os tendões da água frustrada numa eferverscência sem saída.

Desmover  o corpo deste abano,

este corpo que eu sinto.  

Tirar-lhe o fundamento.

Consentir, consentir, e afinal não consentir nada.

Que não me toquem.

Não me sujem mais com os dedos imundos, porcos de toda a merda do mundo.

Enorme.

26 Abril, 2009

Ninguém nos vale, dá razão ou vive por nós. (Mexo-me.)

Como todos, tenho medo deste dia. (Páro.)

Porque é que se tem uma voz? (Contorço-me.)

Salomónica

25 Abril, 2009

Olhar a minha mão direita e a minha mão esquerda. O meu braço direito e o meu braço esquerdo. Olhar a minha face direita e a minha face esquerda. O meu olho direito e o meu olho esquerdo. Dividir o corpo ao meio e olhar um lado forte e um lado triste. 

 

 

 

(És uma menina egocêntrica e rude)

- Ainda me lembro, …

22 Abril, 2009

- Mas tu só dizes disparates?

Ao espelho depois das festas.

19 Abril, 2009

Não voltarei a ser a menina roliça que tinha um fato-de-banho verde e amarelo, às riscas brilhantes. Tinha um rabo grande e rijo próprio da adolescência saudável.

Não voltarei a ser a jovem adulta sem mamas nem rabo de biquinis brasileiros que me assentavam na perfeição.

Não vou continuar a estar como estou, mas os meus objectivos mudaram. Não serei mais a ex-gorda ou a ex-magra. Vou ser uma nova coisa que está diferente, mas está bem e, em alguns aspectos, está até melhor.

Sinapse

17 Abril, 2009

Vais continuar a dizer o quê? Que não me mentiste? (pausa) Apenas o sentiste quando? Vais continuar a viver e a dizer o quê? Que tudo é novo? Ou a viver sem duvidar?

Apontamentos a bordo de um comboio

16 Abril, 2009

Apetece-me matar os actores que ridicularizam o que sentem. Apetece-me abraçar a mulher que foi por amor. Apetece-me mandar calar o fadista. Apetece-me gritar com o chauvinista. Apetece-me segurar nos velhos que esbarram nas portas. Apetece-me rasteirar os entusiastas que gritam nos corredores. Apetece-me um silêncio numa folha. Apetece-me encorajar a mulher da ninhada. Apetece-me olhar pelas janelas. Apetece-me rir com o que oiço. Apetece-me regressar ao que deixei. Apetece-me o olhar seguro do segredo do oiseau-cheval. Apetece-me perceber o trote. Apetece-me ralhar com a criança gémea. Apetece-me o reconfortante sabor do quente. Apetece-me um bigode, ou um burro, ou um salto. Apetece-me segurar na mão do analfabeto. Apetece-me uma novidade. Apetece-me ouvir uns chinelos com umas mãos com anéis. Apetece-me o desconforto do sono nas horas que pesam e não passam. Apetece-me ouvir a poesia do pastor no corredor. Apetece-me um boneco pendurado. Apetece-me garantir à mulher que é levada pela primeira vez que vai correr tudo bem. Apetece-me uns olhos azuis de rapina. Apetece-me um negro de um túnel.

Eu digo pila de uma forma que não sabem se não me ouviram ainda.

14 Abril, 2009

Há muito tempo houve um que me mostrou a pila e me disse que lhe podia tocar. Depois outro que eu queria experimentar a pila, mas esse não era bem um homem ainda. E outro a seguir, maiorzinha, que me disse que havia o que eu não sabia também com a pila. E outro depois desse que me via na casa-de-banho e mexia na pila. E outros com carros e pilas dentro e fora desses carros, que pelo menos lhes via a pila. E depois outros, desses que achavam que por terem pila podiam usá-la. E depois uns que me recusaram a pila. Em definitivo uma pila de um caucasiano. Posteriormente pilas que procuram um qualquer encaixe. Eu digo pila. E posso andar mais para trás, ou mais para a frente com as pilas. Terei sido clara? Se me ouvissem dizer pila perceberiam de certeza.

… sabes sim, tu sabes.

11 Abril, 2009

 

 

 

 

 

nn

Rosmaninhal

10 Abril, 2009

É o roxo a cor da renovação. Os campos lavrados, a terra arenosa, da cor de mosto, com os recortes das árvores. Os campos tão vazios com árvores grossas de troncos expostos e lisos. Depois, ou antes, campos com casacos espetados em paus a afugentar a passarada. Verdes rasteiros que não deixam adivinhar o que ali vai crescer.

É irremediável que cresça. Não se voltam a olhar.

Os reflexos raiados do sol por entre as nuvens a acusarem a dúvida. Os campos, na mesma cadência a renovarem-se. Estou sozinha e começo a ter medo de não estar. O acto de erguer a cabeça para o lado direito, empunhar o copo e beber o vinho com os olhos elevados a olhar pelas janelas, as janelas que parecem de toda a vida, cinzentas e baças, a lua, uma lua grande e branca.

Dias sábios os que são ameaçados por nuvens carregadas.

Subservientes a um querer maior. Não há retrocesso. Hão-de ter existência as ervas, como  não hão-de mingar os dedos das mãos. É nestes dias que que todo, que que todo o Universo nos diz que está o início. Assim, com a saliva compacta a colar os lábios em fios espessos. E tudo e tudo como o roxo nos campos. Digno da sua imperial vontade.

M

9 Abril, 2009

de manias. Preciso de bases de copos. Vai entrar aqui o cinzento e o esverdeado. Assentam-lhe.

de marias. Das mães, das filhas das mães. 

de manias. Únicas, próprias de quem as detém. Minhas.

de marias. Das mães, e das filhas das mães.

de manias. Não desafiem, estão estabelecidas. 

de marias. Das mães, e das filhas de suas mães.

(a letra eme, comme aime, comme moi qui rêve. Jesus est déjà crucifié. Il será mort aux trois heures demain. Il ressuscitera dimanche. C’est une heure irreversible.)

As Palavras dos Outros Soam-me Melhor

8 Abril, 2009

No quarto ao telefone.

O quarto tem uma cama e junto dela uma cadeira de braços e pernas em madeira, envernizada e clara, estofada a veludo branco com tachas douradas. O quarto tem um espelho com uma moldura barroca. Há uma janela com portadas acinzentadas. Não tem cortinas. Há vários livros em montes no chão, não estão largados, estão encostados ordenadamente às paredes brancas.

No início, ela está sentada na cadeira e acaba de pintar as unhas dos pés. 

- Ou trabalho ou leio. Se o trabalho não corre mais vale dispersar e fazer o que tem mesmo de ser feito. Agora continuar cá dentro, com tantos corpos a contorcerem-se como lesmas não. A minha voz até é doce, posso passar mais tempo ao telefone; mas acho sempre constrangedor falar com os outros enquanto outros ouvem. Preciso de sair, estar lá fora de um lado para o outro. Parece que tenho o síndrome das pernas inquietas ao telefone. E depois não me dá jeito nenhum, tenho que escrever coisas, tomar notas. Tenho que arranjar um caderno novo, este está com tantos assuntos misturados… Já nem eu me entendo. E depois as palavras dos outros soam-me melhor. Sempre. Ou então tenho sorte nas leituras. Tenho andado aflita, sabes. Aflita com esta coisa de ter esta criança nos braços e ter de a lançar. Angustia-me não conseguir fazer nada dela, ou pensar nessa possibilidade, só de pensar nessa possibilidade. Não vamos falar sobre isso agora. Ou melhor vamos, vamos falar sobre isso. Agora. Tenho dias em que engano o tempo. Muitos dias parece-me.

Nunca se levanta. Ensaia várias posições. Pega e larga o verniz várias vezes. Faz de um livro um leque com que refresca as unhas dos pés.

A cadência da voz dela tem de ser experimentada.

didascália

7 Abril, 2009

 

É sempre a minha primeira vontade.

Desenganos

6 Abril, 2009

Céus, tenho visto nas pesquisas que fazem que devo andar a ser descomposta verbalmente pelos católicos. As ‘Palavras Santas’ que procuram não serão certamente estas. Curiosa a procura na época de Aleluia. Procurarão as próprias palavras divinas? Encheram-me os ouvidos de credos, novenas e demais graças para achar piada sequer à alusão às mesmas. As únicas palavras referentes a assuntos religiosos que poderão ser aqui lidas só mesmo pela música clássica e, mesmo essas, muito bem enquadradas.

Ridículo

5 Abril, 2009

No livrinho de auto-ajuda, sem dedicatória, que ainda ando a escrever, continuo no capítulo das respostas.

Outra resposta universal é que quase nada depende nós, por isso, aplicar a máxima ‘Deixa arder que eu não sou bombeiro’ ajuda a evitar taquicardias e outras ias do género.

Angel’s dust

2 Abril, 2009

 

 

Num pássaro mecânico. Numa noite negra. Na força das ondas do mar. Aqui. Agora. Para sempre.