Ou estás a falar de anos e anos de cobardia, de mentiras, de substituições? Do teu mal o menos?.. Ai se estás a falar disso.
Se falas do resto, se falas da beleza, da perfeição, do completo e depois do seu final… Como um maestro anão, de batuta pesada entre os dedos, ordenaste o fim e o reinício ligeiramente alterado: a beleza, a perfeição, o completo. De repente eu era um monstro.
- Os teus olhos abertos e a olhar uma coisa para ali, a soluçar. Merecedora da tua indiferença… Uma coisa no chão da cozinha que tu olhaste. Ainda falaste qualquer coisa condizente com o teu resto de ser. Morri nesse dia e vi –me morta uns dias antes. Fiquei morta por meses. Estive morta. – O som quebrado do papel fino a dobrar-se. Aquele embrulhado que não precisa de ser vincado com força, se molda com um seco restolhar.
Porque o meu presente não apaga os meus dias de passado. O som do papel a dobrar-se restitui-me a inocência das primeiras vezes que tocava, sem jeito, o papel. E um dia o som, o tom do papel a impor-se sobre a minha atenção. A minha mão a fazer o vinco com mais calma. E outro vinco a seguir. O que vejo vem mesmo do mesmo lado.
É como o armário com os retratos. A memória escrita de uma destas coisas. Uma memória qualquer à qual me apetece, às vezes, borrar-me com ela. Uma coisa nova que duvida dependurada na inércia dos homens ao colocarem um dedo sobre a boca, pousado, que já não se manda calar ninguém.
E se não falas? Falas sim, – não há mais nenhuma maneira. E tens que falar, se ainda te resta algum pus humano, para te questionares sobre esse poder de matar. De matar e de deixar morrer. Sem cerimonial, o mais eficaz, que ninguém consegue ouvir os outros a lamuriarem-se. Já sangro dos lábios de tanto arrancar o nojo do nariz.
E eu sento-me e pousam-me um guardanapo no colo. Calem-se com as lamúrias, com as marrecas e com os defeitozinhos que pretendem tirar-me a vontade do bife. Logo na hora do bife chegam os outros. E é quase tudo o que me deu este ano, bifes nas horas das refeições.
O maestro espera de batuta no ar. Está de costas para o que lhe vai acontecer e aguarda que se calem.