Com a falta de sonhos. É que tudo aquilo é o mar sem ser rio ou salgado. É um lago de margens suaves que vive dentro daquela vida.
Arquivo para Março, 2009
Eu regozijo
31 Março, 2009Esparsos
31 Março, 2009Tens sonhado? E com que sonhas? E nesses sonhos, acordas antes do fim? E quantas vezes regressas à meada? E sentes frio? E depois tens medo? E sentes que é de verdade às vezes? E gostas de acordar?
Allegro Vivace
30 Março, 2009Está aberta a temporada. Tenho uma mesa ali que desejo desde o primeiro dia aqui. Há hora marcada. A luz de agora importa. Tudo aos saltos, por fora, e cá dentro, o jornal, o sumo de laranja, o café, o pão fresco, a manteiga e o doce, a música, as revistas espalhadas. Perguntas. E aquela voz. Tenho uma mesa ali que desejo desde o primeiro dia aqui. Há hora marcada.
Acendo uma vela
26 Março, 2009ao meu Menino na esperança de que nunca voltes para mim. Não iam perceber, ficamos assim.
- teRRchte, ….. fsuuuu.
(notas pessoais)
25 Março, 2009Até parece que estou a fechar um cerco. Dentro do cerco não poderia perder nada. E parece que fecho um cerco. Esta coisa de ser outra coisa dá-nos muito que pensar e que controlar. ‘o vómito da luz ergue-se/das palavras ditas em surdina’, como se não ouvissem, pior, como se não me vissem. E repiso o chão nos mesmos sítios onde já tinha repisado, repisado, repisado. Se decidi, tenho de deixar o cerco de ar que parece que estou a construir. Seguir para outro lado, nem que seja para um novo cerco, mas novo, ainda cheio de ervas a nascerem debaixo dos pés. E aprender a falar para mim, sem estar sempre a usar a primeira pessoa a falar em bicos dos pés. É que nem sequer falo, escrevo. O único som que ouço sai-me dos dedos indicador e médio das duas mãos. Das pontas das mãos. E como se pára de fazer um caminho tão certo? É que não é desta forma, assim, a andar assim, a andar assim em círculos. Olho o chão que vou sulcando e mantenho as mesmas cócegas dentro da cabeça, que até parece que estou a guardar coisas, a guardá-las de uma forma absurda e aniquilante, e amedrontada. Eu estou assim, sempre no mesmo. Estarão as ruas cheias ou vazias agora?
| notas para o diário |
| deus tem que ser substituído rapidamente por poe- mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos. a dor de todas as ruas vazias. sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste a dor de todas as ruas vazias. mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do a dor de todas as ruas vazias. pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lis- é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem a dor de todas as ruas vazias. sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o a dor de todas as ruas vazias. os poemas adormeceram no desassossego da idade. a dor de todas as ruas vazias. Al-Berto |
Delicadeza
24 Março, 2009
Delicadeza é não começar e acabar. (Ainda não sei falar.) Delicadeza é dizer que é só um beijo e depois ser uma torrente de sentimentos que saltam em forma de baba. (Ainda não sei sentir.) Delicadeza é fechar os olhos e ser bonito. (Ainda não fecho sem ver.) Delicadeza é olhar para fora e aceitar o bom, o mau e o corrente. (Ainda só vejo dentro.) Delicadeza é não pedir desculpa. (Ainda peço, diariamente.) Delicadeza é mimar, abraçar e aconchegar. (Ainda sou arisca.)
(Tenho uma fragilidade na cabeça e uma carência pelo corpo todo. Ainda.)
(notas pessoais)
21 Março, 2009(meias, cuecas, mudar guarda-vestidos de estação, calçado, quilómetros, música, carregadores, mangueiradas, baixinho, físico redondo.)
Frágil rosáceo. O branco da geada, não ao lado, mas em cima de tudo. Assemelha-se ao resto das cores.
‘O virgem Negra’
20 Março, 2009- Cê vô?
- Faço-te um santinho.
- Mas alguém me cala a rapariga. Essa rapariga que um dia vai ser velha. Que vai deixar de…
- E a outra?
- A outra está sempre na porta, encostada a cuspir os caroços das laranjas para a terra.
- Deixá-la. Amanhã é o dia da feira. Da virgem.
- Está de saias, mas é um homem. Sai de barco.
- Estamos longe do mar. E não se vê nada.
- Precisamos dos cabeços limpos. Faltam ainda seis anos para a próxima…
- … como os antigos que não deixavam cozinhar de menos os ensopados.
- Ainda não temos o castanheiro. Dá-se c’oas geadas.
- Deixamos para quando crescer.
septuagésima primeira carta
20 Março, 2009Dublin, num dia sexto, qualquer
ai, uma novela para nada
MK,
‘Palavras, palavras, a minha vida, que eu digo acabada, ou ainda por chegar, ou ainda em curso, conforme as palavras, conforme as horas, contando que ainda dure, desta estranha forma. Aparições, guardas, que infantilidade, e vampiros, dizer que eu disse vampiros, saberei ao menos o que isso significa, claro que não, e o que é que acontece, entretanto, como se eu não soubesse, como se houvesse duas coisas, outra coisa para além desta coisa, o que é essa coisa inominável, que eu nomeio, nomeio, nomeio, sem a usar, e chamo eu a isso palavras. É que eu não encontrei as palavras adequadas, aquelas que matam, vindas das agruras deste infesto pasto ainda não me subiram à garganta, desta torrente de palavras, com que palavras nomear as minhas palavras inomináveis. Todavia, tenho esperança, juro, de poder um dia contar uma história, mais uma, com homens, espécies de homens, como no tempo em que não duvidava de nada, de quase nada.’
O teu Beckett
P.S. ‘Olha, poderia ser este o tom, e o teor, a estupidez de uns soluços.’
descalça
18 Março, 2009
Tenho pés marinhos, não foram feitos para outra coisa a não ser andar nus.
Ela uma vez
16 Março, 2009Ela por ela não se importava de ficar naquela casa. Até gostava da cama, era fofa como algodão e quente como um casulo. Gostava das mobílias coloridas da sala, gostava de ficar na cozinha sentada num banco muito pequeno, branco, que servia de degrau para os armários kafkanianos mais altos e gostava de ficar de molho na banheira do quarto-de-banho verde, sentia-se um tronco a boiar. Mas acabou por sair e não foi ninguém que a mandou embora. Um dia ela partiu cá por umas coisas. Sabia, no dia em que partia, que escolhia e que ao escolher renunciava. Desconfiava que a liberdade da escolha era a maior liberdade que tinha e que ao decidir a própria vida decidia a alma toda. Mas foi à procura da resposta e do fim que a acompanha.
Listas ou papéis?
14 Março, 2009É sempre por nada. Hoje foi pelo céu estrelado. Imenso, negro profundo e tanto céu. Tantas tantas estrelas com uma lua grande. Foi, claro, a música alta. A beira da estrada. Com árvores esparsas, recortadas no negro e depois os campos que não se viam, mas que davam a cor da terra. E nisto as listas: estradas, mercearias, malas, protocolares, laborais, lúdicas, familiares.
E sei que amanhã, quando acordar vai estar sol. E depois, vou tomar o pequeno-almoço. E depois, vou tomar banho. E depois, vou sair para ir ao mercado. E depois, vou ao talho. E depois, vou buscar tachos. E depois, vou passear de bicicleta. E depois, vou fazer o almoço. E depois, vou passear para perto da água. E depois, vou mergulhar na água. E depois, vou voltar a casa. E depois, vou tomar banho. E depois, vou parar. E depois, vou jantar. E depois, vou dormir. E vai ser bom.
Ridículo
13 Março, 2009Voltando às respostas, no livrinho sem dedicatória, muito antes das conclusões:
É sempre preciso um foco. Demasiada luz encandeia e não deixa ver nada. Ou seja, não se pode abraçar o mundo com as pernas, por isso, mais vale mantê-las abertas.
Ouro – número atómico 79
12 Março, 2009
A minha pele é dourada, de um ouro precisoso dourado pelas mãos de minha mãe. Depois luto com formigas que ganham asas e que me atormentam na luz amarelada dos candeeiros suspensos nesta casa de cor ocre.
Sont noum désigne une certain jaune. Ces yeux sont verts. Elle est né en 1976. Voilá.
Avantgarde
12 Março, 2009
Posição de mise en garde. Início do treino dos atiradores na pista. As suas armas são espadas. Dois homens.
Treinador – En garde. Etes-vous prêts?
Os atiradores afirmam com a cabeça tapada. Estão competamente imóveis com as espadas estendidas na direcção do adversário, as pernas flectidas e o corpo teso e ligeiramente inclinado para a frente.
Treinador – Allez.
Espada 1- A serenidade e a antecipação.
Espada 2 – Perceber. Só preciso de perceber para onde ele vai e ir antes.
Espada 1 – O corpo tem que estar sempre alerta, pronto. A mente tem que estar calma.
Espada 2 – Perceber o nervosismo.
Espada 1 - É tudo técnica: braços, pernas, cabeça.
Espada 2 – Está-se a perder. Recua.
Espada 1 – A mente calma.
Espada 2 – … e Touché.
Treinador – Halte.
Os atiradores voltam à posição de mise en garde. O Espada 2 ganhou terreno na pista. O Espada 1 recua para manter a distância para a remise en garde.
Estaladiço
11 Março, 2009(As andorinhas que já voam nestes céus.) A lua ontem libertava um cheiro. Os bichos andavam à solta, os texugos, as raposas, os cães, os coelhos, os ratos, as sardaniscas, as bichas-cadelas e os caracóis. E libertava um cheiro tão forte que apagava as estrelas que costumam ver-se tão bem. A estrela do Norte é sempre a primeira a aparecer. Parece um prenúncio. Depois todas as outras, normalmente com o céu ainda muito claro. E quando cai a noite o céu fica cheio de buracos. Ontem não, a lua libertava um cheiro intenso e apagava as estrelas. Estava tudo fechado, menos o céu com a lua a odorizar os ares e a desarranjar a terra.
Panos
10 Março, 2009
Os primeiros são rodilhas. Os segundos guardanapos.
-Ditado popular.
O demasiado desmaiado
9 Março, 2009O ar faz-me abrir a boca e solta-se com o peso do suspiro. O peito enche-se e esvazia-se num instante. Estabelece-se o azul escuro. Pode ser o resto. Não estou preparada para a vida. Para toda esta solidão, todo o vazio, toda a cordialidade. Para cada manhã que começa. Para cada noite que acaba. Para tanta mudança. Tantos pratos embalados. Tanto abandonado. Tanto esquecido. Tantos adeus. Acho que choro outra vez. Que faço eu com este corpo cansado?
Tocam os sinos
9 Março, 2009
O sítio na minha cabeça onde ouvi a tua mão a coçar o meu rosto.
A tua barba grisalha e a tua boca em mim. E depois as noites tão longas entre os despertares com o meu corpo sempre suado. E os teus gritos desafinados sobre as músicas. E aquele bar. Os intermináveis jantares com cigarros. A mão que eu passei a roubar-te na rua. Os teus excessivos ovos ao acordar. A chave da minha casa que te deixava usar. A tua escova de dentes no meu armário. E a toalha sempre lavada. Como olhavas para mim e me dizias ‘és bonita’. E era-o só para ti.
Não sei para onde vais, mas e isso é coisa que se possa desejar?
(‘And now she’s dead, forever dead, and lovely now’, canto baixinho.)
carta para ela, – ‘E nesse dia…
8 Março, 2009‘- Nesse dia fecho-me com ela num quarto e fico a cuspir-lhe um ano inteiro.’ Tu’”: toma por isto!, toma por aquilo!, toma por mais isto!”, até a deixar como um lagarto pisado pelos garotos, que é o que é, mais toda a família. Sabes bem que não lhe invejo a vida. Que tem ela?’ (a pausa é minha) ‘Tirando a Angústias, a mais velha, que é filha do primeiro marido’.