Adiante.
- chamaram-me de poesia
Adiante.
Isto e outras coisas que fiz fi-las e volto a repeti-las. Será solidão ou privacidade?
Quando se disser que foi ontem que aconteceu, não quero que digam que foi num acaso patético. Quando se disser que foi ontem que aconteceu não quero que digam que foi de uma inegavelmente hostil doença. Quando se disser que foi ontem que aconteceu não dirão que fui indizivelmente permissiva.
No dia da minha morte a morte será uma anátema, um inferno sem cheiro algum. Eu devo estar quase a morrer. Quase a morrer duma morte prostrada que eu sei onde vou morrer. Vou morrer à margem de outras indignidades que estilhaçam uma já frágil imagem da humanidade.
Morta estarei quando já não sentir frio, fome, sede e amor. Morta estarei quando já não houver braços para consumir os meus braços. Morta estarei na magreza das horas tão assumidamente imperfeitas. Morta estarei no reforçar do morrer. Um morrer igual por um igual moldado e sepultado.
‘No silêncio reinante, ela ouve o seu próprio respirar que lhe parece estranho e ao mesmo tempo uma boa companhia. As lágrimas sobem-lhe aos olhos e correm lentamente pelas têmporas, de cada lado, até à cabeleira despenteada. A sua boca, grande, mole, está semi-aberta. Vai ficando cada vez mais escuro. As árvores desvanecem-se e desaparecem à medida que o céu se vai tornando negro. Ouve vozes ao longe, vozes graves que se movem ao ritmo da sua respiração tranquila. São palavras sem significado, fragmentos de frases, sílabas confundidas, caindo como gotas com intervalos de silêncio.
Os seus olhos continuam a encher-se de lágrimas.’
E soo mais uma Persona de Ingmar Bergman.
Olho para o calendário e fico indecisa: deixo ser maior o medo ou o entusiasmo? Dois não são três, o entusiasmo não vale de nada e o medo não resolve coisa nenhuma. Vou mesmo para lá. Está tão próximo nos dias de semana, naqueles quadrados do meu calendário pendurado na porta da cozinha, que fico sem fome. Estou mesmo quase a transformar isto tudo que agora chamo de minha vida num passado. Quase quase lá.
verdes no meu corpo. Foi de certeza alguma coisa que comi ontem…
Tem que saber andar. Tem que saber comer. Tem que ter um ar muito bem apessoado. Tem que ter um ar intrigante. Tem que ter um aspecto inteligente. Tem que parecer agressivo. Tem que ter um olhar misterioso. Tem que ser banal sem ser comum. Tem que saber nadar. Tem que sorrir com delicadeza. Tem que ser o que não é mas que podia muito bem ser e, acima de tudo, tem que ser um quase invisível, para ser mais acessível, mas ter atitude de herói. - Uma capa e já agora que saiba voar? É que se arranja. Há sempre gente para tudo.
No dito livro de auto-ajuda apercebo-me que devo dedicar mais tempo à razão do dito. Debruçar-me mais na necessidade do objecto na estante dos livros. Quando é que se vai ver se está ali? Quando se necessita de uma resposta. Instantânea. Sim é útil, concluo.
may i feel said he
(i’ll squeal said she
just once said he)
it’s fun said she
(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she
(let’s go said he
not too far said she
what’s too far said he
where you are said she)
may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she
may i move said he
is it love said she)
if you’re willing said he
(but you’re killing said she
but it’s life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she
(tiptop said he
don’t stop said she
oh no said he)
go slow said she
(cccome?said he
ummm said she)
you’re divine! said he
(you are Mine said she)
No Thanks
Edward Estlin Cummings
Mentirosas. Com as suas dez letras.
Tanto sentimento esgrimido. Tanta pousia. Todas uma mentira. Todas. Nestes momentos precisos em que penso em ti sabes o que faço? Leio-as. Sinto ainda, – tudo. Sinto-o, não como sempre foi, mas como passou a ser desde o momento de lucidez. De repente um enjoo. Um regurgitamento azedo do putrificado alimento engolido. Um nojo na boca.
Leio-as. Os decisivos instantes em que te endereçavas a mim e logo o asco cá dentro. Sei o que mato. Sei-o bem em cada frase que mato mais do que o dobrar. Que com o retorno do ácido à boca mato-te mais do que só a mim. Que o repugnante gosto que sinto galvaniza um todo que és, que sou, que é, que são. Estou pronta para morrer ou para viver duzentos anos.
Deviam? Há momentos em que me apetece. A adoençazita. Também a sinto, no pescoço, atrás, junto dos grandes tendões e à frente, no primeiro círculo dos nós do meu pescoço.
K4 o Quadrado Azul. Pelo menos o K4 o Quadrado Azul.
E os dias já estão maiores. E ouvem-se mais pássaros com as janelas abertas. Que importa que as noites continuem húmidas. Que importa que tudo acabe como este Inverno que se lança num movimento disfórico. Que importa o periclitante caminho em rectas inteiras que me vai levar a outro rio. Que importa se os dias estão já maiores e se ouvem mais pássaros com as janelas abertas. Até parece que sorris já. Parece mesmo que sorris.
Cozinha. Final de tarde. Vêem-se as janelas que antecipam o mar. Estão encostadas aos balcões e têm próximos copos de sumo de laranja.
Marta – Não sei se deva. Não sei se faça.
Cilinha – Faz.
Marta – Faço enquanto penso: maldita por seres tão facilmente levada…
Cilinha – Afinal o que é que não se faz mesmo?
Marta – Assobiar à mesa. Pôr chapéus sobre a cama. Cruzar sapatos. Passar por baixo de escadotes. Partir espelhos. Brindar sem beber. Entornar azeite. Comer polvo com a mentruação. Beber vinho doce na mesma altura. Blasfemar. Cuspir para o ar. Pôr dinheiro ou chaves numa mesa com pão…
Cilinha – Não sabia do assobiar à mesa, nem dos chapéus nas camas.
Marta – É, um é mau agoiro o outro morte, ou só se faz com os mortos, qualquer coisa asim.
Cilinha – E o azeite?
Marta – Não é bom.
Cilinha – Além disso és desarrumada, mas és limpa. E não és levada coisa nenhuma. Vais e pronto.
Marta – E não devo porquê?
Cilinha – Não deves…, não deves porque pensas que não deves. Basta pensares nisso para ficar logo tudo inquinado.
Marta – Aquela coisa dos que não pensam serem estúpidos e dos que pensam demais serem idiotas?
Cilinha – O importante é fazer bem.
Marta – Fazer bonito.
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
Se tanto me dói que as coisas passem,
Sophia de Mello Breyner Andresen.
‘Jesus died for somebody’s sins but not mine
meltin’ in a pot of thieves
wild card up my sleeve
thick heart of stone
my sins my own
they belong to me, me’.
Quelq’un regarde / O belo não é eterno. / Parle a quelq’un ce soir / Olha ali uma estrelinha no céu.
Guardador de Rebanhos:
de índole pacífica;
sereno;
sossegado;
que não faz barulho;
domesticado;
cultivado (terreno);
tipo;
espertalhão;
matulão.
Tenho-o dito. Acham que é por sedução, leveza de espírito:
- A carne é fraca. E a culpa é da minha vontade. ‘Pessoalmente, se me visse obrigado a persignar-me, trataria de o fazer como deve ser, base do nariz, umbigo, mamilo esquerdo, mamilo direito.’ O que vale é que tudo está no tempo certo e eu não preciso de persignar-me.
E dobram-se meses como não se dormem noites. E passamos dias sem sabermos dos meses. Quand je parlerai la langue des anges, si je n’ai pas l’amour… tudo o que não sei dizer. Perco os olhos ao verificar a estranheza de tantas coisas, de tantos dias, de tantas razões. Este é o meu tempo. Vou atapetá-lo com palavras que nunca foram ditas. E se a planície enjoa pela falta de desafio mais atrai pela calma. O amanhã vai outra vez emaranhar-se. Mas eu terei campos votivos. E há certas músicas que fazem tudo ser tão parecido. A cara enche-se de encorrilhas. Afinal com o que é que sonhaste esta noite? Ninguém faz de um pinheiro um sobreiro.