Arquivo para Dezembro, 2008

Propósitos

29 Dezembro, 2008

Quero que doa menos.

Gostava que o Janeiro fosse veloz. O Fevereiro eficaz. E que todos os outros desde o’ Março fossem sossegados. Saborear o ar. Saborear o verde. Saborear o bege.

- Sentir o corpo retomar às formas principais.  A minha alma podre a consumir-se numa coisa nova até dela já nada mais restar.

Fortalecer a rede

que me segura de todas as vezes que caío do trapézio e

abro os braços para

voar.

Perceber que só essa urdidura me chega e não lhe acrescentar

mais trama,

nem nó,

nem passadiço.

É segura. E pode viver-se entre três rios.

(Neste posso banhar-me.)

Ter coragem para avançar e coragem para desistir. Ter inocência e sabedoria. Ter coração para sentir e alma para lamentar. Ter braços para abraçar e que não me custem as pernas quando me espreguiçar. Ter coragem para despertar. E céu para gritar.

(E que tudo isto te baste.

E que tudo isto te baste.

E que tudo isto te baste.

E que tudo isto te baste.)

Ter nas duas mãos

28 Dezembro, 2008

 

Tenho muitos corpos e braços e beijos e colos e mimos.  Tenho uma família onde nasci que é enorme. Que está comigo quando estou a progredir num orgulho incomensurável. A minha família está comigo quando estou a aninhar, – aninham-se comigo para me poderem levantar. Tenho amigos em que reaprendo a acreditar. Que me deixam ser eu, não me julgam, não me temem e não abdicam de mim. Tenho crianças que ajudo a crescer numa cumplicidade imensa. Tenho colegas que me apreciam. Tenho companheiros de jantares, de copos, de cinema, de teatro, de museus, de viagens, de festas, de casamentos, de casa, de cama.

Tenho toda esta gente e sinto um vazio de não ter o que tinha. O que apesar de tudo queria. ‘Ninguém diga que é desgraça não ter o que se não tem’.

(Nem sempre vos sou fiel, nem sempre vos mimo, nem sempre me lembro.)

Sou um ser demasiado imperfeito para tamanha gente.

Baixas e novidades

27 Dezembro, 2008

É sempre Natal. Não importa quem está, quem não estará mais, quem só não vem este ano, quem se inaugura. É sempre Natal.

No meu sapatinho

24 Dezembro, 2008

Querido menino Jesus,

Tenho um presente que queria no meu sapatinho. Podia ter outro, mas tenho este.  

Os homens que existem em mim são unidos por um todo de bicho que são. Aquela eterna criança que fica e aparece despropositadamente. Desconcerta-me. Gosto de ouvir os homens falarem sobre ‘nós, os  homens’. Transporta-me.

Mas gosto de homens que fazem a barba. De homens que deixam crescer a barba também e depois a coçam com os quatro dedos da mão e ficam com aquele ar de bicho. Gosto das gargalhadas dos homens. São altas e fortes e simples. Estremecem-me. Gosto do grave da voz dos homens. E que me digam coisas únicas e sentidas. E que me mordam a orelha em segredos. Excitam-me. Gosto do sexo dos homens. Entusiasma-se. Gosto de me apaixonar por homens que se apaixonam por mim.

Podias pôr-me vários no sapatinho, um só dá demasiado trabalho.

(Parece que o problema das mulheres é sempre o primeiro homem, o que as fez. Parece. Parece que pode não ser um problema, pode ser só uma maneira.)

Letra I

22 Dezembro, 2008

A realidade nunca é como a pensamos. Nunca existe só uma história. Ele era espanhol e procurava companhia. Chegou com uma cadela que se atirou para as minhas pernas. Tinha uma cerveja num copo e várias no bucho. Sentou-se enquanto me perguntava se podia. Não consigo ser indelicada com as pessoas que avançam desta maneira. Estava mergulhada em papéis, a ler e escrever coisas que queria como certas. Estava vestida de azul, bebia café e fumava cigarros. Gostei da cadela. Deixei-o fazer-me as perguntas do costume. Para este espanhol que procurava companhia, eu sou uma mulher audaz: estou em cafés porque viajo sozinha, vestida de azul, escrevo notas longas num bloco e vivo em Israel. Não foi mentira minha, foi só um equívoco, uma má percepção que não quis corrigir. Os olhos dele encheram-se de brilho e de inveja. Não lhe podia retirar isso. Olhar para mim de fora com aqueles olhos deu-me uma outra dimensão. Parecia de facto outra de mim.

Gosto, primeira pessoa do presente indicativo. Singular.

20 Dezembro, 2008

 

Fazer o que estou prestes a fazer é singular e único. É um enaltecimento da realidade. É difícil fazê-lo bem, muito difícil. Gosto mesmo muito de poder fazer o que estou prestes a fazer.

Pensei alguma coisa sobre isso. Antecipei o possível. Procurei responder às minhas perguntas: o que conto, como o conto, para que o conto.  Hoje começo a contar.

(notas pessoais)

17 Dezembro, 2008

Presença.

Queres saber?, Não queres, eu sei, não me perguntaste nada. Continuo com coisas para te dizer. Sinto a falta das nossas conversas avulsas. Sinto a falta dos nossos pensamentos partilhados em construções e linhas tortas. Queria falar contigo sobre comboios. Não é um disparate, é uma junção de carros atrelados que circulam na mesma direcção com a mesma velocidade. Da viagem. 

Saber coisas de ti. Mais histórias que só tu sabes. Saber se te importa, o que te importa, o que é a brincar, o que é sério. A pergunta e não, não vais morrer antes dela, que isso não te inquiete.
Saber se te importo. Soubeste mais alguma coisa de mim? 
Queria saber várias coisas. Muitas coisas. Estranho a tua ausência. Estranho a tua presença.    
Sinto a tua falta. É só carência, espero. Isto passa. Se ao menos me chamasses bicho.

Ridículo

17 Dezembro, 2008

Estou no capítulo das respostas. Naquele livro que estou a escrever de auto-ajuda.  A universal: apanhar ar. Apre. Resolve imensas coisas.

Meditações Introspectivas

16 Dezembro, 2008

Estou farta de mim. Pareço um equívoco caligráfico. Se me adjectivasse agora seria com tamanha violência! Falta-me uma convergência de sentidos. Que necessidade de tanto?!

- Notas pessoais que se fazem públicas

15 Dezembro, 2008

Controlo de Navegação:

Não existe nenhum sistema democrático neste blog. Eu mando qual ditadora da América Latrina com um enorme ego. Apago e censuro tudo o que me parecer bem. É lamentável, mas é assim mesmo e o meu lápis funciona.

O meu nome

15 Dezembro, 2008

Alcunhas –  cameiras, beijoucas e melros. Isto quer dizer tanto. Nunca mais tive alcunhas. Não tenho uma alcunha minha. Ninguém consegue dizer outra coisa de mim que não o meu nome. Os meus diminutivos proliferam. Um nem sequer diz nada sobre o meu nome. É  sobre uma história de mim partilhada naquele nome que gosto de ser chamada. Tenho um que só uma mulher de muita idade me chama. Sou aquele único nome em alguns dias do ano, nos dias em que ela me vai dar um enorme abraço num estrangulamento que não consigo quebrar. Tenho as variantes do diminutivo infantil, de quando era uma menina e usava o cabelo preso.  A frequência sonora dos meus tem uma determinada instância em mim. 

O meu nome é reutilizado por mim. O meu primeiro nome próprio, o meu segundo nome próprio, o meu nome de família da mãe e o meu nome de família do pai. 

Margaret lê-se em português e não é dado a alterações.

La chute

14 Dezembro, 2008

Por vezes leva muito tempo.

Não sou dona de mim

14 Dezembro, 2008

Não sou alugada mas também não sou proprietária. 

- Olá.

- Olá.

Estávamos no meio de uma escada. Era mais uma escadaria, mas muito larga e de madeira, mas industrial. Não era próximo. A escada tem muitos degraus que se sobem sempre na diagonal, ninguém sobe aquelas escadas a direito. 

- Estás bem?

- … Sim. Não me dás um beijo? Dá-me um beijo.

Saiu-me. Exactamente assim, com surpresa e indignação. Estávamos no meio de uma escada. Eu parada, ele em movimento. Subia, mas isso era um acaso. Deu-me o beijo. Apertou-me um braço. Deu-me um beijo e não fez esforço para me dar o beijo. Mas mesmo assim, mesmo assim,

- Não me dás um beijo? Dá-me um beijo.

Ainda bem. Não, não é bem isto que quero dizer. Eu percebi que havia um vento gelado na cara. Eu sabia do pássaro ao ombro. Não quero o é assim. Mete-me nojo. Como ao meu corpo gordo, tão gordo.

De quando em vez

13 Dezembro, 2008

Ando de baloiço e canto cantigas. Vou para cá e para lá tentando sempre chegar mais alto naquela balanço das pernas que se esticam com o corpo estendido e que se encolhem com o corpo dobrado. Gosto muito de baloiços, fazem-me cócegas na barriga e posso olhar o céu e não ver mais nada.

Ando aos saltinhos na rua. Dou pequenos passinhos descompensados. Imito as corridinhas dos outros e deixo que me imitem a mim. Gosto de andar aos pulinhos na rua, de inventar novas formas de andar.

Ando de carro a ouvir música muito alta. Tão alta que não me oiço a mim a gritar sobre a música. Ando em velociadde e só vejo como evitar os obstáculos. Gosto da velocidade dos carros e de estar assim segura no meu volante enquanto me distraio com a música que toca.

De quando em vez é bom andar.

Brincar

12 Dezembro, 2008

Morro por um bocadinho, de vez em quando. Eu tenho as minhas pernas e ando. Mas morro por um bocadinho, de vez em quando.

Nada

10 Dezembro, 2008

(é só mais água)

Continuo a não compreender esta existência cheia de aflição. Não posso sequer usar uma medida porque não existe razão. Tanto cuidado.

Preciso de água. Preciso da chuva que tarda e por isso o vento. Preciso do mar no corpo todo. Preciso do meu lugar secreto na escada a olhar o rio de ouro. Preciso de um jorro fértil no peito. Preciso da neblina na ponte. Preciso de lavar os pecados.

Preciso da água num esmero doce e verde e opaca e meiga no mergulho. Preciso da água anilada pela luz numa gruta às escondidas. Preciso da água baça e turva e lamacenta dos rios que me correm pelas veias. Preciso da água branca de puro cristal nas pontes e casas e ruas. Preciso da água da cor do absinto em que me atiro de peito. Preciso da água fria e cinzenta e forte e segura de toda a água do céu na minha cara.

E eu quero saber a mesma coisa. Eu quero saber como é que vai acabar.

‘I have no pride

I have no shame

You gotta make it rain

Make it rain!’

Intransmissível

9 Dezembro, 2008

Maldito! Se tivesse tido um filho teu um dia, tirava-to. 

Canalha! Fazia-te doer. Fazia-te doer muito, a doer-me a mim.

Estupor! Dava-te essa mágoa para toda a tua vida já não minha vida.

Verme! Haverias de estar sempre subjugado por ti.

Miserável! 

Não me és nada.

Jusqu’ici tout vas bien, jusqu’ici tout vas bien. L’important c’est pas la chute, c’est l’atterrissage

9 Dezembro, 2008

Um balanço errado de um membro e já está o corpo todo a deitar-se ao chão. Não pousou as mãos no chão. Caiu apenas com as pernas e ficou sentado com as pernas moles, os joelhos dobrados e as coxas  debaixo do corpo inclinadas para o lado. Aquela posição fazia-o mais gordo, anafado mesmo. Pousou as mãos no chão depois de cair, como se fosse um ajuste ao embate. De nada lhe valeram as duas mãos já. As calças estavam roçadas no joelho direito. O casaco não sofreu danos. Levantou-se. Antes olhou para os que o viram cair. Sorriu. Sorriu mais e começou com um riso convulso que lhe chocalhava o corpo todo assim esparramado no chão. Recusou as mãos que se aproximaram e levantou-se. Baixou o tronco e sacudiu as calças. Endireitou o casaco, apertou com mais força o cachecol, entesou o dorso e continuou. Até à próxima queda.

E se eu gostar de cair? De não controlar o movimento?

Metafísica

9 Dezembro, 2008

Lambo sempre os meus braços quando tenho sal no corpo. Fico com o sal na boca. Passo a língua sobre os lábios, primeiro no lábio superior e depois no inferior que mordo do lado direito. Devoro os meus braços com a boca aberta e a língua a sorver o sabor do sal. Crio saliva para consumir o meu corpo. É sempre e apenas nos meus braços. A língua torna-se mais ávida com o sal nos corpos dos outros. Fico numa existência cheia quando tenho a boca cheia de sal.

Leitmotiv

7 Dezembro, 2008

Hoje soube-me a tanto, hoje soube-me a tanto, hoje soube-me a tanto, hoje soube-me a tanto, e portanto, hoje soube-me a pouco. (- Estou deitado em frente aos correios e faço bolinhas com saliva.)

Não havia comboio, não havia nada. (Nem horas, nem minutos, nem segundos. - O que é que és capaz de deixar em cinco segundos?) Agitados. Estavam agitados. Seguravam-se pelas mãos. (Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
 escancaraste a porta do bar.
Trazias o cabelo aos ombros 
passeando de cá para lá,
como as ondas do mar: Conheço tão bem esses olhos. Nunca me enganam.)

- O que é que aconteceu? Diz lá.

(-
É que hoje fiz um amigo
 e coisa mais preciosa no mundo não há.

- Estão a pensar o mesmo que eu?

- Deixa-te disso. Não penses nisso).

- Não, não penses nisso.

- Onde estavam exactamente? Quer dizer, vejo as janelas, a montra e a ocasião. Era a oportunidade. Era uma oportunidade? Mas e que mais?

- Com um brilhozinho nos olhos,
metemos o carro
 muito à frente, muito à frente dos bois.


- Ou seja fizeram promessas,
 trocaram retratos, 
traçaram projectos a dois.

(- Trocámos de roupa, trocámos de corpo.)

- Obrigada pela roupa de um dia, pela mão-dada, pelo teu desmedido corpo. Obrigada pelo chocolate.