António, tivesse eu o talento disto que sinto com o corpo, – enquanto ouvimos esta chuva a cair que Deus a dá lá fora, – que eu tenho o corpo a pedir chuva. E antes dizer-to a ti, antes dizer-to a ti. Há muito tempo que não apanhamos a chuva. Que caía água do céu. Que nos caía em abundância. Quero falar contigo da chuva.
Arquivo para Novembro, 2008
(notas pessoais)
29 Novembro, 2008Quando eu digo uma coisa quero dizer:
28 Novembro, 2008
dizer
do Lat. dicere
v. tr.,
expor, enunciar, exprimir por palavras;
proferir;
discursar;
recitar, declamar;
mandar, ordenar;
rezar;
mostrar, indicar;
referir, narrar;
dar a conhecer, apregoar;
apontar, censurar;
supor, imaginar;
afirmar, asseverar;
estar inclinado a crer, ter opinião, parecer;
chamar, denominar;
aconselhar, persuadir;
v. int.,
falar, ter conformidade com;
condizer, quadrar;
v. refl.,
chamar-se, reputar-se;
fazer-se passar por;
alegar;
contar;
s. m.,
maneira de dizer, dito;
expressão;
estilo.
Não há nada a fazer. E eu não estou a exclamar.
(notas pessoais)
28 Novembro, 2008Não há nada a fazer, mas vou tentar guardar-te assim, aninhado – quente e terno, tão brando e belo. Tão sadio.
Ar
28 Novembro, 2008Eu, e quando digo eu transporto-me para a fisicalidade, existo neste momento em que me determino a dizer, é agora mesmo que respiro. Dizem que eu sou teimosa, persistente, um animal. Eu? Eu assobio no escuro e canto baixinho para ninguém ouvir. Eu tenho um temperamento impulsivo, uma predisposição para sentir coisas de uma forma avassaladora e sou caprichosa. Visto-me maioritariamente de preto, gosto de tacões e de fazer barulho quando ando, de ter a casa quente, de castanhas, lareiras e romãs. Nasci no Outono e não há nada a fazer.
Vento
27 Novembro, 2008‘Acho que o vento sopra sempre mais na cara dos pobres. O único que têm é o ar que respiram’. Está vento.
Vómito
27 Novembro, 2008tu?
27 Novembro, 2008‘Onde é que tu já ias se eu não te chamasse?’
(tenho uma cor também. É a cor do sangue. Sabes aquela cor grossa, espessa, que não escorre, sai em golfadas?)
Ridículo
26 Novembro, 2008
Estou a escever um livro de auto-ajuda baseado numa teoria cósmica: o pó de que todos somos feitos, o som mineral da terra, que se ouve melhor de noite. A minha noite cheia de estrelas é escura.
(o mal que tu me fazes).
São os homens que nos fazem
25 Novembro, 2008filigranas. Quando me referir a mim mesma como pequena vou lembrar-me das curtíssimas folhas labiadas em pormenor tão miúdo.
Branco
25 Novembro, 2008O defeito do génio plaqueia-me. “Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir.” Despertares? Tenho-os de vários tipos. Raramente são um entusiasmo.
Rangem
25 Novembro, 2008Vejo-me com uma faca amolada de fio grande e feita de uma liga que penetra sem dúvida e se retira sem medo.
Disposição com a gula
24 Novembro, 2008Bocas que se abrem para enormidades. Bocas que se exercitam num esgar rápido. Bocas que se esticam e sorvem com velocidade. Bocas que se agitam com volúpia e brilham sempre humedecidas. Bocas indiferentes que ligeiramente acedem ao movimento mecânico do metal que se aproxima. Bocas vorazes. Bocas que se inauguram com regozijo. Bocas descerradas à força que ficam constrangidas naquele movimento. Bocas que estremecem de antecipação.
É preciso ter delicadeza para não estar sempre de dentes cerrados.
Míudos de frango
23 Novembro, 2008Só preciso que continuem a querer comer-me o corpo. Tenho que pensar mais vezes com o estômago.
Curtíssimas
22 Novembro, 2008As folhas labiadas em pormenor tão miúdo.
mania dos dicionários
22 Novembro, 2008adj.,
que tem pouco comprimento ou pouca duração;
breve;
rápido;
conciso, resumido;
insuficiente;
tacanho, acanhado, bronco.
Isto são coisas
21 Novembro, 2008E quando eu me canso, abro a janela.
Extenua-me esta coisa de ter cá dentro a imperatriz morte. Soberana, altiva, clara.
Tenho paredes demasiado alvas e uma casa demasiado bonita.
Agasta-me a torpeza da eventual falha.
Tenho um gato que é gato de outro gato.
De tanto mar ver é o azul que me transtorna.
Estou sentada sobre o meu próprio teatro. Estreo-me por estes dias.
Vi demasiadas gaivotas a planar à minha altura.
O trabalho que desempenho é árduo e eu trabalho, mas parece que tenho pernas curtas.
Sou uma pessoa que circula pelas ruas
20 Novembro, 2008Neste andamento que levo, lento apesar de num plano inclinado, até a mim me faz uma impressão ténue na pele, mas que sei eu da minha pele que já foi pele de outra pele. A destruição impõe-se, extenua-me. Não sei falar do conjunto que me empurra, não sei dizer o que tento não ver quando fecho os olhos. Só quero ocupar lugares vazios. É tão simples quanto isto.
Pronome pessoal
20 Novembro, 2008Designação, nomeação, relação, significação, referente, respeitante, relativo, particular, específico, nomeável, concreto, físico, metafísico, irrisório, volátil, instável, andante.
Dias e inícios de dias
19 Novembro, 2008É a queda que não importa. Tombar não diz nada sobre nada.
- Posso esfregar-me?…
- Esfrega-te em mim…
Paro quando morrer
18 Novembro, 2008As palavras assim escritas são mais duras. Ler alguma coisa sobre alguém pode ser uma devassa. Recuso-me a parar de sentir. Continuo a dar a minha vida inteira todos os dias.