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12 Novembro, 2009

Matas-me. É urgente rever-te.


Levantando o joelho

9 Novembro, 2009

É de um romance que se fala. A força desta permanência transforma-a numa raridade. A constância do amanhecer, ainda é cedo, dizes-me, a manhã ainda volta.

Justifica-se em absoluto a pontuação. Neste momento eu sei o que é uma forma, como usar essa forma. Então, diz-me, – Na varanda, à chuva, ou ao sol? - Preciso de uma imagem para isto. Já sei, é o enquanto. (É demasiado prometedor isso, demasiado.) Suporto melhor a água do Porto.


Ridículo

6 Novembro, 2009

É não saber a sua idade. Convença-se de que a partir dos quarenta ou cú ou cara, escolha a que lhe traz mais lucros, benefícios, de onde tira mais vantagens e falsifique o bilhete de identidade. Algumas coisas só ao próprio dizem respeito.

(No capítulo físico do livrinho de auto-ajuda.)


Impossibilidade

4 Novembro, 2009

Estava com o Jorge Luis Borges na praia. Ele estava sentado na esplanada com colete e casaco postos. Eu vinha do banho, um mar estranho que se abria em dois bocados que às vezes as ondas enormes fechavam. O céu era de chumbo, ma ao mesmo tempo tinha uma cor de fogo que saía em raios suaves em direcção ao mar. Havia vários grupos de ciganos agrupados em círculos com roupas muito garridas. Era um grande areal com fogueiras monumentais e algumas ruínas de moinhos, os grandes blocos de pedra granítica negra do fogo. Os ciganos cantavam e batiam palmas flamencas. Passei na esplanada e parei em frente dele. Sorri e ele sorriu. Perguntou-me “És espanhola?”, respondi-lhe que não, que era daqui, ele sorriu, “são um povo muito culto”. Não concordei, mas senti-me bem com a resposta. Disse-lhe, com a coragem de falar dos sonhos, que gostava que esperasse para me dedicar todos os livros que tenho espalhados em casa, e para conversarmos sobre eles. Expliquei-lhe que não queria falar sobre ele, mas sobre os livros que escreveu. Sorriu e disse “a vida não aguentaria a minha espera.” Fomos embora os dois passo a passo. Eu entrei na minha casa espanhola, ele continuou pelo passeio fora. Na minha casa estava no quarto em triângulo que tinha uma cama num canto. Por baixo da cama um tapete vermelho muito peludo, vermelho sangue, com os fios da lã a fazerem padrões ora à direita, ora à esquerda o que dava à cama um ar de triângulo também. Era um quarto alto, muito claro, com janelas enormes no topo. Havia duas escadas no quarto, que foram habilmente decoradas com panos em transparências. Uma levava à casa-de-banho, a outra a outro quarto com três camas suspensas. Espreitei pela janela e vi que chegavam. As mulheres que fumam vinham com os sorrisos enormes, garrafas nas mãos e sacos com comidas. Desci e ao descer tinha um bebé nos braços. Um bebé lindo, tão sereno a dormir num encaixe perfeito entre o meu braço direito onde tinha a cabeça pousada e o meu corpo onde o corpo quente respirava. Olhei para o bebé e pensei, “é meu este bebé. É lindo.” Quando sonhamos não sabemos o fim dos sonhos. Pela casa entraram as mulheres e ciganos, outra vez ciganos sorridentes e coloridos, elas de cabelos e saias compridas, eles em tronco nú ou em colete e cabelo puxados para trás com gel brilhante. Foram para a cozinha e cantavam. Nunca cheguei a ver a sala. Sentei-me a olhar para o bebé que continuava num dormir tão quedo. Olhava o bebé a não acreditar naquele bebé, mesmo que em sonhos. Um sonho onde era para mim menos fantasioso falar com o Borges do que ter um bebé nos braços.


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2 Novembro, 2009

Não és mais podre. Nem menos puro. Nem a excepção. Nem o dúbio. És até um consolo. Um vai e vem a crescer e a ser arrancado.

       O mais doce será o teu olhar.

Não interessam os pensamentos. Nem recuar o corpo, - é amargo, um punho feroz no estômago -, uma ridícula memória. Um dia ou uma noite, os dentes e a saliva num deficiente batimento cardíaco. Ter o céu e a boca do inferno numa mudez, que é até o melhor, num ódio que já nem ódio é, nem para nada serve, só nos gela mais longe o horizonte.

      Chamar-lhe-ei outra coisa um dia. Talvez a menina seja loira e tenha a pele clara.

Não há fuga para o gás largado. O peso da cabeça num abandono do ar. Sem assinatura. Sem carimbo. Sem memória. Sem início. Sem fim particular.

(data)


Ritornello

30 Outubro, 2009

A vergonha do passo saltitante.

A timidez pelo barulho dos pés no caminho.

O pau ou a corda que lhe servem de apoio.

O medo das penas das aves que se comem.

A ruptura das águas nos diques.

O tempo como objecto amarelo.

(A inofensiva ausência da música para repercutir o sentimento.)


O Velho Homem de Capacete

26 Outubro, 2009

Estava deitada sem saber que horas eram. Os roncos dos carros eram iguais ao de sempre. A porta do prédio raramente range. Estava deitada a pensar porque teria eu imaginado o meu padrinho, – de camisa azul clarinho -, sentado numa longa mesa de madeira, a conversar alegremente enquanto comia com apetite. O meu padrinho e a mão dele cheia de artroses por causa do andebol. Ele de calções brancos e ar atlético naquelas fotografias de cor amarelada num pavilhão qualquer da Invicta. Ele que era o oposto dos homens de toda aquela geração, que cozinhava as refeições, que praticava desporto sem serem as eternas Lerpas à sexta-feira à noite em que os miúdos, eu também lá no meio, brincavam ao 1,2,3, diga lá outra vez. E de vez em quando às escondidinhas e depois aos médicos. Mas isso foi mais tarde, quando alguns miúdos já não eram miúdos e estavam a estudar fora da cidade. Éramos muitos, eles também e nessa altura o meu padrinho ainda comia. E chamava-me mal-vestida, sempre mal-vestida. E eu zangava-me sempre, à chegada e à partida. Zangava-me e ele ficava a rir-se muito no alto da escada enquanto eu subia ou descia. Agora diz-me que estou bonita, que sempre fui bonita e eu sinto falta de o ouvir chamar-me mal-vestida. O meu padrinho na mesa de madeira envernizada, não novo, mas mais novo porque estava mais gordo do que agora que tem a cara encovada e os olhos tristes. Não estava de certo a minha madrinha por perto porque ele estava bem disposto, a rir e a comer com apetite. Ele que passou toda a vida zangado com ela. Ela que se ria disso. Que continua a rir-se disso e agora já diz “se ele deixar de me de me descompor é mau sinal”. E eu concordo com ela. O meu padrinho que eu não ouvia mas que sei que estaria a dizer algo irónico, ou a comentar um facto qualquer de política que tanto o diverte e aborrece ao mesmo tempo. Foi a primeira pessoa que me fez perceber a ironia. E a fantasia que nem sempre é mentirosa, a fantasia do avô  retratado no quadro de capacete metálico e de outro século. A cópia de “O baile de Moulin de la Galette”, de Renoir, faziam-me contar-lhe histórias, ou ele a mim. Ele que tinha pássaros na varanda e que assobiava como eles. E que me deu um gato preto que cresceu e cresceu até se tornar no maior gato que até hoje já vi. Que me dá prendas na Páscoa como quando era menina. E eu dou-lhe flores no Domingo de Ramos. E quase nunca vejo agora. Nem nunca mais comi a sua comida. Nem me sentei mais ao seu colo. Então estava eu deitada a pensar no meu padrinho mais jovem, a comer com apetite vestido com uma camisa azul clarinho.


Anjos e Gigantes

22 Outubro, 2009

Vejo a luta entre seres fantasiosos: querubins, cupidos, anjos azuis, gigantes do pé de feijão, gigantes barbudos que comem com as mãos e moram nas nuvens ou em terras muito longe daqui. O gigante nem sempre é mau, mas quase sempre. O anjo nem sempre é bom, mas quase sempre. O anjo e o gigante às vezes riem-se. O gigante quando se ri fica um bom gigante. O anjo quando se ri fica um mau anjo. O anjo e o gigante. Os seres fantasiosos a que recorro.

E os pássaros que são seres reais mas voam. Como pode um ser real voar?

E a saia é de que cor? A saia do anjo é de que cor? A tua saia de gigante é de que tecido? Os troncos estão nús, sempre nús. Alguns anjos têm cabelos compridos que encobrem os torsos.  O vento não é capaz de os descobrir. Alguns gigantes têm os cabelos tão encrespados que o vento não os move. Vejo bichos brancos nos cabelos emaranhados e sujos deles.

Quando chove os anjos abrem o peito. Levantam a cabeça e flutuam pelo ar. Quando chove os gigantes fecham os ombros. Baixam a cabeça e pesam na terra. Não querem nada em troca quando chove. O anjo não quer nada. O gigante não quer nada.

E os bichos que estão predestinados à profundeza da terra. Como pode um ser real estar tão abaixo do solo?


A dizer-te a ti que estás tão longe de mim

21 Outubro, 2009

Fiz a estrada inúmeras vezes. Com o sol e a lua em todas a posições do céu e nunca tinha parado para molhar com urina aquela terra. Ontem parei. Raras as vontades.

O céu pelas nove e muitos dessa noite, o céu naquela paisagem, naquela terra que hoje se abriu à primeira chuva de Inverno. Choveu copiosamente toda a manhã, o cheiro que será mais fraco que o da terra vermelha, mas que embriaga. O som da água que de mim saía na terra que a absorvia. Depois de me cobrir de novo, de me endireitar, olhei defenitivamente o céu. E gritei. Gritei uns gritos graves e profundos. Vários gritos. Não eram gritos de desespero, eram gritos de consciência espacial. Aquela terra aberta, com a negritude das árvores, o céu escuro e cheio de buracos brilhantes, – contei dois aviões, a casinha de brincar ao meu lado. O carro desligado, nenhum ruído. Nenhum cão me respondeu. Nenhuma ave se assustou. Nenhum insecto se aproximou. Satisfeitas as minhas necessidades virei o pé direito, depois o esquerdo e cheguei aqui. A rua é de novo a rua. A casa é de novo a casa. E chove também. Chove como quando temos medo.

- Quando tiver medo, muito medo, afoga-me. Agarra a minha cabeça e mergulha-a na água. Não a largues, não te comovas. Afoga-me.


Sem apelo nem agravo

19 Outubro, 2009

Não só arrancava cada uma das suas órbitas, como lhe removia todos os esfíncteres em golpes incertos e imperfeitos.


Ridículo

17 Outubro, 2009

É não aproveitar o intervalo, deixá-lo sem qualquer utilidade. E precisar de um jardineiro. A terra trabalha-se, assim como nos intervalos. 

(Notas de pesquisa para o livrinho de auto-ajuda.)


Outra vez?!…

15 Outubro, 2009

- Mas é sempre? Não pode haver nenhuma altura em que isso não aconteça?

- Mas julgas que eu gosto? Que faço por querer?

- Mas se não gostas como é que é possível?

- Mas queres que eu te explique como? Aconteceu…

- Sempre?! Acontece sempre?!

- Ainda nem aprendi a remediar isto, claro que acontece sempre!

- Sempre?!


Acompanhamento?

15 Outubro, 2009

Refresco. Uns dentes saudáveis. Uma boca rubra. Um fruto carnudo.

Restolho. Um caracol adulto. Um enrolado lento. Uma folha seca.

Brisa. Uma janela.


Numa lenta vontade de vida

13 Outubro, 2009

Ontem uma noite como não me lembrava: o corpo com um peso desumano, equilibrado sobre o colchão, sereno.  O frio molhado na almofada e as palavras em rol ali retidas. Umas paredes moucas. Um corpo ferozmente pousado. Os pés quentes. O respirar seguro. Quebro-me mal possa quebrar-me. O corpo cansado. Finalmente cansado. Tudo me sabe já a final. Amargo gosto. Sem asas, nem guelras. Como um guarda-nocturno se protege da humidade do ar. Poder agora encontrar a cova e deixar de questionar: o que tens feito por ti ultimamente? O que tens feito por ti ultimamente?

Fecha o olhos. Sente o peso do corpo a entrincheirar-se na cama. Espera pelo grupo de cães que em breve te vai rodear. Daqui a nada perdes os braços. Depois as pernas. E depois deixas de gritar.


(notas pessoais)

10 Outubro, 2009

O alterado e concebido. O dia inteiro derramado nos passeios. O som de todo o dia acabrunhado debaixo dos meus pés. A cor do dia ali esponjada nas ruas. As palavras todas ali guardadas para o meu peso. Os nomes de todas aquelas ruas. Nada para além das minhas trágicas mãos. Desesperadas a tremer pela distância entre o dia ali e as mãos pesadas. A enfrentarem os nomes das ruas mortificadas pelo que foram. Enquanto todos olham o céu, o sol a ir abaixo.  A costa uma imensidão de lonjura onde as crianças choram sem que ninguém as oiça. Ninguém interrompe essas ruas. 

 

Red old fox. 

 

She can’t hear so well 

Shivering like this she can’t hear so well the night that comes.

If only for this night another old fox was there

just waiting for the night that comes.

Where did all old foxes gone?

What was the day i became the only old fox?

Shivering not for the cruel wings of the white wind

Shivering like an old fox.


Abracadabra

10 Outubro, 2009

Quando se abrem portas [e vê-mos o que está lá dentro]… e se fecham essas portas, a que velocidade se fecham? E reabrem-se essas portas?

- Ficamos encostados à porta ofegando? Ficamos a vigiar a porta estrangulando o respirar?

 

E se se escancarancam logo a seguir as portas? E se se fecham espiolhando? E se se abrem com prudência? E se se espreita na direcção certa? E se aguardamos que a porta se abra? Como queremos que abram a porta? E estamos como enquanto esperamos? E quanto tempo nos dura a esperança? 

E se não se abrem portas? E se não as quisermos reabrir? Nem esperamos que se abram de novo?


Ridículo

26 Setembro, 2009

Só se fala do que se sabe e só se manda onde se pode, direi eu numa das páginas do livrinho de auto-ajuda que ando a indexar. Talvez acrescente umas notas sobre o falar e sobre o mandar, talvez porque certos assuntos não se discutem a não ser num concreto.


Cena 14b

24 Setembro, 2009

A DO PENETRA é arrastada.

MULHER

Toda a gente merece o perdão!

A DO PENETRA leva nas roupas pedaços de comida que são cuspidos enquanto  uma mão a agarra. Não oferece resistência.

MULHER 2

Sua cadela.

(cospe-lhe)

A DO PENETRA continua a ser arrastada na rua que sobe. Deixa que o corpo siga com o seu peso inteiro, a mão que a puxa vai trocando porque o esforço é muito.

HOMEM

Víbora. Lagarto. Nem para isto és boa! Nem um pingo de humildade se vê na tua cara.

(cospe-lhe)

 


Contigo

22 Setembro, 2009

Eu – Gostas de mim assim?

Tu – Assim como?

Eu – Assim, nesta posição?


Gente

21 Setembro, 2009

Humilde. Que lava a própria roupa e a estende nas cordas. Ficam estendidas sem hierarquias as intimidades coloridas, brancas e escuras. A baloiçarem na altura.

Como eu. Às vezes como eu. Iguais a mim.

“- Porque os pobres também sentem as suas dores.”

“- Mas esquecem-nas depressa diante de um prato de comida.”

Os pobres não me pertencem. Só conheço gente que sente. Sentiu. Riu e chorou. Gente que sonha. As que se arrepiam com a água gelada do mar e não hesitam em banhar-se. As que se entusiasmam com um abraço. Com o céu cheio de estrelas. Com o som das folhas das árvores quando vem vento. Que preparam surpresas. E viagens em conjunto. Que partilham as alegrias e a mesa. Que não temem o toque nem o grito. As que desistem e mudam de sentido. As gentes que se penduram na mesma janela a ver a mesma esquina. “Sentir que não se está sozinho nisto, ainda que se esteja realmente, é o melhor que podemos sentir.”