Realização muito incerta

27 Janeiro, 2012

Trocar o exterior pelo início. Se o início fôr a primeira letra, ou o lugar inícial. O sítio primordial. O da entrada.

E depois não conseguir trocar, mas ainda assim, ainda assim trocar.

O alvo que sai, que esmaga, revolve. E acrescentar uma existência independente, em pontos nervosos e ao mesmo tempo severos.

Resolver assim uma divisão, um quarto fechado, – e não se abrem portas fechadas, que não te preocupes, não abro – e agora, logo ao chegar, escancarado.


Ridículo

26 Janeiro, 2012

De repente, antes que perceba o como, uma pancada seca no retrovisor da direita e plof, lá foi o espelho. E não estou a falar dos sete, ou três, ou nove anos de azar que a sapientíssima sabedoria popular apregoa, estou a falar da falta que aquela pequena reflexão nos faz.

Pessoalmente acho extravagante partir espelhos. Profissionalmente acho afáveis os reflexos.

Mas os reflexos, se pensarmos bem, não nos fazem ir a consultas. Deixarmo-nos deslumbrar por uma imagem é patético. Desistir de um reflexo pode ser desagradável para o objecto.


rascunho

18 Janeiro, 2012

Sem tempo para delongas, metáforas, aforismos: preciso de ganhar dinheiro. Trabalho honesto, com inteligência ou com força. Cheguei àquela altura na vida em que não dá mais para nada, nem sonhos, nem liberdades, nem músicas, nem vinho. No trabalho estará a salvação, ou uma vida mais qualquer coisa.


A inutidade humana Senhor, a inutilidade humana

22 Dezembro, 2011

Não deixes meu Menino que o Homem perca a dignidade. A dignidade de trazer o pão para a mesa. A dignidade de o pagar. Não deixes que o Homem se torne miserável. O miserável que se arrasta em qualquer lugar. Temos os pés, as mãos. Temos o que é preciso para a utilidade vulgar.


O que deves guardar

21 Dezembro, 2011

O que deves guardar são os teus dentes. Tens seis dentes agora. Os caninos começam a aparecer, oito. Os teus primeiros dentes a aparecerem na tua boca. O teu rosto a mudar. Deves guardar os teus dentes. Ter com eles a higiene necessária para os conservares saudáveis. Guarda-os.

O que deves guardar são os teus cabelos e a tua pele. Tratá-los, lavá-los, hidratá-los, cortá-los, –  limita os golpes, mas vais precisar de ver o sangue a correr ao longo da tua vida, saboreá-lo. Não te cortes por preguiça, justiça ou culpa, os golpes dão-se num ímpeto e sem piedade. Quando tudo o mais acabar, na tua cabeça existirão pêlos, na tua carne haverá um escudo.

O que deves guardar é esse monumento concebido por Homens. A tua boca, o teu estômago, os teus pulmões, os teus intestinos, a tua cabeça onde vives tu na tua intimidade. Um animal. Guarda esse animal que chora desde o dia em que nasceu. Senti-te nesse dia como presente. Concretizei-te num corpo frágil e franzino, transparente. Eras tão transparente, meu amor. Segurava-te na palma da minha mão e encostava-te ao meu peito e tu respiravas. Respiravas sobre mim. Um bafo quentinho. O teu coração batia mais depressa do que o meu e eu imaginava-te cansada e não sabia mais como apaziguar essa aflição e então encostava-te no meu peito. E assim ficava.


Até ao fim – várias vezes

18 Dezembro, 2011

Hoje procurei várias vezes o fim. O homem que me persegue na cabeça tem uma imperfeição grosseira na pele, mesmo por baixo do olho esquerdo. Eu perdoo-lhe essa imperfeição escura que, se ele a visse, em menos segundos que os cinco dramáticos últimos que da mesma maneira estão dentro da minha cabeça, desaparecia.

O Homem dentro da minha cabeça
Tem uma força magnética. Atraí sobre si uma vontade de o imortalizar. Reparo que, se o tivesse conhecido no Verão não teria sobre mim o mesmo impacto centrífugo. Revela-se no fim do ano a tal profecia jocosa reservada para todos os que partilham comigo o pecadilho zoológico. Tem os cabelos compridos, um rabicho sem jeito no final da nuca. Mas o Inverno, este glorioso e ameno Inverno, põe-lhe o gorro ou o chapéu de campesino de tweed preto no crânio e ele arrebatou-me.

É

14 Dezembro, 2011

Existem imagens para o futuro?


s.f.f.

4 Dezembro, 2011

Passo a vida a cruzar-me com as antigas fodas dele. Assim mesmo, de uma forma vulgar. – O charme, as conversas, o sempre réptilíneo chamar do sexo nas conversas. – Os homens são um reflexo das mulheres que tiveram porque, se é verdade que são as mulheres que os escolhem, é também verdade que são eles que nos conquistam. Este, em específico, vareia (não é erro, é mesmo à vara que me refiro) bastante nos tipos. Mesmo eu, em nada me assemelho a nenhuma das espécimes que vou conhecendo. Se sou melhor, se sou pior, hei-de ser de tudo, nuns dias mais, noutros dias menos. Porque insite em que as conheça é uma nublosa. Como mantém relações próximas com tantas uma surpresa. A forma como dizem o nome dele é sempre perturbante. Agora, se me maça a comparação? Só a do sexo – espantosa maneira de me reduzir, à cama.


Até quando

26 Outubro, 2011

Pergunto-me. Faço-me a pergunta desesperada de pensar até quando te espero. Chamo o teu nome nas ruas vazias. Nem um som. Nenhum estalar dos ramos. O teu doce pedido matinal. O sofá a correr em fios de alegria sangrenta. Tudo o que era teu me faz falta agora. Os teus lamentos nocturnos se eu não te deixava ficar na cama. Não pensei neste final. Não pensei nisto nunca. Nesta angústia. Neste desamparo. A tua metade aflita. Um ridículo espectáculo na prateleira do nosso quintal. Sentirás tu a falta dos meus beijos nos ossos brancos junto aos teus olhos? Sentirás tu a falta do calor? A fome? O medo? A dor? Sentirás alguma coisa parecida com o que sinto? Não sentes o peso que sinto da morte. Não sentes o início do fim que não sei quando decretar. Não sentirás nada, ou sentes tudo sem saber como sentir. As lágrimas não as tens. Estão todas em mim. Gosto muito de ti. Serás sempre meu. Estejas onde estiveres. Sempre meu. Sempre.


Sim eu sei//Que tudo são recordações//Mas tu foste a mais linda história de amor// Que um dia me aconteceu// E recordar é viver// Só tu e eu

16 Setembro, 2011

Não sei como foi acontecendo o milagre. Não sei como consegui sobreviver a tanta beleza e maravilha. Tanto céu estrelado. Tantos miados na janela molhada. Não sei de onde tem chegado o vinho tinto, ou aquele especialmente gelado branco. Os dias correm. As felicidades acumulam-se. Sim, sim, muitas desgraças foram acontecendo também, mas que nos interessam agora? Que falta nos fazem? Como às letras que se comem, se anulam ou se separam, ao ritmo dos dedos. Sem a revisão, nada.

Aconteceu-me e pronto. Numa escada com cheiro de gato Fenício. Numa viagem de azul, azul. No vento na árvore do meu quintal.

Em Novembro voltará a festa. Em Novembro voltará tudo, mas na verdade foi em Setembro que tudo começou.


Absurdo

28 Julho, 2011

3 – Pardelha.

7 – Rascunho.

9 – Música.

7 – Saia cor de laranja e camisola amarela. Pássaro na gaiola.

3 – Vinho branco.

9 – Maçãs. Frutas em compotas.

3 – Novo.

9 – Pelo contrário.


- Bati numa mulher de oitenta anos

5 Julho, 2011

- E não me orgulho disso.


Vitória

18 Maio, 2011

Se contar, ainda que pelos dedos, tenho mais amigos e camaradas de braços do que dedos.

Um dia mostro-vos as minhas mãos. Um dia poderão ver que cada dedo tem um nome, um defeito grosseiro, uma unha que persistentemente trato, uns ossos irregulares, uma pele que o cobre e que se está a transformar numa pele dura, e como são grandes e fortes.

Na eterna busca da beleza, a que alguns chamam de felicidade, a dúvida denotada de nada nos serve.


Uma coisa velha

21 Abril, 2011

Uma vela comprida e branca na mão. Ao mesmo tempo da boca um ruído musicado e grave. Ritmado. Circular, circular, circular. Das nuvens uns veios de sol como os milagres. Da terra o cheiro da chuva. Na porta, na porta, na porta. Espreme-me o corpo contra a tua boca. Morde-me os mamilos castanhos. Esmaga-me as coxas com a força da tua mão. Lambe-me o ventre. Chama-me, chama-me, chama-me. O ranger das árvores e o estalar das pinhas. Delas sairá o fruto seco e oleoso. Nas raízes os vermes salvadores. A água a roçagar as calças compridas. Fendas capazes de tanto crepitar. Violáceo não azul. Ergue-te agora, ergue-te agora e anda.


Como posso eu explicar-me?

20 Abril, 2011

Não é saudade nem carência, é falta de sumo em tangerinas cheias de sementes e ásperas. Ideias profundamente intrincadas num mapa qualquer entre os mais de quarenta sinais só num braço.

Nunca falo da Cassiopeia, de minaretes e de caleidoscópios. São-me  recorrentes numa qualquer visão ensolarada ou ausente. Nunca falo dos concursos de gemadas, da janela de Cascais, das lágrimas do sul de Inglaterra. Dum tempo submerso entre mais de mil passos, dez mil fôlegos, milhões de pancadas nas pernas negras.

Por cima de mim um espaço. Em cima de mim um espaço. E tão longe e tão novo.

Uma vez dormi com os pés ao contrário e vi um espelho dourado pousado no tecto. Um rapaz tarzan e uma rapariga ouriço. Um homem azul e uma menina lua. Um homem abraço e uma mulher sonho. À flor da pele, olhos nos olhos, dedos tocando os pêlos.

No fundo do mar deve haver algum brilho que me pareça a luz reflectida de tudo o que não vi.


QUETUUUUUM

19 Abril, 2011

Vieram mais cedo este ano.


Se eu estiver a ficar estúpida e

15 Abril, 2011

não fizerem nada quanto a isso serão castigados com uma falta de inteligência maior que a minha.

Se estiver a ficar previsível e domesticada e não me disserem, em menos de nada estarão transformadas em gatas borralheiras cheias de caruncho nas mãos e nos pés.

Se estiver a ficar molengona e não me espetarem alfinetes eu juro que uso os bonequinhos de vodu com as vossas lindas carinhas e espeto-vos eu as alfinetadas para ver se aprendem.


Escrita fina, escrita normal.

11 Abril, 2011

Tenho a menina na ama. A menina tem sempre arranhões. Fumar mata. Agora fumo também cigarros de enrrolar. Tenho a mania de esconder coisas. Não as coisas-coisas, mas coisas de cá de dentro. Gosto de palavrões. Sou obsessiva com pessoas. Ciumenta com quase todos. Sinto-me em ebulição. Penso na centrifugação. Pato rima com nefasto. Ou com nesga. Ou pêra. O ou faz parte de quase tudo. Nada ou ninguém. Uma pessoa me liga aqui e me faz continuar. Quero sapatos novos. Vários sapatos novos. Quero roupas da nova estação. O armário. As estantes. Os livros cheios de pó que tenho que limpar. Os gatos. As alfazemas. Os morangos do Alentejo. O som. O são. Realmente. Realidade.


Bonito ou a apologia do efémero

9 Abril, 2011

Dois e dois, ou o mais e o menos, ou qualquer coisa que nos relembre as matemáticas dos números. Uma carruagem de metro equilibradamente preenchida por sete negros, – ou castanhos como assinalam as crianças, – e sete brancos, – ou rosados como dizem as mesmas crianças (aliás, os livros infantis que decidem que os bonecos são todos arianos deviam rever este estilo, é impossível pintar um boneco da cor humana clara, ou fica amarelo, ou cor-de-rosa).

Os cabelos delas ou sujos ou mesmo bonitos. Não suporto mulheres de cabelos molhados na ciadade e muito menos cabelos porcos.

Um homem onde só os sapatos estavam em desacordo com o resto: convenhamos, todos, que os sapatos de vela são maus e não se fala mais nisso. (Ah sim, comprei sapatos novos, champanhe desta vez para parecer que tenho os pés nús.)

Umas janelas com sofás arranhados, ou vivos.

Umas unhas roídas ou uma pedicure.

Tenho dias em que por um acaso qualquer o sol, mesmo que não esteja a aquecer-me a pele, parece-me sempre mais quente, o mundo mais primaveril, as pessoas mais humanas, as comidas mais saborosas, os cheiros mais suaves.


Pouco e pouco

17 Março, 2011

Ontem um homem muito peculiar comia uma apple strudel (maravilhosa, por sinal, comi-a também a seguir a ele e, também, por causa dele).

Um homem de calças pintalgadas de trabalho, daqueles que são bem recebidos nas drogarias, cortava uma laranja em pedaços pequenos para uma menina.

Um homem com as mãos negras dos óleos dos motores cheira a água de colónia de bebé.

A minha avó está sentada na sala, ladeada pelos gatos, a ver uma das muitas telenovelas. É esta a única altura em que se cala. Às vezes, como já contei, vê televisão de óculos de sol porque lhe parece que vê mais nitidamente.

Queimo micro sopas com frequência, porque estou ao telefone, porque estou a dar o jantar, porque estou a lavar loiça, por tudo e por nada.

Tudo possíveis boas conversas mas para as quais não tenho mais tempo do que estas letras.

 


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