às vezes nem por isso…

11 Dezembro, 2009

‘All men, by nature, lean toward knowledge’ – Aristóteles


Copiosamente

10 Dezembro, 2009

 

A cor de ferrugem espalhei-a nos dedos para que se confundam as mãos.  

Algumas casas transmitem o equilíbrio necessário para largarmos alguma coisa. Têm recantos a preto-e-branco e depois observamos uma margarida amarela num solitário de vidro onde a água tem uma trasnparência cinzenta. (Escarlate mas nem por isso belo o abandono.)

Os elevadores que nos encarceram, as chaves que se esquecem, os cozinhados que se pousam nas mesas. Os inícios numa grande tela, até parece que com gente.

Tenho dito várias coisas. Tenho-as dito como um sopro, ou sem lhes dar importância. Sinto-o como o suspiro que se solta em ti. Ando a contar dias e não sei porque os conto se sei que continuarei a contá-los, durante e depois. Nada disso me importa mais do que os dias que nos faltam.


Ducentésima trigésima sexta carta

9 Dezembro, 2009

“Passagens

Modelos ópticos – 2.4.9

Mas, então, o que volta nessa Passagem? Nem dinastias, nem ídolos dos deuses e dos animais, nem concepções grandiosas do mundo. Não volta absolutamente nada de visível nem de nomeável – e é uma coisa enorme – porque o que regressa é o nada. O que quer dizer, consequentemente: nem imagens nem concepções, mas o conceito na sua nudez, a ingenuidade absoluta. Durante um instante, a porta abre-se em silêncio. Qualquer futuro parece possível – de onde a angústia, a expectativa, as esperanças.

                    Para isso contribuem as grandes depurações e as passagens ao branco. (…)

Esta depuração está ligada à festa e aos seus preparativos – uma imagem decrépita do mundo tem que descer ao abismo antes que uma nova iamgem possa subir das profundidades. São também os tempos dos paioleiros, dos detentores de um poder sem dignidade nem bondade, mas de uma energia imensa e impiedosa. Colossos de cara impudente, são, umas vezes, objectos de medo e considerados monstros, e outras, de veneração e tomados por deuses. Erros de estimativa: não são os seus pés de barro que fazem tremer o mundo.

                  (…) O “Eterno” não é mais do que o sinónimo desse instante.”

Ernst Junger.

(O instante. Lembra-te, “quando tais marés assaltam violentamente o coração, é melhor deixá-las no inexprimido, do que circunscrevê-las em termos categóricos”.)


Ainda nem sequer é meia-noite

4 Dezembro, 2009

Vários homem e várias mulher interpretam esta história que se passa dentro de portas. É um espaço comum e é para todos confortável.

homem - Este ano iniciaremos os brindes por países. Vamos olhar para o mapa-mundi e ver a que horas começa o dia 1 de Janeiro. E começamos aí os brindes.

(Conversas desencontradas e excitadas. Várias pessoas, que se revelerão com ou sem importância ao longo da história estão a partilhar ideias e resultados.)

homem – O primeiro é cedíssimo. O último também. Isto promete. Promete-nos a todos. – E propõe um brinde.

(Algumas pessoas que pareciam com falta de ânimo, em resposta a uma ou duas, iniciam os sorrisos. Todos procuram um copo. Haverá um pequeno zumbido feminino, quase um gritinho.)

mulher – Eu sei de onde isto vem. A ideia. Sei que alguns também se lembraram de coisas boas. Mas eu sei de quem é o móbil.

(Esta mulher é uma sombra ou uma boquilha, uma mulher capaz de romance, ou prometedora disso.)

mulher – Eu proponho que cada um faça um brinde com uma poesia associada a esse país.

(Esta mulher tem lábios vermelho vivos. Está iluminada por baixo.)

mulher – Podemos mesmo fazer mais coisas associadas,

(Esta mulher não tem a voz apagada. Não tem a genialidade, tem a sorte, ou o azar. Olhares.)

mulher – Músicas.

(É a mais rápida de todos. Uma velhaca, a mais feia. A tez dela será acastanhada.)

homem – Para as minhas mulheres que fumam a pergunta é, onde vai ser a meia-noite?

(Este homem não tinha ainda sido notado, a não ser como uma presença, nem incómoda, nem excessiva.)

mulher – Vamos?

(A excitação, a beleza da surpresa. O pacto. O sangue. A causa. Esta mulher representará tudo isso.)

homem – Percebem o que vos digo?

(homem magro. É taciturno mas sorri abertamente.)

Haverá uma toalha verde. Não sei se é repetível.


Ridículo

3 Dezembro, 2009

No capítulo do corpo no livrinho de auto-ajuda irei salientar a fundamental distinção de algumas coisas. Se as pernas são tortas use calças. Se a barriga é mole use camisolas largas. Se a lolita, a Dolores, tem defeito, opere que ballet sem luz não tem graça. Você pode não ser perfeita mas é o uso que lhe dão ao corpo que o tranforma e, convenhamos, que não poder usar a Dolores ninguém merece. O resto disfarce e lembre-se que deitada, com todo o barulho das luzes, mal se nota e os cães não ligam a pernas, só quando as mordem.


Robespierre

2 Dezembro, 2009

 

AAAAAAAAAAAAAAA!

(Oiçam-no como uma erupção.)


Fim da Inocência

28 Novembro, 2009

 

Fim da inocência, disseste tu. Depois ainda acrescentaste, se contas a alguém alguma das coisas que te contei agora, corto-te cada um dos membros por cada coisa que contares.

 

 


Quiproquó

23 Novembro, 2009

O fundo é muito mais claro. Há na realidade vários fundos, ou fundamentações. Branco iluminado a branco. Artificial. Quase o superlativíssimo. Repete-se nas camas, não nos saltos nas camas. Lembro-me que não tenho já lençóis brancos a uso. Vou recuperá-los. O linho é incomparável na cama, só a seda o supera no inverno. De qualquer cor. Mas para isso agora falava desses auto-retratos, ou filmes mesmo, animados. A janela tem vidros velhos. Líquidos. A luz da rua é laranja. As paredes ficam vivas. Os tempos dos saltos são espaciais. Pelo menos para um dos suicidas. Os suicidados de alguma coisa, ou de alguém. Aqui, um interlúdio. Uma cápsula. Um fundo demasiado clínico. O vermelho em vários ângulos. Apetece um certo regresso, o conforto dos castanhos camurça. A família cheia de pêlo. Umas flores no descansa pés. O metálico do cinzeiro e da mesa. As casas perdem os cinzeiros. Há muito tempo que não me doía o pescoço. Percebo cada dor muscular do pescoço. Acabo por abandonar as palavras descritas e fico com elas apenas na minha cabeça, um caleidoscópio delas.


(a)Presente

19 Novembro, 2009

(Voltar, voltar, voltar. O imediato. A enormidade da minha necessidade. Raptem-me, roubem-me, desapareçam-me com esta vontade.)

- Ai, não é com essa idade que aprendes isso. Vais aprendendo a respeitar também, abanando o pano que tem nas mãos a confirmar a espessura do ponto. Não será bem assim, haverá revezes. De certeza absoluta, de certeza absoluta. Não sei se sei o que pensas quando dizes isso. Tudo muda, o que é certo hoje amanhã só se imagina. É por essa incerteza que os teus dias passados te dão o tom com o que o dizes. A sabedoria do tempo que tu mesma receias. Desvia o olhar por uma necessidade de coçar o nariz. Ela notou-o também naquela altura. Da pausa em que se encontram. Do tempo actual e eterno do movimento. O que se passou vai passar para sempre. Ela diz-me, o que já achaste não é exactamente o mesmo que dizes. Tens que prestar atenção à maldade. Não se pode continuar a dobrar as esquinas sem algum receio, ou com uma imensa segurança, porque tens que ser capaz também de dobrar muitas de olhos vendados. Mas não esperes que seja sempre igual. Mas podes acreditar, esperar que se repita, sei lá, e sei que me mexo ao dizer isto, o que está cá, está cá dentro. Não desaparece só porque não cheiras o côco a que costumam cheirar as roupas, isso esqueces, claro que esqueces, mas nem seria possível de outra maneira. Pensa enquanto a ouve a lembrar-se do cheiro do côco na roupa, pensa pensa que se te deitasses e continuasses a lembrar-te do cheiro ainda quente da outra almofada não aguentarias. Mas penso e tenho algumas certezas. E eu sei que não são eternas. Não interessa na verdade. De novo um tempo difuso, não se vê em mais nada, mas um desconforto. É a forma como conduzes a vida. Algumas perguntas que fazes não combinam com as certezas que tens. Diz-me o que queres. O que queres de verdade? O cheiro de alguma coisa? Não se trata de cheirar, nem de comer ou vomitar. Queres respostas? Saber o fim das coisas? E depois o que fazes com esse final? Usas o fim a preto e branco? Nos sapatos? No tamanho da crista? E na cabeça dela as meias. As meias que usa para protegerem os pés do frio. E o pensamento nelas, a sofrer, sentir. Estou sempre a conceber a condução da maldade. Como os números de marcação nas orelhas, ou nos papéis. Mas que me importam os números?! Importam-me sempre os mesmos. São sempre os mesmos olhos azuis. As mesmas sobrancelhas de lobo. O mesmo tom claro da pele. Esfregam a cara. Uma começou primeiro e logo a outra a esfregar também a cara. Apertam os olhos e o rosto com as mãos para cima e para baixo. Esmagam os glóbulos que por momentos as fazem ver tudo negro, e continuam assim, para cima e para baixo. Terminam da mesma forma, apertando as mãos contra a face até ao queixo onde deixam escorrer a palma e depois os dedos abertos.


Epifania

17 Novembro, 2009

Parece que está na moda. Tenho que comprar uma.

 

 


quinta carta

13 Novembro, 2009

 

«A Corrida em Círculos» – I

O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.

É o que está feito,
Perfeito e determinado
É o que principia
No que está acabado.

Ana Hatherly.

P.S. Estou às voltas


.

12 Novembro, 2009

Matas-me. É urgente rever-te.


Levantando o joelho

9 Novembro, 2009

É de um romance que se fala. A força desta permanência transforma-a numa raridade. A constância do amanhecer, ainda é cedo, dizes-me, a manhã ainda volta.

Justifica-se em absoluto a pontuação. Neste momento eu sei o que é uma forma, como usar essa forma. Então, diz-me, – Na varanda, à chuva, ou ao sol? - Preciso de uma imagem para isto. Já sei, é o enquanto. (É demasiado prometedor isso, demasiado.) Suporto melhor a água do Porto.


Ridículo

6 Novembro, 2009

É não saber a sua idade. Convença-se de que a partir dos quarenta ou cú ou cara, escolha a que lhe traz mais lucros, benefícios, de onde tira mais vantagens e falsifique o bilhete de identidade. Algumas coisas só ao próprio dizem respeito.

(No capítulo físico do livrinho de auto-ajuda.)


Impossibilidade

4 Novembro, 2009

Estava com o Jorge Luis Borges na praia. Ele estava sentado na esplanada com colete e casaco postos. Eu vinha do banho, um mar estranho que se abria em dois bocados que às vezes as ondas enormes fechavam. O céu era de chumbo, ma ao mesmo tempo tinha uma cor de fogo que saía em raios suaves em direcção ao mar. Havia vários grupos de ciganos agrupados em círculos com roupas muito garridas. Era um grande areal com fogueiras monumentais e algumas ruínas de moinhos, os grandes blocos de pedra granítica negra do fogo. Os ciganos cantavam e batiam palmas flamencas. Passei na esplanada e parei em frente dele. Sorri e ele sorriu. Perguntou-me “És espanhola?”, respondi-lhe que não, que era daqui, ele sorriu, “são um povo muito culto”. Não concordei, mas senti-me bem com a resposta. Disse-lhe, com a coragem de falar dos sonhos, que gostava que esperasse para me dedicar todos os livros que tenho espalhados em casa, e para conversarmos sobre eles. Expliquei-lhe que não queria falar sobre ele, mas sobre os livros que escreveu. Sorriu e disse “a vida não aguentaria a minha espera.” Fomos embora os dois passo a passo. Eu entrei na minha casa espanhola, ele continuou pelo passeio fora. Na minha casa estava no quarto em triângulo que tinha uma cama num canto. Por baixo da cama um tapete vermelho muito peludo, vermelho sangue, com os fios da lã a fazerem padrões ora à direita, ora à esquerda o que dava à cama um ar de triângulo também. Era um quarto alto, muito claro, com janelas enormes no topo. Havia duas escadas no quarto, que foram habilmente decoradas com panos em transparências. Uma levava à casa-de-banho, a outra a outro quarto com três camas suspensas. Espreitei pela janela e vi que chegavam. As mulheres que fumam vinham com os sorrisos enormes, garrafas nas mãos e sacos com comidas. Desci e ao descer tinha um bebé nos braços. Um bebé lindo, tão sereno a dormir num encaixe perfeito entre o meu braço direito onde tinha a cabeça pousada e o meu corpo onde o corpo quente respirava. Olhei para o bebé e pensei, “é meu este bebé. É lindo.” Quando sonhamos não sabemos o fim dos sonhos. Pela casa entraram as mulheres e ciganos, outra vez ciganos sorridentes e coloridos, elas de cabelos e saias compridas, eles em tronco nú ou em colete e cabelo puxados para trás com gel brilhante. Foram para a cozinha e cantavam. Nunca cheguei a ver a sala. Sentei-me a olhar para o bebé que continuava num dormir tão quedo. Olhava o bebé a não acreditar naquele bebé, mesmo que em sonhos. Um sonho onde era para mim menos fantasioso falar com o Borges do que ter um bebé nos braços.


1147

2 Novembro, 2009

Não és mais podre. Nem menos puro. Nem a excepção. Nem o dúbio. És até um consolo. Um vai e vem a crescer e a ser arrancado.

       O mais doce será o teu olhar.

Não interessam os pensamentos. Nem recuar o corpo, - é amargo, um punho feroz no estômago -, uma ridícula memória. Um dia ou uma noite, os dentes e a saliva num deficiente batimento cardíaco. Ter o céu e a boca do inferno numa mudez, que é até o melhor, num ódio que já nem ódio é, nem para nada serve, só nos gela mais longe o horizonte.

      Chamar-lhe-ei outra coisa um dia. Talvez a menina seja loira e tenha a pele clara.

Não há fuga para o gás largado. O peso da cabeça num abandono do ar. Sem assinatura. Sem carimbo. Sem memória. Sem início. Sem fim particular.

(data)


Ritornello

30 Outubro, 2009

A vergonha do passo saltitante.

A timidez pelo barulho dos pés no caminho.

O pau ou a corda que lhe servem de apoio.

O medo das penas das aves que se comem.

A ruptura das águas nos diques.

O tempo como objecto amarelo.

(A inofensiva ausência da música para repercutir o sentimento.)


O Velho Homem de Capacete

26 Outubro, 2009

Estava deitada sem saber que horas eram. Os roncos dos carros eram iguais ao de sempre. A porta do prédio raramente range. Estava deitada a pensar porque teria eu imaginado o meu padrinho, – de camisa azul clarinho -, sentado numa longa mesa de madeira, a conversar alegremente enquanto comia com apetite. O meu padrinho e a mão dele cheia de artroses por causa do andebol. Ele de calções brancos e ar atlético naquelas fotografias de cor amarelada num pavilhão qualquer da Invicta. Ele que era o oposto dos homens de toda aquela geração, que cozinhava as refeições, que praticava desporto sem serem as eternas Lerpas à sexta-feira à noite em que os miúdos, eu também lá no meio, brincavam ao 1,2,3, diga lá outra vez. E de vez em quando às escondidinhas e depois aos médicos. Mas isso foi mais tarde, quando alguns miúdos já não eram miúdos e estavam a estudar fora da cidade. Éramos muitos, eles também e nessa altura o meu padrinho ainda comia. E chamava-me mal-vestida, sempre mal-vestida. E eu zangava-me sempre, à chegada e à partida. Zangava-me e ele ficava a rir-se muito no alto da escada enquanto eu subia ou descia. Agora diz-me que estou bonita, que sempre fui bonita e eu sinto falta de o ouvir chamar-me mal-vestida. O meu padrinho na mesa de madeira envernizada, não novo, mas mais novo porque estava mais gordo do que agora que tem a cara encovada e os olhos tristes. Não estava de certo a minha madrinha por perto porque ele estava bem disposto, a rir e a comer com apetite. Ele que passou toda a vida zangado com ela. Ela que se ria disso. Que continua a rir-se disso e agora já diz “se ele deixar de me de me descompor é mau sinal”. E eu concordo com ela. O meu padrinho que eu não ouvia mas que sei que estaria a dizer algo irónico, ou a comentar um facto qualquer de política que tanto o diverte e aborrece ao mesmo tempo. Foi a primeira pessoa que me fez perceber a ironia. E a fantasia que nem sempre é mentirosa, a fantasia do avô  retratado no quadro de capacete metálico e de outro século. A cópia de “O baile de Moulin de la Galette”, de Renoir, faziam-me contar-lhe histórias, ou ele a mim. Ele que tinha pássaros na varanda e que assobiava como eles. E que me deu um gato preto que cresceu e cresceu até se tornar no maior gato que até hoje já vi. Que me dá prendas na Páscoa como quando era menina. E eu dou-lhe flores no Domingo de Ramos. E quase nunca vejo agora. Nem nunca mais comi a sua comida. Nem me sentei mais ao seu colo. Então estava eu deitada a pensar no meu padrinho mais jovem, a comer com apetite vestido com uma camisa azul clarinho.


Anjos e Gigantes

22 Outubro, 2009

Vejo a luta entre seres fantasiosos: querubins, cupidos, anjos azuis, gigantes do pé de feijão, gigantes barbudos que comem com as mãos e moram nas nuvens ou em terras muito longe daqui. O gigante nem sempre é mau, mas quase sempre. O anjo nem sempre é bom, mas quase sempre. O anjo e o gigante às vezes riem-se. O gigante quando se ri fica um bom gigante. O anjo quando se ri fica um mau anjo. O anjo e o gigante. Os seres fantasiosos a que recorro.

E os pássaros que são seres reais mas voam. Como pode um ser real voar?

E a saia é de que cor? A saia do anjo é de que cor? A tua saia de gigante é de que tecido? Os troncos estão nús, sempre nús. Alguns anjos têm cabelos compridos que encobrem os torsos.  O vento não é capaz de os descobrir. Alguns gigantes têm os cabelos tão encrespados que o vento não os move. Vejo bichos brancos nos cabelos emaranhados e sujos deles.

Quando chove os anjos abrem o peito. Levantam a cabeça e flutuam pelo ar. Quando chove os gigantes fecham os ombros. Baixam a cabeça e pesam na terra. Não querem nada em troca quando chove. O anjo não quer nada. O gigante não quer nada.

E os bichos que estão predestinados à profundeza da terra. Como pode um ser real estar tão abaixo do solo?


A dizer-te a ti que estás tão longe de mim

21 Outubro, 2009

Fiz a estrada inúmeras vezes. Com o sol e a lua em todas a posições do céu e nunca tinha parado para molhar com urina aquela terra. Ontem parei. Raras as vontades.

O céu pelas nove e muitos dessa noite, o céu naquela paisagem, naquela terra que hoje se abriu à primeira chuva de Inverno. Choveu copiosamente toda a manhã, o cheiro que será mais fraco que o da terra vermelha, mas que embriaga. O som da água que de mim saía na terra que a absorvia. Depois de me cobrir de novo, de me endireitar, olhei defenitivamente o céu. E gritei. Gritei uns gritos graves e profundos. Vários gritos. Não eram gritos de desespero, eram gritos de consciência espacial. Aquela terra aberta, com a negritude das árvores, o céu escuro e cheio de buracos brilhantes, – contei dois aviões, a casinha de brincar ao meu lado. O carro desligado, nenhum ruído. Nenhum cão me respondeu. Nenhuma ave se assustou. Nenhum insecto se aproximou. Satisfeitas as minhas necessidades virei o pé direito, depois o esquerdo e cheguei aqui. A rua é de novo a rua. A casa é de novo a casa. E chove também. Chove como quando temos medo.

- Quando tiver medo, muito medo, afoga-me. Agarra a minha cabeça e mergulha-a na água. Não a largues, não te comovas. Afoga-me.