Admirável Mundo Novo

8 Fevereiro, 2010

As moscas não me deixam em sossego. O zum-zum de roda de mim, os toques na pele. Ali no chão várias asas de formigas termiteiras ondulantes com a brisa. Transparentes e com delicados veios. As formigas controem os montes de terra altos e depois os Homens chegam e apanham-nas. Servem-nas em bacias azuis. Parecem pequenos bagos de algum fruto. As mulheres carregam as crias nas costas. As capulanas que as seguram servem também para as limparem quando as crianças dependuradas nas costas libertam os dejectos. O cheiro ácido e os excrementos amarelos como grão de milho. Algumas mulheres e alguns homens têm os pés gretados. Umas solas grossas que se habituaram ao calor e caminham descalços mesmo no alcatrão ardente. Uma mulher pobre com uma menina suja senta-se e solta-a da capulana. Ficámos sentadas as duas num passeio à sombra. Passam as vendedoras de frutas, de amendoins, de fritos de banana. Tudo alojado na cabeça entre cestos, baldes ou bacias. A mulher brincava com a criança com uma caixa de Becel vazia. Quando a criança choramingou agarrou-a e meteu-lhe a mama na boca. A maioria das mulheres não pára no caminho para as alimentar. Fazem um pequeno movimento com o corpo e a cria desliza por baixo do braço em direcção ao leite. Na cidade os homens e as mulheres misturam-se em sapatos e pés descalços, fatos engomados e apenas capulanas. Todos num andar vagaroso por um chão barrento cheio de pedaços de plástico derretidos. As mulheres usam perucas com naturalidade ou os cabelos rapados. Eu ali no passeio parecia papel. Um mercado e eu da cor das galinhas dependuradas pelas patas às dezenas nas bicicletas a cacarejarem de cada vez que o motorista caía num buraco. É bonita África. Duas mulheres passam por mim e cheiram a peixe podre. África tem um cheiro adocicado da cor do pôr-do-sol. Alguns homens cheiram a suor ácido e pegajoso. À noite não há luz nas estradas. Homens e mulheres aparecem nos caminhos. Há quanto tempo estarão a caminhar? À noite as mulheres bamboleiam-se em frente aos espelhos. Quando um carro está avariado ou se alguém morre, as estradas são bloqueadas com ramos de árvores. No meio do mercado, mesmo nas margens do rio barrento, os homens lavam sapatilhas. Páram para me olhar. Pequenas fogueiras assam maçarocas de milho que crescem ao cinco em cada pé. De noite cada banca de mercado, ou cada esteira no chão tem uma vela que ilumina o material e essa é toda a luz da venda. Mesas plásticas por baixo das árvores têm mulheres sentadas em frente a telefones fixos a fazerem ligações a pedido. Uma fileira de máquinas Singer pretas com homens a costurarem fatos garridos de mulher. Mais adiante uma roncinante máquina de tricotar a fabricar casacos cor-de-rosa e azuis. Quando chove a terra fica com nuvens de vapor. Bebi junto à estrada o pior café de sempre. Os granulados inteiros a insistirem no caminho para a boca. Os homens passeim-se de mãos-dadas. Carregam o mundo em bicicletas. Às vezes toros de lenhas que começam junto à roda traseira, vão seguindo um caminho sobre o condutor até ultrapassarem o guiador. Amontoados com rigor numa curva improvável. Às vezes seis grades de Coca-Cola. Às vezes camas. Quando bebem o cachaço ficam com os olhos parados e amarelados. As mulheres escolhem quem lhes paga o corpo. As crianças correm soltas.


I. Série de palavras dispostas sem obediência a metro nem a rima.

29 Janeiro, 2010

As pistolas ali nas portas. Uma metalizada e leve, com uma flor particular de um rosa brilhante e forte, quase magenta, a  rodar em amplificadas luzes amarelas e azuis. É nova. A outra amarela, com o gatilho branco e a extremidade alaranjada, pesada com a água. É mais velha.

A cidade aligeira-se nas sargetas

Na complexa corda do tempo.


Estou prestes

26 Janeiro, 2010

Monsieur blanc-blue,

Desculpa-me. Em todos os meus seres, e nomes, e vidas, desculpa-me a preocupação.


Os Narizes Nem Sempre São Cómicos

24 Janeiro, 2010

 

Nem fungam só porque são grandes.

Dizem que demonstram personalidade.

Não acredito. E não preciso de justificar nada. É meu.  

É verdade que veio de muitos lados, mas é meu.


A Vida É Como Pintar as Unhas Num Comboio

23 Janeiro, 2010

Se eu tivesse muitas palavras diria que é um disparate em primeiro lugar. De quando em vez, naquele momento em que assistimos, em pé mas oscilando, ao nascer do dia. De um laranja improvável num daqueles dias do inverno. Neste momento António, dirijo-me directamente a ti, vamos classificar os laranjas e os azuis. E os negros, a beleza de todos aqueles negros sem olhos. Não te estou a falar de caveiras, de  homens enrrugados, que mexem as mãos de verdade, até são capazes de as queimar. Se usar agora o tom das searas de aveia e trigo, das ovelhas pelas searas. Dói aquilo tudo ali, como quando se abandona. Quando se faz uma viagem assim, não nos permitimos incomodar, estamos a recolher o tempo todo num frasco. Não me sento na cadeira que não tem o meu número e espero sempre que me venham sentar, acho aquilo tudo tão educado. Espero, que me custa a mim esperar? Eu tenho tempo para estar ali a esperar. Se queres saber, enquanto eu espero consigo ver coisas com uma nitidez impressionante. Mas nesses momentos impressiona-me a manipulação do sentimento. E sabes que no final gosto da apoteose da natureza. É só nesse momento que se resolve a vida. Confronta-se na tua cara e não há mais nada a fazer.


Teria palavras

17 Janeiro, 2010

Ontem diria coisas tristes. Hoje calo-me com o sentir cá dentro. As palavras não mudam o mundo.


Provocar-te

14 Janeiro, 2010

A tentação da tua boca, do teu hálito quente. Os teus lábios entreabrem-se e deitam-se nos meus. O peito rasga-se. O meu corpo humedece-se e a barriga precipita-se em entusiasmo. As mãos agarram-te impetuosamente. A tua boca continua na minha boca. A minha língua avara da tua. Já os meus braços estão perdidos. A centelha no baixo ventre.

- Fecha os olhos agora. Estou com as palmas das mãos no teu rosto. Aproximo-me de ti lentamente. A minha cabeça está inclinada para a direita. A língua preparou os meus lábios rijos. Beijo-te com pequenos toques. Chupo o teu lábio inferior. Sorvo a tua língua ansiosa que trepita em consumição. Canso as nossas bocas até que não sejas mais capaz de pensar e te abandones na minha boca.


Cantinas que sobejem no prazer e na necessidade.

9 Janeiro, 2010

 

A saltar de uma bolha para outra bolha a fim de não nascer filha de uma qualquer.

Os Homens com poder, dinheiro e conhecimento estão de braços cruzados. Sentados a observar que os Homens jamais serão iguais no mundo. Imóveis enquanto respiram o ar puro ou contaminado que escolhem respirar. Imóveis  para o choro dos meninos a quem ninguém lhes limpa o ranho. Imóveis para a fome da mãe que se deixa subnutrir com os filhos nas costas e que mexe os braços para que o fruto do seu ventre tenha comida. Imóveis para o desespero do homem que negociou a sua dignidade numa luta laboral. Imóveis para o olhar vazio dos velhos abandonados num sítio mal iluminado e bafiento. Imóveis para os jovens que se deixam ficar de olhos abertos e baços sem desejar nada.

Imóveis a respirar.

A política está somente para os sonhadores e os resistentes. Os outros devem ser afastados do poder latifundiário.

Está na hora de ventar a marcha.


Eu acredito

2 Janeiro, 2010

Laudate Dominum.


O silêncio das margens de um rio

29 Dezembro, 2009

Cabe lá tudo o que se pode guardar.


Ser Supremo

18 Dezembro, 2009

 

Tu sabes que eu quero algumas coisas só por algum tempo, quantas vezes uma só vez.

Este ano gostava muito de experimentar o tempo, ver todos os dias o mesmo, ver todos os dias diferente.


Trilho na cabeça

17 Dezembro, 2009

As caras que dizem o que sentem sem ter medo de o sentir não me saem da cabeça. Estão alojadas na frente, do lado direito da testa, por cima da sobrancelha. Estão ali paradas e quando as vejo o lado esquerdo da cabeça, mais atrás da testa, fica em movimento, oiço-as. Por todas elas tenho um golpe no lábio inferior, do lado esquerdo, porque me mordo com o meu dente incisivo mais saliente.


Zangada, zangadíssima.

16 Dezembro, 2009

Se eu levantar o dedo ele segue-me. Estou com a bola toda. Capice?

O que é este dedo que segues? Se for sempre o mesmo habitua-te, se for sempre novo acomoda-te.

Não, desta vez não há cor porque pode ser diferente. Apetece dar. O muito. O pouco. O nada.

Apetece dizer, – diz outra vez, diz-me? – Desta vez sem sujar os pés, nem a roupa, nem nada.


Ai… queima.

15 Dezembro, 2009

O fogo a crepitar na lareira, cada estalido é um estremecimento que provoca um entumecimento… ai.


Noz

14 Dezembro, 2009

 

Encontrar um mapa colorido para a ilha do tesouro não nos dá a coragem para enfrentar os animais que por lá nos esperam. Ou para desenterrar os cadáveres.


Ridículo

13 Dezembro, 2009

Desconvença-se, uma das coisas mesmo brilhantes de ter um passado é poder contar histórias. Não sabe mais nem menos, mas pode contar histórias. Forçar as mãos, os pés, o corpo, o coração dá-lhe vida, alguma pelo menos.

No índice do livrinho de auto-ajuda que tem que ter algum equilíbrio entre capítulos, ou então sem equilíbrio nenhum.


Restos

12 Dezembro, 2009

Se te chamar vil, verme, inútil, mesquinho, medíocre, ruim, contaminado, putrefacto, desprezível, fraco, não conseguirei abranger toda a tua imunda e vã existência.


E

12 Dezembro, 2009

Passou talvez um ano. É mentira que a pergunta já não importa porque a resposta só eu a imagino. De dado, a cavalo, montado. É, podia tudo ser mais simples, mas não era a mesma coisa. Ficou cá dentro cheio de vontade de sair um chorrilho de vida. As orelhas ardem-me e nem sei se por bem. A tempos descompassados, outras coisas e outras vozes, mas o infinito interrompido. E eu não percebo as perguntas. Uma voz jovem num corpo maduro que me quer dizer coisas. Guardo só o que não me perguntas. Sobressai a criança em mim, já começo a ver. Ensinaste-me tu isso. A criação, enquanto a virem, enquanto a vires.

A pergunta que queria fazer-te agora, primeiro, antes de tudo,-  por ter passado já um ano, ou quase, ou mais – qual era a viagem? Para onde íamos?

Vais brilhar como o sol. Que aqueça os demais.


às vezes nem por isso…

11 Dezembro, 2009

‘All men, by nature, lean toward knowledge’ – Aristóteles


Copiosamente

10 Dezembro, 2009

 

A cor de ferrugem espalhei-a nos dedos para que se confundam as mãos.  

Algumas casas transmitem o equilíbrio necessário para largarmos alguma coisa. Têm recantos a preto-e-branco e depois observamos uma margarida amarela num solitário de vidro onde a água tem uma trasnparência cinzenta. (Escarlate mas nem por isso belo o abandono.)

Os elevadores que nos encarceram, as chaves que se esquecem, os cozinhados que se pousam nas mesas. Os inícios numa grande tela, até parece que com gente.

Tenho dito várias coisas. Tenho-as dito como um sopro, ou sem lhes dar importância. Sinto-o como o suspiro que se solta em ti. Ando a contar dias e não sei porque os conto se sei que continuarei a contá-los, durante e depois. Nada disso me importa mais do que os dias que nos faltam.